A princípio, vivemos em uma democracia cultural. Dessa forma, é possível que uma atrocidade como “Helldriver” encontre defensores ou apreciadores. Entretanto, pode-se convir também que tais indivíduos mais gostam da bizarrice pela bizarrice do que propriamente de cinema. O diretor Yoshihiro Nishimura pretende fazer com que a sua obra se imponha pelos excessos de violência, sexo e escatologia, como se fosse uma espécie de manifesto contra o bom gosto, mas o resultado final é apenas estéril – o máximo que as cenas da produção podem causar é algum sorrisinho amarelo constrangido. Os efeitos especiais toscos, o roteiro qualquer nota e a narrativa amadora formam um todo constrangedor que no final das contas até tornam “Helldriver” uma experiência cinematográfica a ser conferida simplesmente pelo fato de ver como as coisas podem dar tão errado. E mesmo a pretensão de entrar numa galeria de obras antológicas na categoria de podreira trash acaba afundando, pois não há nem sombra, por exemplo, daquela atmosfera de fuleiragem ingênua de um Ed Wood.quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Helldriver
A princípio, vivemos em uma democracia cultural. Dessa forma, é possível que uma atrocidade como “Helldriver” encontre defensores ou apreciadores. Entretanto, pode-se convir também que tais indivíduos mais gostam da bizarrice pela bizarrice do que propriamente de cinema. O diretor Yoshihiro Nishimura pretende fazer com que a sua obra se imponha pelos excessos de violência, sexo e escatologia, como se fosse uma espécie de manifesto contra o bom gosto, mas o resultado final é apenas estéril – o máximo que as cenas da produção podem causar é algum sorrisinho amarelo constrangido. Os efeitos especiais toscos, o roteiro qualquer nota e a narrativa amadora formam um todo constrangedor que no final das contas até tornam “Helldriver” uma experiência cinematográfica a ser conferida simplesmente pelo fato de ver como as coisas podem dar tão errado. E mesmo a pretensão de entrar numa galeria de obras antológicas na categoria de podreira trash acaba afundando, pois não há nem sombra, por exemplo, daquela atmosfera de fuleiragem ingênua de um Ed Wood.domingo, 25 de dezembro de 2011
Rabies
Talvez boa parte do que pode motivar os cinéfilos em geral a assistir a “Rabies” (2011) seja a combinação do gênero com a nacionalidade: uma produção israelense de horror. Descontando o inusitado da origem, entretanto, o filme consegue reservar algumas surpresas. É provável que boa parte dos apreciadores do terror fiquem um tanto ressabiados pelo excesso de psicologização dos personagens e de subtramas de teor dramático, o que não parece condizer muitos às vezes com o estilo meio splater da obra (muita escatologia, sangue, vísceras e afins). Ainda sim, há um interessante equilíbrio entre os momentos de tensão com as sequências de violência explícita. Mesmo tendo por base uma trama centrada na figura de um psicopata sádico (recurso narrativo um tanto manjado), os diretores Aharon Keshales e Navot Papushado souberam criar algumas cenas efetivamente perturbadoras pela sua brutalidade e sordidez, principalmente quando surge a figura do policial corrupto e lascivo que sevicia duas jovens. No saldo geral, “Rabies” está longe de ser um marco ou obra-prima, mas se coloca acima da média do que vem sendo praticado ultimamente no gênero.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Warlock
É inegável que em certos aspectos “Warlock – O Demônio” (1989) envelheceu de forma esquisita como obra do gênero horror. Afinal, algumas sequências que deviam ser assustadoras e tensas acabam parecendo atualmente toscas pelas trucagens bagaceiras na comparação tecnológica com os efeitos especiais contemporâneos. É de se considerar, entretanto, que o filme ainda carrega um certo encanto atemporal pela sua estética, tanto pela ingenuidade das resoluções dramáticas quanto pela caracterização visual de algumas cenas (com um destaque especial para a bem elaborada reconstituição de época do século XVII das tomadas iniciais). A interpretação exagerada e cheia de fleuma de Julian Sands, no papel do personagem-título, também colabora para caracterizar “Warlock” como aquele tipo de produção que está longe de figurar como um clássico imprescindível, mas que ganha uma conotação cult dentro daquela linha de filmes que ficam num recanto obscuro no nosso imaginário cinematográfico.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Attack The Block
A década de 80 foi um período pródigo no gênero das aventuras juvenis. Diretores como Spielberg, Joe Dante e Richard Donner entregaram algumas de suas melhores obras em tal estilo cinematográfico. Curiosamente, 2011 foi um ano em que o gênero em questão e a estética dos cineastas mencionados receberam uma inesperada revitalização. Para começar, com o divertido “Super 8” e depois com o britânico “Attack The Block”. Neste último, entretanto, a recriação vai bem mais longe. O diretor Joe Cornish permeia sua obra com um humor crítico e cínico. Além disso, valoriza o estilo naquilo que ele tem de melhor: cenas de ação coreografadas com clareza e precisão, plenas de uma dimensão épica notável, com destaque para a seqüência final de combate entre o protagonista Moses (John Boyega) e as nojentas criaturas alienígenas, numa impressionante utilização do recurso da câmera lenta. O cineasta trabalha muito bem com uma atmosfera de ambiguidade, em que o tom de aventura escapista convive sem cerimônia com uma visão um tanto crua do cotidiano barra pesada e de classe média baixa dos conjuntos habitacionais londrinos, além do fato de que o estilo clássico de filmar de Cornish não prescinde de algumas modernidades expressivas (a excelente trilha sonora eletrônica é sintomático disso). Cornish tem ainda um faro notável para a direção dos atores – há, no mínimo, uma meia dúzia de caracterizações antológicas em seu elenco. E todas essas qualidades formam um todo poderoso que tornam “Attack The Block” a grande surpresa desta temporada cinematográfica.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Pov
Eu não disse que o negócio está disseminado? “Pov” é mais uma produção do gênero horror a utilizar o recurso da câmera subjetiva. O que a diferencia um pouco é que se trata de uma produção japonesa. Tal origem acaba até implicando numa abordagem diversa. Para começar, percebe-se um tom mais irônico na trama, enfocando algumas obsessões fetichistas tipicamente nipônicas (garotas colegiais bobinhas) e elementos em voga tanto nas sociedades ocidentais como nas orientais (programas televisivos de gosto duvidoso que oscilam entre o “informativo” e o reality show). Além disso, o filme traz bastante daquilo que se está acostumado a ver nas obras de horror recentes do cinema oriental: assombrações, relação entre o sobrenatural e a tecnologia moderna, ausência de finais felizes. Talvez aí esteja uma possível “originalidade” do filme: o encontro das tendências orientais e ocidentais do cinema de horror em uma mesma produção. “Pov” traz algumas soluções criativas em termos visuais e de roteiro, principalmente no seu terço final, em que há um jogo entre o “real” e aquilo que está registrado pela imagem televisiva. Outro ponto positivo é o fato dos personagens que manipulam a câmera serem supostamente profissionais faz com que o filme não tenha aquela impressão de estar tudo tremido ou fora de foco no momento de ação, permitindo, inclusive, que se observe boas trucagens.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Atividade Paranormal 3
Convenhamos que em boa parte destas produções de horror que utilizam o recurso da câmera subjetiva, em que a câmera é “operada” por um dos personagens, tal opção estética e narrativa se revela muito mais como uma desculpa para uma incompetência formal dos diretores. A câmera tremeu ou saiu de foco? Não há nenhuma grande cena em termos visuais? Ora, isso é coerente, afinal o personagem que “filmou” é amador, a intenção é que tudo pareça amador mesmo. Maldita “A Bruxa de Blair”... Ocasionalmente, entretanto, alguma obra a utilizar tal estilo de filmar consegue sair da mesmice e entregar um resultado que consegue cumprir com aquilo que é o mínimo em um filme do gênero terror: o de assustar e causar alguma tensão. “Atividade Paranormal 3” (2011) consegue entrar nesse pequeno e seleto clube. Entre os seus acertos, os diretores Henry Joost e Ariel Schulman encontram um bom pretexto para que a câmera tenha um procedimento mais regular e profissional durante o filme: o personagem que a opera trabalha no registro de festas de casamento. É claro que pode parecer um motivo meio cretino, mas para o filme funciona bem. O cara até se dá o direito a fazer experimentos artesanais para obter uma melhor panorâmica das imagens (afinal, o roteiro do filme se desenrola nos anos 80, época em que as tecnologias das filmadoras estavam bem abaixo das atuais). A trama desse novo capítulo da franquia também é bastante superior às partes anteriores – as cenas com trucagens e sustos são bem mais constantes, o que torna o filme visualmente mais rico, mas sem perder o senso de suspense (que também é maior agora). É claro que algumas ideias do roteiro não são exatamente novas, mas são clichês bem aproveitados. No cômputo geral, até deixa uma certa expectativa para o próximo filme da série (coisa que não ocorreu nas produções anteriores).
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Rock Brasília
Quem acompanhou o rock de Brasília quando o mesmo despontou na primeira metade da década de 80 sabe que as principais bandas de tal movimento não se destacaram especialmente pela técnica ou criatividade musical. O que houve naquele momento histórico foi uma conjunção de fatores específicos, indo desde a conjuntura econômico-social-política daquela época (os anos finais da ditadura e o começo da Nova República), passando pelo carisma e talento de Renato Russo e chegando na persistência e garra de alguns integrantes em particular. O grande acerto inicial do documentário “Rock Brasília – Era de Ouro” (2011) está em justamente não se concentrar nos méritos artísticos/musicais das bandas. O diretor Wladimir Carvalho busca um enfoque muito mais abrangente, sabendo evidenciar com precisão o contexto histórico de surgimento destes grupos, relacionando a vida de seus membros à própria evolução cultural da cidade (afinal, boa parte deles era filho de uma classe média alta que era base da vida econômica de Brasília – professores, burocratas, diplomatas). Os depoimentos colhidos são reveladores das variantes particulares que propiciaram a ascensão, apogeu e queda das bandas (e no caso do Capital Inicial, a volta improvável a um apogeu comercial ainda maior!). Carvalho mostra a veia apurada de documentarista ao saber extrair com sabedoria o essencial de cada entrevista, formatando de acordo com a sua proposta artística e conceitual. O fecho do filme é exemplar desta capacidade, em que as palavras e choro inesperados do pai dos irmãos Fê e Flávio Lemos do Capital Inicial sintetizam o espírito errático tanto do grupo em questão quanto do próprio movimento roqueiro oitentista brasiliense.
A saga Harry Potte
Atualmente, a série Harry Potter é conhecida mundialmente, mas poucos sabem informações sobre sua origem. A série é escrita pela escritora britânica J.K. Rowling e desde o lançamento do primeiro livro, em 1997, os livros ganharam grande popularidade e sucesso no mundo todo, dando origem a videojogos, filmes e outros itens.
Somando todos os livros publicados, a série Harry Potter venceu aproximadamente 400 milhões de exemplares mundialmente. O livro da série que mais agradou o público foi Harry Potter e a Pedra Filosofal, com cerca de 120 milhões de vendas. Graças ao grande sucesso da série, a escritora Rowling tornou-se a mulher mais rica na história da literatura.
Grande parte da série se passa na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde o foco é o conflito entre Harry Potter e o bruxo das trevas Lord Voldemort. Mas ao mesmo tempo, a série trata de temas como ambição, escolha, amizade, preconceito, crescimento, coragem, responsabilidade e outras complexidades.
Todos os livros foram planejados foram publicados, onde o sétimo livro, denominado Harry Potter and the Deathly Hallows foi lançado nos Estados Unidos, no Brasil e em Portugal no ano de 2007.
Os cinco primeiros livros originaram filmes de grande bilheteria, já o sexto filme da saga começou a ser filmado em outubro de 2007 e passou a ser exibido nos cinemas europeus, brasileiros e norte-americanos em 2009.
Atualmente, todos esperam o lançamento do último filme da saga, Harry Potter e as Relíquias da Morte, o qual promete emocionar platéias do mundo inteiro. O elenco do mesmo está incrível, valendo a pena esperar pelo seu lançamento.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
A biografia de Britney Spears
O principal motivo pelo qual a autora escreveu o livro, foi porque a imprensa, de um modo geral, jamais investigou a fundo a história dessa garota, que de uma família simples e humilde, alcançou o estrelato e a fama.
O livro, que se chama “Britney Spears – Uma história por trás do Sucesso”, tem cerca de 225 paginas, custa R$34,90 e acaba de ser lançado aqui no Brasil. Quem quiser saber mais sobre a vida e a carreira
domingo, 11 de dezembro de 2011
Um Gato em Paris
É interessante observar que a recente tendência dos últimos anos no cinema francês de revalorização do gênero policial se estendeu também para as animações. “Um Gato em Paris” (2010) é prova disso. Apesar de ter como protagonista um gato malandro e carismático, cuja dona é uma adorável garotinha, sua trama gira em torno de ladrões, assassinos, oficiais de polícia, trazendo até um clima de violência e sordidez. A crueza de tal roteiro, entretanto, acaba entrando em choque com o traço leve que predomina no filme, causando um contraste perturbador ao espectador. O filme evoca ainda uma certa atmosfera retrô, trazendo à mente algumas antigas e clássicas obras de Jean-Pierre Melville e Henri-Georges Clouzot. A trilha sonora, recheada de temas no estilo embalinho jazz, realça ainda mais a atmosfera atemporal do filme. No final das contas, “Um Gato em Paris” se configura muito mais como um vigoroso exercício estético do que propriamente entretenimento infantil.
Revista brasileira de medicina
Essa revista é muito procurada e desenvolve cada vez mais os conhecimentos de médicos e enfermeiros ou as pessoas que trabalham na área da saúde. Ela instrui de inovações e melhores maneira de agir.
São fundamentais para a atualização e o fornecimento de novidades para os médicos de todo o Brasil, são encontradas em bancas e podem ser adquiridas também em contratos com a revista ou em download na iternet.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
O Veneno Está na Mesa
A obra do documentarista Silvio Tendler sempre foi marcada pelo questionamento social e político, às vezes até beirando o panfletário. Na maioria das oportunidades, entretanto, o cineasta teve um elogiável cuidado formal com os seus filmes – o espectador podia não concordar com o teor ideológico do que estava sendo dito, mas reconhecia a dinâmica narrativa de Tendler, sua capacidade de criar tensão e prender a atenção de quem assiste às suas produções. Em “O Veneno Está na Mesa” (2011), essa combinação entre conteúdo e forma não fica bem equacionada. Por mais relevantes que sejam as denúncias levantadas no documentário, o excessivo tom jornalístico torna tudo arrastado e sonolento. O filme se concentra quase que apenas em depoimentos, com o diretor deixando de explorar alguns detalhes de ambientação que poderiam enriquecer a sua proposta (principalmente o aspecto de isolamento dos colonos que se recusam a usar agrotóxicos em sua lavoura – fica apenas levemente esboçado que tal atitude venha de uma possível condição cultural/étnica). É claro que “O Veneno Está na Mesa”, na sua essência, tenha mais preocupações educacionais e informativas do que um comprometimento com o lado “artístico”, mas talvez uma concepção cinematográfica menos dura tornasse a sua mensagem mais universal.
Os Agentes do Destino
Baseado em um conto de Philip K. Dick, o qual a série Fringe tem como referência maior, o filme não nega, nem por um instante, que se trata de um romance, mas o é à sua maneira.
Funcionando, com menos firmeza, como ficção científica e thriller de espionagem, o longa ainda consegue incutir dúvidas existenciais e incertezas sobre quaisquer decisões que tomamos (ou deixamos de tomar – o que não deixa de ser uma decisão). Para isso, o diretor novato George Nolfi (um dos roteiristas d’O Ultimato Bourne) escreveu um roteiro inteligente, capaz de entregar fatos a passos graduais sem comprometer o nosso interesse por um desfecho convincente.
Acostumado que está a escrever sobre espionagem, sendo roteirista, também, em Doze Homens e Outro Segredo e Sentinela, Nolfi demonstra sua capacidade para elaborar quebra-cabeças complexos sem exigir demais da inteligência do espectador, mas sem duvidar dela. Isso surte um interessante efeito de convite à obra, para que, junto aos protagonistas, consigamos desvendar o que se passa. É divertido.
Matt Damon e Emily Blunt, sempre corretos em suas atuações, convencem demonstrando entrosamento e uma química bastante favorável e, ajudados pela fotografia muito bem realizada e por um belíssimo figurino, conduzem a história com maestria e jamais perdem o carisma.
Carregado de referências, desde O Processo, de Kafka, até à obra do pintor surrealista belga Reneé Magritte, Os Agentes do Destino é, de fato, um bom filme. Diverte e induz o pensar sem dificuldade. Portanto é, realmente, uma pena que aquele nosso interesse por um desfecho convincente não seja atendido.
Funcionando, com menos firmeza, como ficção científica e thriller de espionagem, o longa ainda consegue incutir dúvidas existenciais e incertezas sobre quaisquer decisões que tomamos (ou deixamos de tomar – o que não deixa de ser uma decisão). Para isso, o diretor novato George Nolfi (um dos roteiristas d’O Ultimato Bourne) escreveu um roteiro inteligente, capaz de entregar fatos a passos graduais sem comprometer o nosso interesse por um desfecho convincente.
Acostumado que está a escrever sobre espionagem, sendo roteirista, também, em Doze Homens e Outro Segredo e Sentinela, Nolfi demonstra sua capacidade para elaborar quebra-cabeças complexos sem exigir demais da inteligência do espectador, mas sem duvidar dela. Isso surte um interessante efeito de convite à obra, para que, junto aos protagonistas, consigamos desvendar o que se passa. É divertido.
Matt Damon e Emily Blunt, sempre corretos em suas atuações, convencem demonstrando entrosamento e uma química bastante favorável e, ajudados pela fotografia muito bem realizada e por um belíssimo figurino, conduzem a história com maestria e jamais perdem o carisma.
Carregado de referências, desde O Processo, de Kafka, até à obra do pintor surrealista belga Reneé Magritte, Os Agentes do Destino é, de fato, um bom filme. Diverte e induz o pensar sem dificuldade. Portanto é, realmente, uma pena que aquele nosso interesse por um desfecho convincente não seja atendido.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Entre Segredos e Mentiras
Em sua estreia em uma obra ficcional, o diretor Andrew Jarecki deixa claro sua origem documentarista. O seu estilo de filmar em “Entre Segredos e Mentiras” (2010) não traz nada de exageros visuais ou dramáticos e nem maiores arroubos formais. O cineasta prefere uma abordagem mais cerebral e discreta de um caso real que por si já seria escandaloso. Tal opção criativa acaba se revelando adequada ao evidenciar a gradual e verossímil degeneração moral e psíquica do protagonista David Marks (Ryan Gosling), ao mesmo tempo que a trajetória do personagem adquire um caráter simbólico de conto moral a retratar o vazio existencial e a hipocrisia comportamental da sociedade norte-americana na virada entre as décadas de 70 e 80. Por mais que as atitudes de David sejam odiosas e doentias, Jarecki consegue manter uma atmosfera de impessoalidade e destituída de maniqueísmos – a loucura do personagem parece adquirir uma certa coerência com o ambiente em que ele se situa. A estética que domina “Entre Segredos e Mentiras” também colabora para acentuar essa visão seca e objetiva de Jarecki, com uma fotografia de tons pálidos e narrativa que oscila com elegância entre o presente e o passado. De se destacar ainda a sólida composição interpretativa de Gosling no papel principal, marcando David com gestos sutis (mas reveladores) e um olhar assustador pela imprevisibilidade que esconde.
Epígrafes do Romantismo
A Garota da Capa Vermelha
“Da diretora de Crepúsculo”. Essa é a primeira chamada do filme. Faltou lembrar à produção que isso não é exatamente um mérito. Por favor, não me tenha como preconceituoso! Catherine Hardwicke já esteve à frente do ótimo Aos Treze e do bom Os Reis de Dogtown, porém, infelizmente, parece ter resolvido enterrar uma carreira que poderia, sim, ser brilhante.
Apostando nos mesmos estereótipos massantemente desgastados da “Saga” Crepúsculo (a garota apaixonada e, ao mesmo tempo, desorientada disputada por dois rapazes opostos), a cineasta exibe uma película que requer coragem (para assistir), paciência (para suportar) e uma memória seletiva (para esquecer). Mesmo que alguns poucos lampejos daquela diretora de oito anos atrás se mostrem presentes (como as rápidas jogadas de câmera), nada seria suficiente para suplantar o roteiro (?).
O roteirista David Johnson, que, com A Orfã, também tivera um início promissor, realiza um trabalho sem propósito, com diálogos fracos e vagos e resoluções inexpressivas e previsíveis. Sua sorte é poder contar com o sempre excelente Gary Oldman (aqui, no papel de um sacerdote aficionado) para entoar o que escrevera e da admirável Julie Christie (que interpreta a “vovó”). Amanda Seyfried (Valerie – a Chapeuzinho), Lukas Hass (Padre Auguste) e Virginia Madsen (Suzette) inteiram a lista das interpretações que valem, ao menos, parte do ingresso.
Da mesma forma (visto de ângulos opostos, claro) estão os dois jovens péssimos atores que disputam Valerie, sendo um deles (Max Irons) filho do sensacional Jeremy Irons. Sem qualquer carisma, eles conseguem puxar a produção ainda mais para o buraco negro da inconsciência (como se ela não tivesse força suficiente para tal).
A fotografia, que chama a atenção por ser semelhante à da “saga” vampiresca, parece apostar no mesmo público pré-adolescente e adolescente que vibra com Edward, Bella e o lobo mau Jacob, assim como a triste (de ruim) direção de arte e a trilha sonora sem qualquer clímax.
Mas nem tudo são espinhos (como, felizmente, a maior parte do elenco comprova). De qualquer forma, 100 minutos não demoram para passar. E, algumas vezes, um filme ruim é tão bem-vindo quanto uma auto-injeção na testa... serve para despertar da inércia.
Apostando nos mesmos estereótipos massantemente desgastados da “Saga” Crepúsculo (a garota apaixonada e, ao mesmo tempo, desorientada disputada por dois rapazes opostos), a cineasta exibe uma película que requer coragem (para assistir), paciência (para suportar) e uma memória seletiva (para esquecer). Mesmo que alguns poucos lampejos daquela diretora de oito anos atrás se mostrem presentes (como as rápidas jogadas de câmera), nada seria suficiente para suplantar o roteiro (?).
O roteirista David Johnson, que, com A Orfã, também tivera um início promissor, realiza um trabalho sem propósito, com diálogos fracos e vagos e resoluções inexpressivas e previsíveis. Sua sorte é poder contar com o sempre excelente Gary Oldman (aqui, no papel de um sacerdote aficionado) para entoar o que escrevera e da admirável Julie Christie (que interpreta a “vovó”). Amanda Seyfried (Valerie – a Chapeuzinho), Lukas Hass (Padre Auguste) e Virginia Madsen (Suzette) inteiram a lista das interpretações que valem, ao menos, parte do ingresso.
Da mesma forma (visto de ângulos opostos, claro) estão os dois jovens péssimos atores que disputam Valerie, sendo um deles (Max Irons) filho do sensacional Jeremy Irons. Sem qualquer carisma, eles conseguem puxar a produção ainda mais para o buraco negro da inconsciência (como se ela não tivesse força suficiente para tal).
A fotografia, que chama a atenção por ser semelhante à da “saga” vampiresca, parece apostar no mesmo público pré-adolescente e adolescente que vibra com Edward, Bella e o lobo mau Jacob, assim como a triste (de ruim) direção de arte e a trilha sonora sem qualquer clímax.
Mas nem tudo são espinhos (como, felizmente, a maior parte do elenco comprova). De qualquer forma, 100 minutos não demoram para passar. E, algumas vezes, um filme ruim é tão bem-vindo quanto uma auto-injeção na testa... serve para despertar da inércia.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Eu Queria Ter a Sua Vida
Costumo dizer que os grandes problemas de um filme não residem em seus clichês temáticos, mas sim na sua abordagem formal. Ou seja, não importa muito a história como se conta, mas a forma com que tal história seja contada. Assim, “Eu Queria Ter a Sua Vida” (2011), mais uma comédia a ter como mote central do roteiro a troca de corpos entre os personagens principais, poderia merecer alguma chance, mesmo com a sua trama para lá de batida. A sua primeira meia hora até chega a ser promissora, principalmente por investir num humor escatológico maior que o habitual no gênero. Com o seu desenrolar, entretanto, a produção se afunda em convencionalismos excessivos, além de uma estrutura capenga de conto moral destituído de quaisquer ousadias. É como se a falta do que dizer em termos temáticos contaminasse a própria narrativa. O meu sentimento ao final da sensação foi o de não querer ver por um bom tempo alguma produção envolvendo a temática em questão...
Barroco científico
Um das mais notáveis análises da obra de Euclides da Cunha, peça fundamental da fortuna crítica sobre o autor d'Os Sertões (1902), é o ensaio “Euclides da Cunha: revelador da realidade brasileira”, de Gilberto Freyre. Com linguagem sedutora, o escritor pernambucano apresenta aspectos centrais da produção intelectual de Euclides – “um dos escritores brasileiros que maior influência vêm exercendo sobre a gente do seu país e maior atenção da parte de estrangeiros vêm atraindo para a cultura, em geral, e para as letras, em particular, de um ainda obscuro Brasil”. Os trechos que seguem foram retirados das obras completas de Euclides da Cunha (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995, vol. I).
“A verdade é que Euclides da Cunha escreveu perigosamente. Transpôs para a arte de escrever o viver perigosamente de que falava Nietzsche. Escreveu num estilo não só barroco – esplendidamente barroco – como perigosamente próximo do precioso, do pedante, do bombástico, do oratório, do retórico, do gongórico, sem afundar-se em nenhum desses perigos. Deixando-o apenas tocar por eles; roçando por vezes pelos seus excessos; salvando-se como um bailarino perito em saltos-mortais, de extremos de má eloqüência que o teriam levado à desgraça literária e ao fracasso artístico. Que o teriam tornado outro Coelho Neto.
É um escritor cujo gosto, sem ser o convencionalmente bom, dos clássicos medidos e claros, nos dá a idéia de estar sempre em perigo: o perigo de tornar-se absolutamente mau. Mau segundo todos os padrões: os clássicos e os anticlássicos. Apenas esse risco nunca se realiza de todo. Nunca passa inteiramente de risco à desgraça literária. O autor d’Os Sertões nunca chega a ser catastrófico em seus colapsos de má eloqüência. Euclides da Cunha não nos desaponta em momento algum com uma só expressão de inconfundível mau gosto; ou de indiscutível preciosismo; ou de absoluto gongorismo. O que nele é freqüente é o gosto duvidoso, ambíguo e, por conseguinte, discutível.
[...]
Euclides foi escritor que escreveu quase sempre declamando [...]. Ouvido, Euclides vem sendo há mais de cinquenta anos por muitos dos que o vêm lendo; entendido por outros tantos; admirado por quase todos. Pois é escritor dos que, mesmo quando não são plenamente entendidos, são agradáveis de ser ouvidos através do que escrevem. Escritores nascidos com boa voz. Nascidos escritores sonoros e que potentemente sonoros se conservam, mesmo quando suas mensagens perdem a potência intelectual.” (p. 18)
Gilberto Freyre é hábil analista da escrita monumental de Euclides, a qual descreve através de um sem número de formulações conceptistas. Musical também, também ele nascido com boa voz, apresenta este “revelador da realidade brasileira” que foi Euclides de modo saboroso. Dois outros trechos interessantíssimos seguem adiante:
“Euclides pertence ao número de autores que não se deixam buscar ou procurar pelo leitor: vêm ao seu encontro. Apresentam-se. Exibem-se. Nenhum escritor de língua portuguesa mais presente na sua literatura do que ele. Nenhum mais ostensivo na sua presença.” (p. 23)
Caráter marcante da escrita de Euclides, ela evoca a figura de outro escritor do momento pré-modernista no Brasil – a de Augusto dos Anjos. O poeta paraibano doEu decalca com traços fortes o eu lírico, que gesticula enfaticamente entre as “perpétuas grades” de seus versos singularíssimos. E não é preciso muita investigação para que encontremos a figura do poeta a apresentar-se na gesticulação desse eu lírico, tantas vezes autobiográfico. Passemos ao último trecho selecionado, que trata do “brasileirismo” de Euclides:
“Seu próprio brasileirismo, por vezes enfático, talvez fosse uma expressão do que o autor julgava ser, em si mesmo, presença ameríndia: tapuia. Admitia que fosse um tapuio modificado por outras presenças – pela ‘grega’ e pela ‘celta’. Mas a consciência de ser homem de sangue ameríndio parece ter-se tornado nele outra consciência: a de dever ser um escritor com alguma coisa de não-europeu e até de antieuropeu em sua visão do ambiente nativo e em sua expressão ou em sua interpretação desse ambiente. Não só escritor: homem público.”
Se Beber, não Case! - Parte 2
O filme original estabeleceu uma fórmula certeira: inicia no ápice do caos, seguido de um flashback e termina com a exibição das fotos que provam a origem dos problemas. Em “Se Beber, não Case 2” temos a mesma boa piada sendo repetida, mudando apenas o cenário. É mais do mesmo, porém satisfatório!
Excetuando-se uma perceptível quebra de ritmo após sua primeira hora (que volta a engrenar próximo ao fim), o projeto do diretor Todd Phillips irá arrancar sonoras gargalhadas em pelo menos três momentos (lógico que não irei lhes contar quais). Assim como o primeiro, se trata basicamente de uma reunião de esquetes englobando diversos tipos de humor, sendo que neste segundo é dado maior enfoque ao slapstick (pastelão). Também fica claro que o personagem carismático de Zach Galifianakis (Alan) é a força condutora da obra. Basta ele aparecer em cena que começamos a rir, já antecipando suas tiradas sensacionais!
Um parágrafo direcionado aos possíveis detratores: apreciar (ou não) o estilo do filme é questão de gosto e preferência, mas é preciso entender que não existe apenas uma forma de fazer comédia, ou alguma que se possa afirmar ser “melhor”. Existem melhores em cada estilo, portanto não comparem “Se Beber, não Case 2” com uma comédia do Monty Python, nem com uma do Woody Allen, pois além de estarem cometendo uma injustiça, ainda demonstram pouco conhecimento desta arte como um todo. Se quiserem comparar, que seja com o original ou até mesmo com “Quem vai ficar com Mary?”
O filme não evolui os conceitos do original, porém diverte da mesma forma. Por não ter o mesmo “efeito surpresa”, o roteiro apela para um humor mais grosseiro. Mas se você entrar no cinema sabendo o que irá encontrar, sairá muito satisfeito.
Excetuando-se uma perceptível quebra de ritmo após sua primeira hora (que volta a engrenar próximo ao fim), o projeto do diretor Todd Phillips irá arrancar sonoras gargalhadas em pelo menos três momentos (lógico que não irei lhes contar quais). Assim como o primeiro, se trata basicamente de uma reunião de esquetes englobando diversos tipos de humor, sendo que neste segundo é dado maior enfoque ao slapstick (pastelão). Também fica claro que o personagem carismático de Zach Galifianakis (Alan) é a força condutora da obra. Basta ele aparecer em cena que começamos a rir, já antecipando suas tiradas sensacionais!
Um parágrafo direcionado aos possíveis detratores: apreciar (ou não) o estilo do filme é questão de gosto e preferência, mas é preciso entender que não existe apenas uma forma de fazer comédia, ou alguma que se possa afirmar ser “melhor”. Existem melhores em cada estilo, portanto não comparem “Se Beber, não Case 2” com uma comédia do Monty Python, nem com uma do Woody Allen, pois além de estarem cometendo uma injustiça, ainda demonstram pouco conhecimento desta arte como um todo. Se quiserem comparar, que seja com o original ou até mesmo com “Quem vai ficar com Mary?”
O filme não evolui os conceitos do original, porém diverte da mesma forma. Por não ter o mesmo “efeito surpresa”, o roteiro apela para um humor mais grosseiro. Mas se você entrar no cinema sabendo o que irá encontrar, sairá muito satisfeito.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Uma introdução
A Falta Que Nos Move
A Falta Que Nos Move é sobre amizades e histórias familiares. É um filme dentro de um filme. Em cena, o encontro de um grupo de amigos na véspera da noite de Natal. Eles se reúnem com o objetivo de fazer um longa-metragem, enquanto esperam para jantar uma pessoa que não sabem quem é, nem se vai realmente aparecer. A partir desse encontro, alegrias, frustrações, ausências e paixões vêm à tona no limite da tensão.
Longe da morosidade habitual presente na maioria das adaptações de textos teatrais que levam o formato dos palcos para as telas, com raras exceções, claro, Jatahy consegue misturar ficção e realidade propondo um interessante jogo de cena. Inserindo a Metalinguagem, a diretora trás o público para dentro da história, ampliando as possibilidades do gênero indo além do experimental.
Elenco afiado que vive eles mesmos ao mesmo tempo em que interpretam diferentes situações como personagens. Com uma direção ao mesmo tempo rica e curiosa após cinco meses de ensaio Jatahy criou um delicioso jogo de cena rico em atuações. A Falta Que Nos Move é um dos melhores filmes da temporada e vale a pena ser visto e revisto.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Os Três Mosqueteiros
O desastre artístico que representa esta mais recente versão cinematográfica de “Os Três Mosqueteiros” (2011) não tem relação com uma possível falta de fidelidade com o original literário. Afinal, se as mudanças viessem para tornar a obra mais funcional ou atualizada, não haveria grandes deméritos. O problema do filme é a sua equivocada concepção estética e narrativa – em boa parte da produção, temos a impressão de estarmos vendo um grande e genérico vídeo game (não à toa, o diretor Paul W. S. Anderson foi o responsável pela franquia para os cinemas da versão dos jogos “Resident Evil”). Tudo é basicamente agitado, espalhafatoso e barulhento, mas o efeito sobre nossa percepção sensorial é estéril. Algumas ideias envolvendo uma modernização tecnológica e uma abordagem mais cínica e violenta para situações e personagens são interessantes em termos teóricos, mas têm resultados práticos rasos e dramaticamente nulos. No final das contas, o que salva um pouco “Os Três Mosqueteiros” são algumas boas escolhas de elenco, mas que acabam se perdendo no oceano de incompetência que domina a obra.
projeções de uma obra
OS PINGUINS DO PAPAI
O diretor Mark Waters (de “E se fosse Verdade...”) evita os obstáculos do roteiro e transforma o que fatalmente seria (em mãos menos capazes) um “filme de uma piada só”, em um produto mais interessante. O ambiente do filme pode ser gelado, porém se nota a cada frame um coração quente pulsando. Ele não “reinventa a roda”, mas cumpre seu papel de maneira exemplar.
Baseado em um clássico livro infantil de 1938 (de Richard e Florence Atwater), o roteiro retém o essencial: a trajetória de um homem que aprende a dar valor à sua família, após sua convivência com pingüins. Carrey vive Tommy Popper, um homem que vive de vender sonhos como uma maneira de fechar negócios, porém ele próprio negligenciava a fantasia em sua própria vida. Suas aventuras de criança, quando recriava em sua imaginação os atos de heroísmo de seu pai (que vivia viajando e somente se comunicava com ele por rádio), ocupavam agora um recôndito sombrio em seu coração. Escravo de sua rotina, pouco se emociona ao saber que seu pai havia falecido, porém a herança pouco usual que ele lhe oferece, irá fazê-lo repensar todas as suas escolhas.
As várias referências explícitas à Chaplin não escondem a inspiração da obra, que é honestamente infantil em essência. A presença no elenco da veterana Angela Lansbury (Van Gundy) é um afago nos cinéfilos mais dedicados. Sem dúvida, “Os Pinguins do Papai” é o melhor filme de Jim Carrey em muitos anos, que compensa suas falhas com muito coração e sensibilidade.
domingo, 4 de dezembro de 2011
Transformers: O Lado Oculto da Lua
Confesso que gosto da ousadia do diretor em adaptar personagens que tão complexos para o cinema. Ao contrário de outros filmes que adaptados para a tela grande, possuem uma viga mestra em que se basear, como os famosos heróis dos quadrinhos que possuem um perfil de cada personagem. Robôs que surgiram como brinquedos e depois ganharam fama graças a desenhos animados dos anos 80 carecem de uma origem e perfis melhor delineados. Porém o diretor tem o péssimo hábito de pesar a mão nas cenas de ação. E isso, a exemplo da segunda aventura, se repete à exaustão.
Nessa nova aventura, os Autobots, liderados por Optimus Prime (Peter Cullen), participam de missões secretas ao lado dos humanos, onde tentam exterminar os Decepticons existentes no planeta. Um dia Optimus descobre que os humanos lhe esconderam algo ocorrido no lado oculto da Lua. Paralelamente, Sam Witwicky (Shia LaBeouf) vive com sua nova namorada, Carly (Rosie Huntington-Whiteley), e está à procura de emprego.
Esse exagero somado a sua longa projeção – são quase 3 horas de filme – devem cansar o maior dos amantes desse gênero. Assim como em outros longas capitaneados por Bay, Transformers se baseia em explosões, correria, tiros e tudo mais. E entre uma cena e outra, juras de amor e toques de comédia. Sem saber unir tantos elementos, Bay perde o fôlego no meio do filme depois de um início promissor. Mas vale a pena destacar os ótimos efeitos visuais e o 3D de Transformers. Isso mais as boas participações de John Malkovich e Francis McDormand valem o ingresso.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Jules e Jim
De dez em dez anos revejo “Jules e Jim” (esqueça o infeliz título brasileiro “Uma mulher para dois”), obra maior de Francois Truffaut, que faz frente a “Os inconpreendidos” e “A noite americana”. A verdade é que a cada audição, o filme fica melhor. Na chuvosa noite natalense da terça 12 de julho, “Jules e Jim” me pareceu ainda mais intenso e poético, Jeanne Morreau ainda mais linda e a amizade dos protagonistas ainda mais leal. Há pouco o que se dizer de novo sobre o filme, supra resenhado e comentado que foi. Já se falou quase tudo sobre sua narrativa ágil, sobre sua amoralidade quase inocente, sobre a poesia em cada fotograma. Há quem ache que o filme verse sobre um triângulo amoroso. Na verdade, o filme fala sobre amizade, em sua potência máxima. Uma amizade que resiste ao tempo, a uma guerra mundial e até mesmo a uma mulher como Catherine. Deveria ser obrigatório para cada ser humano assistir a “Jules et Jim” pelo menos uma vez na vida. Ah, segue acima a cena em que a musa Jeanne Morreau canta “La tourbillon”. E a foto acima, do trio correndo em uma plataforma de trem, é de uma cena que tornou-se há muito um ícone cinematográfico, tendo sido citada e homenageada em diversos filmes como “Os sonhadores” e “Canções de amor”.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
O Casamento do meu Ex
“O Casamento do meu Ex” é desinteressante e previsível. Com atores mal explorados pelo fraco roteiro, razão pela qual os poucos momentos potencialmente dramáticos soem falsos, seja pelas situações formulaicas ou por não conseguirmos nos conectar emocionalmente com os personagens. A diretora inexpressiva Galt Niederhoffer adapta seu livro e parece não conseguir traduzi-lo com imparcialidade, carregando com mão pesada certas passagens.
Na trama testemunhamos o reencontro de um grupo de amigos da faculdade no casamento de um deles. Recebemos então longos diálogos (a qualidade de alguns me fez sentir falta do cinema mudo!) e típicas discussões entre pseudo-intelectuais (comuns no cinema indie). Como público, somos como convidados indesejados, devido ao aparente desleixo em nos apresentar minimamente os personagens e suas motivações.
As atuações são satisfatórias, mas sem brilho. Katie Holmes (Laura) e Anna Paquin (Lila) protagonizam talvez o único momento em que chegamos a acreditar que existe algum ser humano sentado na cadeira de diretor, próximo ao final do filme quando discutem a respeito de um vestido de casamento.
Se o compararmos com obras similares, como “O Casamento de Rachel” e “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas”, o filme se revela uma tentativa frágil com alguma pretensão e pouco conteúdo, valendo apenas pela bela locação e fotografia de Sam Levy.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Figurantes
Rainer Maria Rilke frequentava o Jardin des Plantes, em Paris, para “aprender a ver”. Um exercício ocular, uma contemplação em câmara lenta, para habituar a vista aos aspectos que o observador comum julgava irrelevantes.
Sérgio Medeiros, com estes Figurantes, transfere a visão direta, ainda que detalhista, para um surpreender introspectivo do que “ficou sem ser visto”. Um olhar pelos interstícios, a captação do momento estático entre um fotograma e outro, o flash que intermedeia a visão real e a percepção imaginária. Ele “vê” o que só pode ser visto se abstraída a
impressão visual oftálmica em favor da visibilidade extrassensorial. Seriam “fragmentos de contemplação” que, não raro, associam sua espectralidade a um requintado poder associativo de sensações olfativas e táteis.
São figurantes ainda não escalados para os seus papéis na vida real ou que já a transcenderam e nos levam ao “pós-espetáculo” de uma realidade virtual.
Ivo Barroso
São muitos, mais de cem, os “figurantes” de que trata Sérgio Medeiros neste livro de poemas. Quem são eles? Ou melhor: o que são eles? Insetos, talvez; pássaros; mendigos – ou qualquer outra coisa que se pareça com isso. Isso o quê, exatamente?
Stéphane Mallarmé dizia que na descoberta, na decifração de um símbolo poético está boa parte do prazer do leitor. Mas a frase não se resume a um jogo de esconde-esconde, aparentemente meio frívolo e “decadentista”, entre quem escreve e quem lê. Quando – para citar um exemplo famoso da estética simbolista – um leque de mulher é “traduzido” em verso e se transforma no “branco voo fechado que pousa sobre o fogo de um bracelete”, está em curso algo mais do que uma simples charada de salão.
O que se celebra é o poder da poesia para “instabilizar” as coisas – um leque é uma asa branca, uma asa fechada é um voo, um voo pode ficar pousado, mas não sobre a terra, e sim sobre o fogo, e nada que pousa, por assim dizer, fica no mesmo lugar. A forma “fechada” do verso, em seu silêncio escrito, paradoxalmente se abre num leque de sentidos, e o som das palavras, que batem como asas, sempre se ouve quando se lê.
Seja como for, pensamos sempre na metáfora como uma “aproximação” entre coisas distantes, reunidas por alguma semelhança secreta. Sérgio Medeiros faz, a meu ver, o caminho inverso: distancia, isola, separa os elementos da metáfora – de modo que cada um parece funcionar por si mesmo, em anotações de extraordinária precisão.
Sobre o centésimo nono “figurante”, por exemplo, sabemos apenas que “No nevoeiro, ele adere ao morro/ Ou se planta, repleto de espadas”.
Como já estamos no final do livro, nossa atenção encontra-se suficientemente treinada para perceber do que se trata – e de
qual “isso”/ ou de qual “aquilo”, Sérgio Medeiros está falando. Mas a respiração entre um verso e outro, o “branco” entre um poema e o seguinte, deixam cada imagem funcionar por si.
Antes de decifrar “a coisa”, imaginamos tudo o que, como um nevoeiro, seja capaz de “aderir” ao “morro” – a começar pelo próprio nevoeiro. Em outras palavras, a imagem de um nevoeiro “aderindo” ao morro já seria poética em si mesma; impõe-se sozinha à nossa consideração, à nossa fantasia. Um salto no tempo e nas circunstâncias é feito, então, e temos diante dos olhos algo que “se planta, repleto de espadas”. O leitor se confronta com uma imagem de natureza e conotações totalmente diversas, como se jogado de repente em outro fuso horário.
Como unificar as duas imagens num sentido só? Lendo e relendo Figurantes, aos poucos essa operação vai se tornando possível para nós – porque, como em toda grande poesia, intelectualismo e sedução nunca se separam realmente na obra de Sérgio Medeiros.
A metáfora mais hermética pode ser, vá lá o termo, penetrada, quando a linguagem se entrega, com a intensidade e a arte que vemos aqui, a erotizar integralmente o mundo.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Não Tenha Medo do Escuro
Nos últimos anos, os filmes mais comentados e cultuados no gênero horror têm se concentrado no já gasto estilo câmera subjetiva com enfoque pseudo-documental. Ou seja, aquelas produções em que se vê a história se desenrolar pela ótica de uma câmera que é conduzida por um dos personagens. Eventualmente, até se produziu algo de realmente relevante nesta forma de conduzir a trama, mas no mais das vezes tal procedimento serviu apenas para mascarar a pasmaceira criativa dos diretores. “Não Tenha Medo do Escuro” (2010) prova que a boa e velha maneira clássica de filmar uma obra de terror ainda consegue gerar os devidos calafrios de tensão sem precisar apelar para invencionices estéreis. O diretor Troy Nixey não se furta de usar alguns dos mais básicos clichês do gênero: casa mal assombrada, um segredo do passado mal escondido, uma família em crise (que com o conflito com o mal é obrigada a se unir), uma criança que se defronta com o sobrenatural (mas a qual ninguém dá crédito). Nixey embala tudo isso com convicção e estilo, abusando de uma estética gótica que beira o barroco, além de saber criar com precisão uma atmosfera de tensão angustiante. Outro acerto do filme está no design das criaturas que atormentam a pequena Sally (Bailee Madison): um misto certeiro entre o infantil e o devidamente repulsivo. Não é a toa, aliás, que o nome de Guillermo Del Toro esteja nos créditos de produção e roteiro – boa parte dos méritos de “Não Tenha Medo do Escuro” remetem ao melhores de produções anteriores concebidas pelo diretor mexicano.
Teatro completo
Genial, louco, enigmático, profético, rebelde, ousado. José Joaquim de Campos Leão (1829-1883) era tudo isso. Mas antes da metamorfose mental que o transubstanciou em Qorpo-Santo, Campos Leão não passava de um pacato professor e um pressuroso homem público que chegou a se eleger vereador. Ele nasceu na vila do Triunfo, no interior do Rio Grande do Sul. Casou-se, teve quatro filhos, mudou-se para Porto Alegre. Aos 35 anos, alterações de comportamento levaram-no a ser acusado na justiça de alienação. Deu então início a uma guerra pela preservação de seus direitos que durou até a morte. Nesse conflito, Campos Leão perdeu todas as batalhas. Devemos sua Ensiqlopédia – obra caleidoscópica e incomum, publicada em nove volumes em 1877, onde foram incluídos os textos teatrais reunidos neste livro – à luta que travou contra a família, a sociedade e a enfermidade mental.
As peças que compõem o teatro de Qorpo-Santo têm uma longa história. Escritas na estranha grafia proposta pelo autor, foram todas fruto de um período de febril criatividade de Qorpo-Santo, que se estendeu de 31 de janeiro e 16 de maio de 1866. Uma década mais tarde chegaram ao prelo no volume IV da Ensiqlopédia. Levaram quase um século para deixar o papel e tomar forma no palco. Consideradas por seus contemporâneos obras de um insano, caíram no esquecimento, do mesmo modo que toda a produção de Qorpo-Santo, até serem resgatadas desse buraco negro em meados do século 20, devido ao esforço de intelectuais e artistas gaúchos.
No universo delirante destes textos teatrais, Qorpo-Santo mostrou homens e mulheres presas de contradições terríveis. Elaborou tramas que envolviam adultério, homossexualidade, violência, inconformismo. E isso num momento em que o grande sucesso do teatro em todo o mundo era A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, com sua dramaturgia bem- comportada e a esmagadora vitória da moral burguesa ao final. Na distante e provinciana Porto Alegre, Qorpo-Santo inventava um teatro feito de irreverência, arbitrariedade, absoluto desprezo pelas convenções. Hoje sou um, amanhã outro, As relações naturais e Um credor da Fazenda Nacional e outras muitas de suas peças eram animadas por furiosa oratória que fustigava as convenções e investia contra o grupo social que Dumas consagrava e a cujos preceitos se curvava.
A presente edição do teatro de Qorpo-Santo é enriquecida por um ensaio/prefácio de Eudinyr Fraga, especialista no assunto. Fraga, professor que já dedicou um livro ao escritor gaúcho, sintetiza aqui com finura e grande precisão a trajetória de José Joaquim de Campos Leão. Também recoloca os pingos nos ii ao provar por a+b que, ao contrário do que se afirmou durante décadas, o teatro de Campos Leão não tem a ver com o teatro do absurdo de Eugène Ionesco e Samuel Beckett, mas sim com o surrealismo de Breton, Duchamp e companhia. No mundo dos sonhos recuperados, do mergulho no inconsciente, é que deve de ser encaixado Qorpo-Santo, um homem atormentado, humilhado e ignorado por seus contemporâneos, que se vingou de seus opressores, homens “normais”, hoje esquecidos, com uma obra que não apenas resistiu com bravura à passagem do tempo como, a cada dia, soa mais intri-gante, desafiadora e vital.
A Casa
“A Casa” é puro marketing! Estruturalmente não existe nada que se possa chamar de cinema nesta brincadeira cara. A própria chamada já vende um produto mentiroso: “O primeiro filme de terror filmado em um único plano sequência”. Não precisa muita atenção para perceber que a obra possui setenta minutos, porém inicia de manhã e termina à noite! É o dia mais curto da história do mundo! Pior que isto, não existe possibilidade de filmar algo por este tempo em um único plano sequência sem cortes. O mesmo recurso utilizado por Hitchcock em “Festim Diabólico” se encontra neste, ou seja, existem cortes discretos em cenas escuras.
Todos estes problemas poderiam ser esquecidos, caso o roteiro fosse aceitável, mas não é o que acontece. Os poucos momentos de sustos não o tornam mais interessante que um passeio na mais medíocre montanha russa. As atuações chegam a ser embaraçosas em diversas cenas, mesmo levando em consideração o gênero e o público alvo do produto. O diretor uruguaio Gustavo Hernandéz até tenta elaborar criativas maneiras de contornar o baixo orçamento, porém não consegue salvar o projeto, que ainda entrega um final (no mínimo) decepcionante.
Com certeza os Estados Unidos irão criar uma refilmagem, que possivelmente será tão medíocre quanto o filme original, porém com o triplo da verba. O mais triste é pensar que se tratava de uma ótima idéia, infelizmente desperdiçada.
domingo, 27 de novembro de 2011
Amizade Colorida
O gênero comédia romântica costuma ser uma espécie de camisa de força criativa. É claro que de vez em quando alguém consegue ousar ou propor algo de novo. Mas na maioria das vezes, por melhores que sejam as intenções iniciais dos respectivos diretores, as obras que trafegam por tal linha acabam caindo na mesmice. “Amizade Colorida” (2011) é um exemplo claro disso. A produção se propõe na sua primeira metade a ironizar os clichês básicos do gênero, principalmente ao contextualizar tais lugares comuns diante das particularidades comportamentais ocidentais da atualidade, o que até acaba rendendo momentos efetivamente engraçados. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, o filme acaba enveredando por um beco sem saída, diante da impossibilidade de levar esta visão mais ácida até as últimas conseqüências. Assim, acaba se rendendo a todas as previsibilidades possíveis e a uma concepção estética pouco inspirada, aliado ao fato dos personagens ficarem piorarem progressivamente na sua caracterização – afinal, por que a protagonista Jamie (Mila Kunis), gatinha e simpática, é tão traumatizada com relacionamentos? E as coisas degringolam de vez quando lembramos que recentemente foi lançada a insossa “Sexo Sem Compromisso” (2011), de roteiro praticamente igual.
sábado, 26 de novembro de 2011
João felpudo
Quando o médico psiquiatra, pensador liberal e intelectual Heinrich Hoffmann (1809-1894) quis providenciar um livro como presente do Natal de 1844 para o filho mais velho Carl, de três anos, teve muitas dificuldades – como contou no texto reproduzido em posfácio desta edição. E quando então resolveu ele mesmo escrever e ilustrar um, nem com toda imaginação previu que Der Struwwelpeter se tornaria um dos maiores best sellers da literatura infantil de todos os tempos.
Publicado por insistência dos amigos no ano seguinte, com uma edição de 1.500 exemplares, Der Struwwelpeter iniciou uma brilhante carreira editorial em seu país natal, a Alemanha: em 1876 estava na 100ª edição, em 1898 na 200ª, para chegar a mais de quinhentas só em alemão; ganhou muitas paródias e adaptações (sobretudo de cunho político); e traduções em cerca de 40 línguas, inclusive para o português brasileiro, com traduções dos séculos XIX (relatada por Hoffmann no mencionado texto de 1871) e XX.
Seu nome mais famoso em português é João Felpudo, e aqui está ele de volta, no século XXI.
Em 2009 foram comemorados os duzentos anos de Heinrich Hoffmann, esse médico que contava histórias para distrair seus pequenos pacientes, as reproduziu em liv doméstico e hoje é lembrado como um dos maiores escritores da literatura infantil. O sucesso é tamanho que Der Struwwelpeter tem até museu em Frankfurt.
Aqui no Brasil, perguntem a uma pessoa mais velha se não conhece Der Struwwelpeter ou João Felpudo. Certamente ouvirá relatos de pais, avós ou tios contando as histórias desse livro que tem imenso talento para romper fronteiras. Serão pessoas com ascendência europeia, que não raro recitam de cor muitos versos do livro, aproveitando para reproduzir, com um misto de nostalgia e despreparo, a língua dos antepassados; mas também serão pessoas que se lembram de João Felpudo nas versões de Olavo Bilac ou Guilherme de Almeida, para citar os mais famosos tradutores brasileiros.
O fato é que já no século XIX Der Struwwelpeter deixava de ser um livro germânico para ser europeu. Não demorou em tornar-se universal. Além das virtudes literárias do livro, as ilustrações de Hoffmann suscitam algo no mínimo estranho: por não serem as de um profissional, dão a impressão de que nós mesmos poderíamos tê-las feito, e mais: experimentem ler as histórias uma ou duas vezes. Na terceira este ou aquele personagem já caberá em alguém muito próximo. Nas seguintes (pois asseguro que vão querer lê-las sempre), encontrarão traços do traquinas Felipe no primo-irmão; do malvado Frederico em si mesmos; ou dos moleques que zombam do “mourinho de tez retinta” em alguém que, providencialmente, vocês não conseguem lembrar quem é...
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Carros 2
Era tão difícil prever o resultado final deste Carros 2 quanto uma empresa concorrente alcançar o grau de complexidade do conjunto da obra Disney & Pixar. A dificuldade de previsão havia se solidificado durante mais de uma década e meia de animações primorosas. Com apenas dois longas muito bons (Vida de Inseto e o primeiro Carros - todos os outros estão acima), nada indicava indícios de qualquer crise criativa. Seriam, as mentes por trás das oscarizadas e quase imbatíveis animações, infalíveis?
Baseada em fórmulas e repleta de clichês hollywoodianos (especialmente aqueles advindos de filmes sobre espionagem), a obra é o primeiro grande tropeço da antes sobre-humana empresa. A queda parece visível demais quando até um personagem tão carismático quanto o guincho Mate (“como tomate mas sem o to”) surge deslocado. Aliás, a beleza desse personagem era realçada justamente por ser, no filme anterior, um coadjuvante. Enquanto funcionava como alívio cômico, a trama se desenvolvia com beleza, alguma profundidade e, certamente, boas risadas. Mas, elevado ao posto de protagonista, o favorecimento de um arco dramático mais contundente se desfaz, as piadas se tornam forçadas e surgem os estereótipos e os diálogos artificiais apoiados em uma trilha sonora abatida (estranhos para uma produção Pixar).
Surpreendente na utilização da violência e com um sadismo definitivamente inesperado para uma produção de apelo infantil (talvez, com o intuito de impressionar os adultos que nunca precisaram disso para se encantar com obras como a trilogia Toy Story ou Ratatouille – essa última com repetidas referências na película em questão, o que é incomum quando se trata de piadas internas da empresa), o filme pode ser visto como um amontoado de ótimas ideias mal aproveitadas. É, sim, um universo curioso e, sem dúvida, disposto a ser desenvolvido.
Assim mesmo, Carros 2 é um grande espetáculo estético e o design dos novos personagens (inclusive os figurantes) é inspirado... especialmente dos carros japoneses, que remetem diretamente a animés.
O caráter oportunista fica claro após a saída do cinema, quando, sem querer, é possível relacionar, diretamente, as quase infinitas aparições de produtos (de brinquedos a roupas) relacionados aos 106 minutos da projeção. É, então, que se pode ter certeza da dúvida sanada por Carros 2: as mentes por trás da Disney & Pixar não são infalíveis. Pior... são humanas.
Ou havia algo na água do pessoal. Eis que surge um grande mistério.
Aguardemos o próximo trabalho..
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Trabalhar Cansa
Dentro de “Trabalhar Cansa” (2011) há dois filmes que tentam se relacionar. Um é um drama social, de cunho bastante irônico, que traz uma visão crítica dos princípios e mazelas que marcam a atual classe média brasileira. O outro filme é um de horror, que a princípio traz algo de psicológico, mas que com o desenvolver a narrativa se aproxima cada vez mais em se manifestar fisicamente. É claro que a intenção dos diretores Juliana Rojas e Marco Dutra é estabelecer uma aproximação simbólica entre os dois gêneros distintos que compõe a sua obra. De certa forma, é algo que Roman Polanski já havia feito com maestria em obras como “Repulsa ao Sexo” (1965) ou “O Inquilino” (1976). O problema de “Trabalhar Cansa” é que a junção de duas linhas de tramas raramente consegue soar orgânica, principalmente com a parte do sobrenatural, que acaba soando como uma tentativa meio envergonhada de enveredar para o terror. Mesmo assim, a produção tem os seus méritos, principalmente nas sequências que enfatizam o absurdo da condição humana que aflora em situações ditas “normais” – como os momentos finais do filme em que profissionais liberais a procura de um emprego deixam vazar sua “porção animal”.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Potiche - Esposa Troféu
Ozon nos entrega pequenas homenagens ao longo da projeção. Todos os que se apaixonaram por Catherine Deneuve no clássico “Os Guarda-Chuvas do Amor” de 1964, irão adorar o cenário em que a atriz se encontra nesta produção. A eterna “Bela da Tarde” vive Suzanne Pujol, uma peça de enfeite (potiche) em uma relação desgastada, acostumada a não constar na lista de prioridades do marido (Robert, vivido por Fabrice Luchine), um homem desprezível e mulherengo, odiado por seus funcionários e ignorado por seus filhos. O cenário (final da década de setenta) é retratado de forma farsesca, garantindo um tom quente e colorido nas cenas de Deneuve, contrastando com os tons frios dos momentos em que Fabrice participa.
Greve de funcionários e a ascenção do movimento feminista eram o cenário comum da época na França, porém o diretor não força a mão no viés político, deixando claro se tratar de uma típica comédia farsesca. Sua origem teatral compromete em certos momentos, tornando alguns diálogos e cenas um tanto quanto forçados, mas nada que comprometa o resultado final. Vale destacar a presença carismática do sempre ótimo Gérard Depardieu (Maurice Babin), como um deputado que esconde um valoroso segredo. Sua química com Deneuve é um prazer aos olhos, simbolizada pela fantástica cena de dança em uma típica discoteca da época.
Vampiro
Um estranho romance sobre xadrez, saxofone, mulheres e jornalismo. Assim pode ser resumido Vampiro, retrato bem-humorado, mas nem por isso superficial, de uma geração.
A Onda Verde

Dentro do gênero “documentários-denúcia”, “A Onda Verde” (2010) acaba se destacando pelo uso criativo de alguns recursos formais e dramáticos. O filme narra o obscuro episódio das fraudes das eleições do Irã em 2009 que gerou revolta em parte da população do país e a conseqüente repressão por parte da polícia do governo e milicianos simpatizantes. A produção se utiliza de depoimentos de alguns dos principais envolvidos e de animações que reproduzem alguns dos episódios comentados pelo mesmo. O traço dos desenhos animados oscila entre o leve e o realista, sem nunca atenuar, entretanto, a brutalidade e crueza das histórias de violência e humilhação contadas. O diretor Ali Samadi Ahadi demonstra segurança na condução da narrativa, não permitindo que a mesma caia no sentimentalismo excessivo. É claro que o fator emocional permeia o filme, mas o mesmo irrompe em determinadas sequencias de forma natural, coerente e sutil.
domingo, 20 de novembro de 2011
Sangue no Celular
Há obras cujo maior foco está na sua proposta temática do que em seus eventuais méritos artísticos ou formais. Esse seria o caso do documentário dinamarquês “Sangue no Celular” (2010), cujo objetivo principal é denunciar o uso oficial de minerais provindos de forma clandestina da África para a fabricação de telefones celulares. O diretor Frank Piasecki Poulsen expõe a hipocrisia e amoralidade de grandes corporações em tentar justificar aquilo que é injustificável. Apesar de suas intenções sócio-políticas, entretanto, Poulsen consegue elaborar um filme que apresenta uma narrativa envolvente, carregada de tensão e até mesmo aventura, afinal, além dos previsíveis depoimentos em escritórios e outros lugares mais confortáveis, ele não se furta em se embrenhar no meio de minas precárias e repletas de guerrilheiros armados nas selvas africanas, visando mostrar o cotidiano dos nativos praticamente escravizados que trabalham na extração. O constante risco de desabamentos ou de simplesmente levar um tiro transformam tais momentos a produção num verdadeiro thriller de suspense.
sábado, 19 de novembro de 2011
Bergson e Proust
Assim, o confronto entre a obra filosófica de Bergson e o romance de Proust será
atravessado por aquilo que julgamos ser um dos pontos cruciais do longo embate entre o
discurso conceitual e o discurso metafórico, a saber, em que medida a própria linguagem,
na origem da nomeação das “coisas do mundo”, é responsável pelo entrelaçamento destesdois discursos que se querem distintos, mas que se encontram de alguma forma ancorados,
um ao outro. O recurso à expressão de pensamento que a linguagem nos oferece revela,
sobretudo sob a forma das metáforas, o complexo e intrincado processo de ‘tradução’, de
deslocamento e de trânsito de sentidos que se opera por meio de nossas capacidades de
percepção, imaginação e memória, na construção de conhecimento.”
O livro que o leitor tem em mãos é uma peça delicada, fruto de um artesanato hábil e
sutil. A autora trilhou um caminho difícil, transitando entre duas armadilhas: primeiramente,
teve de evitar que a relação entre filosofia e literatura se transformasse numa compreensão
teórica da obra de arte; em segundo lugar, teve de superar a tentação de reduzir a percepção
singular do escritor à descrição objetiva do filósofo. A dificuldade deriva de que, entre
as duas extrapolações, a originalidade do escritor também produz conhecimento, e a
objetividade do filósofo não deixa de ser penetrada por uma poética que ele vê nas coisas.
Assim, embora separados, se comunicam pela mediação da autonomia presente em cada
um. E a autora logrou entender que, especialmente entre Proust e Bergson, esta vizinhança
peculiar é particularmente importante porque enseja uma comparação que nos leva aentender melhor cada um em si mesmo.
Mas para isso é necessário que a sensibilidade esteja presente na apreensão da filosofia
e que a reflexão se faça instrumento da leitura do romance, ambas na medida precisa que
somente a intuição pode proporcionar. Estela Sahm chegou a este resultado por via de um
trabalho árduo e profundo, traduzido numa expressão simples e clara. Com isso a autora
mostra como a filosofia e a literatura nos conduzem à participação no enigma do tempo em
sua revelação infinita, e esta compreensão de uma verdade sempre em vias de realização
torna a existência mais humana e mais autêntica.
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