quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Cortiço , De Aluísio de Azevedo


O Cortiço foi lançado em 1890 pelo já citado Aluísio de Azevedo e faz parte do Realismo-Naturalismo onde já pelo nome pode-se ter uma base do livro. Naturalismo, pois para o indivíduo sobreviver ele precisa basicamente de três coisas: comida, repouso e pensando na reprodução, sexo. O romance é marcado também pelo determinismo onde o indivíduo pode ser transformado por três fatores: a hereditariedade, o momento e o meio e claramente quem muda os personagens em O Cortiço é o meio em que eles vivem.

Narrador: é narrado em terceira pessoa sendo ele onisciente e seu papel não acaba aí: narrador faz julgamentos das atitudes dos personagens mostrando ao leitor a estória de cada um sendo transformada pelo meio em que vive.

Espaço: o romance se passa em um cortiço do Rio de Janeiro construído pelo Seu João Romão. O cortiço fica ao lado de sua venda e do outro lado do local fica a casa do Seu Miranda. Atrás dele fica a pedreira onde a maioria dos personagens do sexo masculino trabalham. Reparem que tudo fica envolta da estalagem.

Personagens:

● o próprio cortiço é considerado o personagem principal, pois é nele que a maioria das coisas acontecem além de receber características humanas (”Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.”, capítulo III).

● João Romão: é o dono da venda e o personagem que mais aparece no livro, além disso é extremamente pão duro e guarda todo o dinheiro que consegue e não tem planos imediatos para mudar de vida. Todo o dinheiro gasto na redondeza volta a sua mão pois é dono do cortiço e de parte da pedreira, ou seja, ele paga o salário para os empregados e esses tem que pagar o aluguel além de comprar em sua venda. Mais pro final do livro ele começa a querer mudar de vida investindo mais no cortiço depois de um incêndio e até quer se casar com Zulmirinha, a filha de seu rival Miranda. Com ele mora a Bertoleza, uma escrava que pensa ter comprado sua alforria, mas que na verdade foi enganada pelo patrão, quando descobre tudo, na última página do livro, se mata. Em vida é o braço direito de João Romão, ajudando a roubar materiais de construção para a edificação do cortiço, fazendo a comida servida no venda, ou seja, “é a última que dorme e a primeira que acorda”.

● Miranda e família: Miranda é um português de sucesso que mora ao lado do cortiço e não gosta muito do Seu Romão, principalmente, por ter contruído um cortiço ao lado de seu sobrado. Com a mudança de comportamento do seu vizinho, ele acaba se aproximando mais dele e até cedendo a mão de sua filha em casamento. O resto da família é composta por D. Estela, sua esposa infiel que caracteriza uma burguesia ociosa, Henriquinho um garoto que vem morar em sua casa para estudar medicina já que Miranda devia um favor ao pai do garoto e esse que tem um caso com uma mulher do cortiço, Zulmirinha, a filha e o Botelho, agregado que ajuda João Romão a conquistar a filha do Miranda.

Personagens notáveis:

* Jerônimo e Piedade: são um casal de portugueses que tem uma filha. Jerônimo vem ao cortiço para trabalhar na pedreira como um funcionário exemplar que até ganha mais que os outros. Sua família, inicialmente, é impecável, todos os respeitam e os tomam como exemplo.

* Rita Baiana: é uma mulher que volta ao cortiço de uma longa viagem e volta com seu namorado Firmo. Depois de uma ajuda dela ao Jerônimo, esse fica apaixonado pela Rita e esse evento que acaba em uma briga entre ele e Firmo que por sua vez, termina em um incêndio provocado pela Bruxa. Como vingança, depois de um tempo Jerônimo mata Firmo com ajuda de uns colegas, foge com Rita deixando sua mulher para trás que vira bêbada e começa a ser “deflorada” pelos outros homens do cortiço.

* Pombinha: A flor do cortiço como é chamada, é pura, delicada e inocente, mas sofre com a menstruação que não chega e não pode se casar por não ser mulher com 18 anos. Essa é abusada pela madrinha Leonie e depois de um tempo sua menstruação vem e ela pode se casar. Descobrindo como é a vida de casada, e como são os homens, ela abandona tudo e, mais tarde, vira uma prostituta e filha de Jerônimo vira a nova pombinha do cortiço, tornando assim, um ciclo.

Outros personagens: Leucádia, Machona, Marcina são lavadeiras e ficam por conta delas as fofocas que circulam pelo cortiço, faz parte desse grupo também o Albino, que é considerado uma mulher pelas outras. A primeira, Leucádia, trai o marido Bruno com Henriquinho, pois o jovem promete dar um coelho em troca do sexo, quando o marido descobre essa é expulsa de casa. Ainda temos Domingos, um caixeiro viajante empregado do João Romão que engravida Florinda, filha de uma das moradoras do cortiço. Ele foge da responsabilidade e ela também foge por medo da mãe, que quando descobre bate muito nela.

Depois do primeiro incêndio causado pela Bruxa, o cortiço é atacado mais uma vez pela loucura da mesma mulher, só que dessa vez, ela faz o serviço completo e João Romão já com sua vida social em ascensão decide construir outro cortiço, só que esse é de um nível mais alto e consequentemente os preços também fazendo com que vários dos antigos moradores tivessem que abandona-lo e mudar para o cortiço vizinho que antes abrigava o Firmo, o Cabeça de Gato. Isso nos mostra a mudança do João Romão é pode-se contruir a linha cronológica do livro mediante a sua vida social, no início, os dois pobres, no final, os dois luxuosos e ricos.

O grande problema em se tentar resumir O Cortiço não é o tamanho do livro, pois é relativamente pequeno, mas sim o grande número de personagens que passam pela estória dando a idéia do dinamismo do local, onde várias e várias vidas passam pelo cortiço e cada vida tem uma estória, fazendo o leitor, as vezes, se perder um pouco. Considero-o uma obra clássica, porém muito chata.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Leite Derramado de Chico Buarque



Leite Derramado é a sua obra mais recente e ela aborda a história de cinco gerações, cujas vidas são retratadas conforme a educação de cada um e também de acordo com o seu momento histórico. O cenário é o Rio de Janeiro e nessa cidade são mostradas tanto a sua faceta eliti sta quanto a sua faceta mais popular, segundo as situações pelas quais cada personagem passa.

Quando comentei aqui o livro Cem Anos de Solidão, eu escrevi que me agradavam histórias que permitem uma visão panorâmica da vida familiar dos personagens centrais, mostrando uma cadeia de eventos, apresentando um começo, meio e fim – sendo que a linha temporal abranja muitos anos. E Leite Derramado se enquadra nesse grupo de livros, afinal, sua história começa com o avô de Eulálio, o personagem-narrador, e termina com o neto dele. É importante ressaltar que não há um “começo” e um “fim” definidos. Como o narrador é um homem velho e doente, e que está num hospital, ele narra as suas memórias conforme elas lhe vêm à cabeça e, como característica das pessoas idosas, suas memórias não se apresentam numa ordem correta, embora elas aparentem precisão. Outro grande acerto do escritor é ater-se ao personagem e à personalidade dele, não deixando que o leitor veja no personagem o escritor. O personagem é o personagem e o escritor, no caso Chico Buarque, é o responsável pela caracterização perfeita desse personagem.

A noção temporal composta por Chico Buarque é muito boa. Como cada personagem – avô, pai, narrador, filha e neto – pertencem a uma época e, obviamente, os costumes pertencentes a ela são bem representados pela narrativa eficiente do narrador, que primeiramente esteve na classe alta e foi decaindo, até chegar a um apartamento mal-iluminado num bairro pobre do Rio de Janeiro. Por intermédio das informações dadas pelo homem hospitalizado mostram a postura nobre e altiva dos seus avôs e pais, que viajavam pra fora do país e falavam francês e tomavam bebidas finas. Também por intermédio daquilo que ele diz, conhecemos a vida tumultuada de sua filha, que passou por um divórcio e pela falência, e também nos é exibida a vida de seu neto, típico garoto do Rio calor que provoca arrepio dragão tatuado no braço que passa a maior parte do tempo na surfando e que, por ter uma personalidade dúbia, envolve-se com problemas de todos os tipos, chegando ao ponto de roubar os últimos móveis da família falida pra sustentar seus vícios e necessidades.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A Paixão Segundo G.H.



Clarice Lispector é um grande nome da nossa cultura literária e eu realmente nunca me dediquei o suficiente às obras dela. Li um livro de contos e também o livro A Hora da Estrela, sem jamais ter lido qualquer outro texto dessa escritora. Lispector se diferenciou quanto à sua literatura pelo caráter aproximativo e introspectivo de suas personagens, tornando-as próximas do leitor, que, segundo um colega meu, “facilmente se identifica com o narrador ou com o personagem central”.

Esse romance da autora tem um forte tom de crônica, principalmente no que diz respeito ao modo como a história foi concebida. Eu poderia começar a resenha apresentando a sinopse clássica do livro, que é aquela na qual a pessoa que leu o define sua história como sendo a de uma mulher que, diante de uma tarefa simples do cotidiano – limpar um quarto –, se entrega a uma série de questionamentos sobre a vida e sobre os eventos circunstantes a ela. Poderia também dizer aquilo que eu acho que resume melhor o livro; sinceramente, prefiro fazê-lo: A Paixão Segundo G. H. é um livro sem qualquer enredo, sem história, sem personagem, sem barata.

Honestamente, acho que o grande problema do livro se encontra fora dele: o problema se encontra nas pessoas. O mesmo que acontece a esse romance acontece, por exemplo, ao filme Casablanca. Explico: em algum momento, tornou-se culto ter visto e ter gostado de Casablanca; desse modo, quem não o viu diz que o viu e quem o viu e não gostou diz que gostou. Algo semelhante envolve essa obra de Clarice. Não sei por que, mas se tornou proibido dizer “não gosto das obras dela” – lê-la assumiu um caráter tão culto (e por que não dizer opressivo?) que impossibilitou as pessoas de expressar suas opiniões verdadeiras em relação ao que pensam sobre aquilo que lêem. O livro é tão absurdamente complicado que duvido que um terço de quem o leu conseguiu compreendê-lo em sua quase totalidade – como, então, todos podem adorá-lo? Minha resposta a essa pergunta é simples: não o compreenderam, não o adoram. Apenas foram condicionados a dizer que é um livro excelente. Não quero, com isso, desmerecer a opinião de quem o leu, o compreendeu e realmente gosta do livro – minha opinião de que essa seja uma obra ruim não é uma verdade universal. Creio que haja quem goste de A Paixão Segundo G. H.

G. H. é uma mulher confusa, uma mente muito turbulenta. Ela é tão cheia de pensamentos que, ao colocá-los para fora, a narrativa se torna interrupta, meio brusca, cheia de frases soltas. Compreendi perfeitamente quando um colega me disse que o livro é assim porque G. H. narra seus pensamentos e que as mudanças dinâmicas e as constantes retomadas de assuntos já passados representem o modo como a nossa mente funcione. Não acho, no entanto, que isso tenha resultado desse pensamento. Penso que Clarice Lispector simplesmente se limitou a escrever inconclusivamente, divagando e se repetindo, apresentando informações desnecessárias e incômodas, já que não remetem a qualquer aspecto psicológico interessante de ser avaliado. Para mim, o perfil psicológico de G. H. é tão profundo quanto um pires e sua amplitude emocional é semelhante à de uma colher de chá – suas reflexões ilógicas sobre a sua realidade são extremamente cansativas, seus pensamentos são bem estranhos.

Não posso, porém, criticar o livro como se não houvesse parte da qual eu tenha gostado. Pouco antes de encontrar a barata, creio que haja o único momento em que a personagem é coerente e objetiva naquilo que pretender passar ao leitor. Quando, ao chegar ao quarto da empregada, descobre que a empregada já o havia limpado, G. H. passa por um momento de desapropriação: a casa, sente-a como se não fosse sua, pois a sua vontade, a vontade repentina de limpá-la, não fora respeitada. “Uma cólera inexplicável, mas que me vinha toda natural, me tomara: sentia uma imensa vontade de matar alguma coisa ali” ². Decerto, é o único bom momento do livro, pois é quando o leitor consegue se aproximar mesmo da personagem. Quando Clarice descreve a relação quase ausente estabelecida entre a personagem central e a sua empregada, eu pude finalmente gostar um pouquinho do romance. Um pouquinho, só um pouquinho.

domingo, 9 de janeiro de 2011

José Saramago. A jangada de pedra


Evidentemente, não se pode esperar que Saramago escreva uma história simples. Mesmo que haja simplicidade na estrutura e no enredo, decerto não haverá nas entrelinhas. E é exatamente isso que acontece em A Jangada de Pedra, cuja narrativa discorre a respeito da separação da península ibérica do resto do continente europeu e das conseqüências disso. A somar, narra-se a viagem de quatro personagens rumo ao autoconhecimento.

O primeiro capítulo já é ilustrado com a imagem dos quatro personagens principais e dos acontecimentos incomuns que os levam a “causar a separação da península”. Ponho entre aspas porque em nenhum momento o autor evidencia que foram os quatro os responsáveis pelo evento geográfico. As suas ações são meio incomuns: Joana Carda riscou o chão com uma vara de negrilho e o risco feito jamais se apagou; José Anaiço viu-se cercado por estorninhos, que simplesmente não lhe abandonavam e ficavam voando ao seu redor; Pedro Orce levantou-se de uma cadeira, pisou o chão com força e sentiu-o tremer sob si; Joaquim Sassa, ao passar pela praia, viu uma pedra imensa e arremessou-a ao mar, fazendo-a ir muito além do que suas forças permitiam. Após esses eventos, acontecidos em concomitância, os Pirineus racharam-se e a península ibérica lançou-se ao mar.

Não posso simplesmente comentar as vertentes literárias dessa obra. Ainda que seja literatura, e exatamente por sê-la, o autor nos propõe uma análise bem mais do que a óbvia, na qual eu comentaria a respeito do desenvolvimento da história e da composição dos personagens. Definitivamente, A Jangada de Pedra é um livro de abordagem política. Saramago sempre defendeu o pensamento de que Portugal não tinha seu valor reconhecido pela Europa. Embora os portugueses tivessem ratificado a potência européia ao saírem mar afora na época das Grandes Navegações – e consequentemente conquistado riquezas para o seu continente –, atualmente não lhe respeitavam a participação política e econômica nas relações com o resto dos países europeus. Pela semelhança cultural e pelo momento político-histórico vivido pela Espanha na época em que o livro foi escrito (o ano era 1986; vale ressaltar que hoje o perfil do Estado espanhol mudou consideravelmente), a Europa via esse país tal como via Portugal. Aproveitando esse fato, Saramago reuniu uma série de dados e suposições para elaborar uma crítica feroz à atitude européia. Não nos restam dúvidas ao longo da obra de que a separação geográfica significa o afastamento político que há entre os países iberos e o resto do continente. O ato de vagar pelo mar é uma clara representação do modo como esses dois países buscam o lugar a que pertencem, o lugar onde encontrarão semelhanças culturais que lhe permitam uma identificação e autenticidade com suas próprias raízes – não é à toa que, ao final do romance, a ex-península, agora ilha, pára entre a África e a América, locais onde possuem colônias: lá se fala a mesma língua, têm-se costumes semelhantes.

Como obra literária, não posso criticar quase nada, afinal se trata de uma construção bastante elaborada. O único problema que eu encontro – e para o qual eu tenho argumento que o situa não exatamente como um problema – é o rápido envolvimento amoroso dos personagens, haja vista que tudo acontece muito rapidamente, sem o tempo necessário para que os romances se desenvolvam, ou que, pelo menos, os personagens se conheçam adequadamente. Não posso me esquecer, porém, de que não havia tempo: todos temiam a acelerada aproximação da jangada com os Açores, o que poderia significar a morte de muitos portugueses e espanhóis e definitivamente a extinção do arquipélago. Fora isso, todo o resto é válido.
A Jangada de Pedra é uma obra muito válida, que merece ser lida. Não apenas pelo seu contexto literário, mas principalmente pelo seu significado político e pela árdua crítica que Saramago faz à Europa e às grandes potências. Em alguns momentos, chega a reproduzir falas dos representantes dos Estados Unidos com uma perfeição inigualável, fazendo-nos quase crer que seja uma reprodução fiel de algum discurso já proferido antes. Não se furtem o prazer de lê-lo. Leiam-no, porém, se estiverem conscientes do que essa obra significa, porque o seu poder está justamente fora do universo literário.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Hora da Estrela



A Hora da Estrela, por sua vez, é uma obra que eu considero muito válida para a nossa literatura e consiste numa das melhores obras da autora.

Sendo esse o penúltimo romance escrito por Clarice, ela faz questão de nos proporcionar uma análise crítica sobre a realidade cultural do nosso país e ainda proporciona uma excelente composição metalingüística, o que faz de seu livro um dos mais requeridos da literatura nacional. Analisá-lo não é fácil, devido as características muito bem elaboradas da escrita de Clarice Lispector. A sua obra conta com série de qualidades elogiáveis e até considero invejáveis, pois poucos autores conseguem – e poucos conseguiram – realizar uma obra com toda a grandiosidade desse seu livro, que foi o último a ser publicado enquanto a autora ainda estava viva.
Devido à fantástica metalinguagem do livro, somos confrontados com a história de uma alagoana chamada Macabéa, uma jovem datilógrafa “que às vezes sorri para os outros na rua”, mas “ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham” (p. 22). A história dessa nordestina nos é narrada por Rodrigo S.M., narrador que se tortura por causa do relato que nos quer fazer, haja vista que a existência dessa jovem, sobre quem ele afirma conhecer pouco, lhe ofende e lhe perturba, pois ela, como ele mesmo descreve, “somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – pra que mais do que isso? O seu viver é ralo” (p. 30).

Vale ressaltar que a grandiosidade da narrativa, em primeiro lugar, se encontra do afastamento do autor e do narrador. Ainda que quem escreva seja Clarice, há um segundo autor-narrador, que é também um personagem de Clarice. Pode-se dizer que o narrador, ainda que não participe efetivamente da história, é também personagem dela, já que é também uma criação, com emoções, sentimentos e personalidade. Depois, temos a relação entre o narrador-autor Rodrigo e a sua personagem, Macabéa. Não podemos afirmar precisamente que a personagem existe no plano da realidade do narrador, pois ele mesmo garante não saber exatamente tudo o que acontece e, ao mesmo tempo, sente-se mal por nos contar uma história tão simples, sem muitos atrativos. Ainda há o fator de que Macabéa lhe veio por outra inspiração – o narrador viu alguém na rua e essa pessoa lhe remeteu à nordestina sem rosto e sem vida que é Macabéa.

Há uma aproximação interessante entre o narrador e Macabéa e é exatamente essa aproximação que cria um paradoxo interessante nesse romance: ainda que ele lhe tenha afeto, eles pertencem a classes sociais muito diferentes e possuem estilos de vida diferentes, sendo ela um ardor na vida do narrador, pois a história dela, quanto mais perto dela ele se sente, mais culpado ele se sente. Ao narrar sua vida, o narrador apresenta uma série de falhas no sistema social. A personagem alagoana praticamente subsiste porque não tem informações suficientes para poder se questionar. Sem se perguntar, ela simplesmente acredita que sua vida tem que ser daquele jeito porque tem que ser assim – sem mais. A tia, que lhe aplicava cascudos sem motivos razoáveis, criou em Macabéa uma noção eterna de submissão e é assim que ela se sente – submissa a tudo: ao seu trabalho, ao seu namorado, à sua amiga Glória, à sua própria situação. Viver num quarto com outras quatro garotas não lhe incomoda, desde que tenha um rádio e possa ouvir informações que não entende, mas que julga importante conhecer. Isso mostra que a personagem foi condicionada ao não-discernimento: “[...] ‘Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade’. Então ela se arrependera. Como não sabia bem do que, arrependia-se toda e de tudo. O pastor também falava que a vingança é coisa infernal. Então ela não se vingava” (p. 45). Para Macabéa, basta crer, acreditar é o suficiente.
A obra de Clarice narra um Rio de Janeiro não muito bonito – nele vivem pessoas esteticamente feias, que não chama a atenção, que estão à margem da sociedade e que não sofrem porque não têm consciência do que é sofrer, haja vista que existem iludidas pelas mentiras sociais contadas a todo o momento. Chega a ser difícil compreender se o narrador se diferencia tanto dos personagens que ele narra, afinal, os personagens são ele também. Nos momentos finais, com o desfecho criado para Macabéa, ele assume que o mesmo que aconteceu a ela aconteceu a ele também – assume, portanto, que eles estão muito mais próximos do que realmente parece.

Assim, é difícil assegurar quem é real e quem não é nessa obra. Os personagens misturam-se às vezes e completam-se, somam-se em alguns momentos. Clarice cuidou para que sua obra se mostrasse como uma crítica, não apenas à sociedade, mas também à pessoa – o ser individual é criticado, principalmente quando ele necessita de outro para firmar-se como ser superior. De certo modo, é isso que acontece com Rodrigo, ao mesmo tempo em que ele narra e descreve Macabéa como algo por quem ele tem carinho e que, simultaneamente, lhe causa incômodo. A Hora da Estrela possui então vários elementos que apenas constituem uma obra elogiável e que merece ser lida. Aprecio o desenvolvimento filosófico-questionador desse romance e recomendo as pessoas que desejam ler uma obra intimista, na qual se conhecem bem todos os personagens – tanto é que a história da nordestina se inicia já no meio do livro, depois que o narrador demonstrou como é a sua personalidade. Considerando todos os aspectos da obra e a sua relevância literária, não deixo de admitir: A Hora da Estrela é um dos melhores livros nacionais.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Clarice Lispector (1920-1977)



De fato, a literatura de Clarice é universal porque traduz a condição humana, com seus vícios e virtudes. E com enorme competência narrativa: Clarice tem rara capacidade de registrar, em linguagem, com sutileza, densidade e ironia, detalhes que acabam traduzindo essa condição humana. Mas convém considerar que sua literatura é também datada e locada no Brasil. Macabéa (de A Hora da Estrela) remete ao povo judeu (macabeus), mas é uma alagoana pobre que tenta “melhorar de vida” no Rio de Janeiro. Essa situação é tipicamente brasileira. Sob esse aspecto, a literatura de Clarice constitui mais um capítulo da literatura brasileira depois do romance social dos anos 1930: com Clarice, o nordestino não só sai do sertão árido e seco, mas se retira do nordeste procurando sobreviver numa grande capital do sul do país.

De fato, essa é a tese de Benjamin Moser, que, no entanto, não se apóia em registro documental. Segundo Elisa Lispector, irmã de Clarice que era considerada o “baú” da família, porque contou a saga dos Lispector da Ucrânia para o Brasil e cuidava dos documentos familiares, a mãe sofreu “trauma” – ela não especifica se no sentido físico ou psicológico ou ambos – devido a violência causada por bolcheviques russos. De fato, na época, a região da Ucrânia onde moravam os Lispector foi assolada por pogroms, perseguições aos judeus, aliás, provocadas por várias facções políticas, não só por bolcheviques. Ainda segundo Elisa, a mãe sofria de “hemiplegia”, que é a paralisia de metade do corpo ou de parte dele, causada por lesão cerebral. Clarice conviveu com a paralisia, que era progressiva, até os seus quase 10 anos, quando a mãe faleceu. E numa crônica conta que teria sido concebida para salvar a mãe e que a cura não aconteceu. É provável que tais fatos – a hemiplegia, a cura que não aconteceu e a morte da mãe, quando Clarice era criança – tenham marcado a escritora, tal como outros episódios, ao longo de sua vida, também podem tê-la influenciado a escrever como escreveu.

É difícil determinar em que medida uma vida influencia uma obra. As experiências de vida aparecem, na obra, mesmo em textos autobiográficos, já misturadas com o imaginário do autor. Há invenção sempre. No caso de Clarice, por exemplo, o fato de pertencer a uma família judia emigrante pode tê-la feito sentir em constante “estado de exílio”, alguém que não pertence a lugar nenhum e vivencia uma espécie de estranhamento diante dos lugares e pessoas. Mas há que se considerar também que esse estranhamento pode ser, pelo menos em parte, manifestação de um modo “especial” de o artista “enxergar” o mundo, mediante uma desautomatização, por vezes, crítica, do que o rodeia, o que permite criar sentidos inusitados.

Clarice Lispector teria sido escritora se não tivesse vindo para o Brasil e conhecido o português?

Essa é uma pergunta que a própria Clarice se faz. E é um tipo de pergunta para a qual não se tem resposta precisa, apenas hipóteses.

Nas fotografias, é raro ver Clarice rindo. Ela era uma mulher séria ou compunha uma personagem para apresentar aos leitores?

Para fazer o livro Clarice Fotobiografia, vi centenas de fotos de Clarice só e em grupo. Mas não vi mais do que duas ou três em que Clarice aparece com “sorriso largo”. Nas demais, tal como sua personagem Ana, do conto “Amor”, nada mais que um sorriso de “meia satisfação”. Na única imagem ao vivo de que se tem notícia, a da entrevista de Clarice na TV Cultura, ela aparece séria demais, angustiada demais. Pena que seja esse o único registro gravado em som e imagem, pois seus amigos também dizem que ela era alegre e divertida. Mas uma das características de sua personalidade era a da mudança brusca de humor: em reuniões sociais, quando, de repente, resolvia sair e voltar para casa, nada havia que a fizesse mudar de ideia. O perigo é mitificar Clarice: atribuir a Clarice atitudes singulares, que, na realidade, também são nossas. Clarice percebeu isso e, em entrevista na TV Cultura, criticou pessoas que julgavam ser importante qualquer bobagem que ela dizia. Outro perigo é o de imaginar fatos “reais” referentes à sua vida, que surgem na tentativa de preencher lacunas. Nesse caso, Clarice é veemente. Numa crônica que leva o título de “Esclarecimentos. Explicação de uma vez por todas”, em que aborda justamente a questão do seu nascimento, afirma: “Não há simplesmente mistério que justifique mitos, lamento muito.”
Certa vez, a senhora disse que o olhar de Clarice tinha “um ar sedutor, instigante e um tom de desafio”.
Sim. Creio que tem. Se observar as fotos de Clarice criança verá que, em sua grande maioria, ela olha diretamente para a câmera, ou seja, para o fotógrafo. Não desvia o olhar. Essa marca persiste, ao longo da sua vida, até se transformar no olhar fulminante das fotos tiradas por Alair Gomes, no início dos anos 1960. Reconheço nesse olhar uma semelhança com o olhar de seu narrador que encara o “outro” (que pode ser inclusive cada um de nós, leitores) de modo direto, como se o enfrentasse, tal como uma personagem sua, que se encontra diante de um búfalo, na procura veemente de experimentar o ódio, num dos contos de Laços de Família.
Na data em que se comemoram os 90 anos de nascimento de Clarice Lispector, é inevitável examinar o legado que a escritora deixou. Qual, na sua opinião, é a sua herança?
Clarice trouxe para a literatura brasileira um novo modo de contar histórias, ao mergulhar no interior das personagens para acompanhar, a par e passo, cada detalhe, cada gesto dessa intimidade, com seus anseios, desejos, ódios, sensações, afetos, medos. E tudo isso a partir de uma estratégia narrativa muito esperta, de seduzir o leitor aos poucos, puxando sua atenção a partir do relato de fatos bem banais, de modo a lhe dar a sensação de que nada de importante estaria acontecendo ali, na história, mas, ao mesmo tempo, alimentando a sua inquietação com questionamentos instigantes e perturbadores, levando-o a uma nova “descoberta do mundo”. O interessante é que praticava tais gêneros desmontando-os internamente, minando o terreno da narrativa de conceitos e recursos que, de certa forma, colocavam em xeque o próprio gênero que praticava.