sábado, 26 de maio de 2012

Pele e osso

Um magrelo cinquentão cocainômano, recém-convertido ao protestantismo, cujo sugestivo apelido – Osso – é o que lhe resta quando perde a memória e acorda numa favela com uma gorda louca que diz ser sua esposa.

Um vendedor de peles gordo e diabético, acossado pelo Greenpeace e o aquecimento global numa Buenos Aires na qual seu ofício herdado da família vai se tornando anacrônico, e que ao sair com prostitutas diz ser o advogado Roberto, e não o peleteiro Landa.

Esses são Pele e Osso, os personagens-marginais do mais novo romance do consagrado escritor argentino Luis Gusmán, autor de O vidrinho (Iluminuras, 1990) e Villa (Iluminuras, 2001).

Entre Pele e Osso, o narrador tece uma intrincada rede de tipos que compõe uma Buenos Aires decadente, como o engenheiro que também é piloto de barco; alguém cujos maiores atributos são o nome – Bocconi –, as piadas óbvias e a desconfiança contra quem mente o próprio nome e a profissão; a bioarquiteta e radiestesista que fez plástica para mudar a energia do rosto; a prostituta de nome russo que ganha um extra como reikiana; o pai-de-santo sedutor que rouba a mulher de Osso; a bióloga ecologista que trai o marido com o professor de mergulho e se apaixona por um peleteiro que se diz advogado.

Tais personagens se encontram pela habilidade narrativa ágil e econômica de Gusmán, que tem como uma de suas principais virtudes deixar falarem seus personagens. A força do diálogo é recuperada neste livro, e cada um desses anônimos, com as suas palavras ditas à meia, se escondem e se mostram, em silenciamentos compartilhados pelo narrador, sempre comedido.

Em Pele e Osso, a fala está reduzida ao essencial, não o da comunicação, mas o que caracteriza o diálogo vivo, com suas vacilações, provocações mútuas, mal--entendidos, silêncios.

E o que une Pele e Osso? Interesses egoístas, a fúria incendiária compartilhada, um plano terrorista delirante ou apenas um fiapo de comunhão contra o desamparo, numa condição que os impele à solidão? Enfim, é difícil saber, pois nesta Buenos Aires, a globalização, o ecologismo, o charlatanismo e outras mistificações se somam como uma torrente alienante, em contraponto a Pele e Osso, que ao se exporem numa dimensão intimista, revelam-se não meramente como tipos alienados, mas como singularidades vivas, que podem inclusive trocar de nome, fé, profissão e bandeira, por conveniência ou necessidade. Há poucas respostas. Poderia se dizer também que Pele e Osso é um livro sobre a amizade.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

LOOCONTE

“Só sendo jovem para poder imaginar qual o efeito que o Laocoonte de Lessing exerceu sobre nós, na medida em que essa obra nos arremessou de um horizonte miserável para os cumes livres do pensamento. O ut pictura poesis, por tanto tempo mal interpretado, foi de repente superado; a
iferença entre as artes plásticas e a poesia ficou clara, os cumes de ambas apareceram então separados, por mais que as bases se encontrassem. O artista plástico deveria manter-se dentro das fronteiras do belo, por mais que ao poeta – que não pode passar sem um significado de qualquer espécie – fosse permitido errar para além delas. Aquele trabalha para os sentidos externos e só se satisfaz com o belo, esse para a imaginação e pode se entender com o ‘feio’.”

Goethe

Ut pictura poesis, escreveu Horácio retomando Aristóteles: a poesia, assim como a pintura, representa as ações e paixões humanas. Como se dirá mais tarde, porém, não as representa segundo a fantasia do poeta ou do pintor, e tampouco de maneira servil, copiando a natureza existente, mas sim de modo ideal, segundo um princípio da retórica clássica, a electio. Como exemplo, eis a famosa anedota de Zêuxis, contada por Cícero, Plínio, o Velho, e muitos outros. Incumbido de decorar o templo de Hera em Crotona, o pintor decidiu representar o ideal de beleza feminina e, para isso, solicitou como modelos cinco formosas mulheres, entre as quais a natureza teria partilhado suas perfeições. O poeta e o pintor imitam, assim, a bela natureza, submetendo as imperfeições do mundo a operações semelhantes às do orador: a inventio (invenção), a escolha do argumento e das grandes linhas da composição; a dispositio (disposição), o plano e suas articulações; e a elocutio (elocução), o arranjo das palavras, o trabalho do estilo.

Pode-se dizer que essa concepção, que desce do geral ao particular, prevaleceu até o momento em que a beleza deixou de ser uma propriedade objetiva das coisas e se tornou um sentimento experimentado pelo sujeito. Dessa ideia, que surgiu no século XVIII, decorrem duas consequências: antes de tudo, pintura, poesia e demais artes já não são pensadas no domínio da Retórica, passando a pertencer ao território de uma nova disciplina, a Estética (aisthesis, em grego, quer dizer “sensação”, “sentimento”); em seguida, o parentesco entre essas artes já não é deduzido de uma definição prévia da beleza, mas obtido indutivamente, resultando do inventário das técnicas que as distinguem entre si. Não há estética sem crítica de arte. Assim, após Shaftesbury e Dubos, Diderot dirá que o belo momento do poeta nem sempre é o do pintor e que, ao representar uma ação, o pintar deve escolher o momento que “agrada aos olhos” e não aquele que “arrebata a imaginação”. Virgílio pinta a fronte tranquila de Netuno quando este emerge das profundezas do oceano, a fim de pacificar uma tempestade na superfície. Se elegesse o mesmo momento para seu quadro, o pintor não faria uma boa escolha: em vez da cabeça majestosa do deus, representaria apenas um homem decapitado.

A razão da diferença foi examinada em toda sua amplitude pelo Laocoonte de Lessing (1766). Partindo de um problema empírico semelhante, Lessing analisa o célebre grupo de mármore da Antiguidade que representa Laocoonte e os filhos atacados pela serpente enviada por Apolo. Por que, na estátua, a dor do sacerdote troiano exprime-se com “nobre simplicidade e calma grandeza” (Winckelmann), em contraste com “o grito horroroso” do Laocoonte de Virgílio, ou com as pragas e os uivos do Filocteto de Sófocles? Em suma, Lessing responderá que os momentos do poeta e do pintor (ou do escultor) não são os mesmos, porque poesia e pintura (ou escultura) se distinguem não apenas quanto aos meios, mas igualmente quanto aos objetos. As artes plásticas são artes do espaço e representam os corpos com suas qualidades visíveis, só imitando ações por intermédio dos corpos, portanto, de modo indicativo.

Inversamente, a poesia é uma arte do tempo, seu objeto principal é a ação, e apenas por meio desta deve representar os corpos (por isso, Homero não descreve a beleza de Helena, e sim o efeito que provoca sobre a assembleia de anciãos de Troia).

Este volume que a “Biblioteca Pólen” deixa agora nas mãos do leitor brasileiro, é um clássico dessa tradição que se demora no inventário das particularidades que distinguem as artes. Um grão de pólen daqueles bons tempos em que filosofia e crítica estavam bem próximas e, muitas vezes, pareciam uma coisa só.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A FENDA


Alfredo Aquino é um artista plástico. Neste seu primeiro livro de ficção, procura o que chama de “texto pictural”. Usa o texto como tela para retratar personagens que vivem situações entre o imaginado e o real. Personagens solitários, em histórias sem um aparente fio condutor, mas de grande poder narrativo e expressividade visual.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sempre Tua Correspondência amorosa 1920-1925



Estas cartas de amor, autógrafos de Florbela Espanca e conservadas inéditas até dezembro de 2008, foram escritas entre 1920 e 1925 para António Marques Guimarães, que tornar-se-ia o seu segundo marido.

O perfil de Guimarães é, aliás, muito diverso daquele do primeiro marido de Florbela, professor e seu ex-colega de liceu, e do derradeiro, médico. Profissão esta que, de resto, parece até legitimar uma generosa oferta aquando da exumação do corpo da esposa. Saiba o leitor que 34 anos após o suicídio de Florbela, o médico Mário Lage faculta, aos desconsolados simpatizantes dela, que retirasse, dos seus restos mortais, as “lembrancinhas” que julgassem
convenientes... numa (digamos) compadecida divisão comunitária de Florbela, numa espécie de comunhão do Mito: num civilizado (e imperdoável) ritual moderno de consentido canibalismo.

Teriam tais pessoas a esperança de que os souvenirs do corpo da poetisa lhes despertasse, por analogia mágica, o estro?! Cada um dos dois maridos de Florbela (o primeiro e o último) tirou, à sua maneira, alguma coisa dela. Alberto Moutinho usa, à revelia da escritora, todo o montante dos bens comuns para um negócio comercial marítimo que literalmente afunda, deixando Florbela sem vintém à época em que conhece Guimarães. Este, que era alferes da Guarda Nacional Republicana, e a quem calhou todo o acervo literário e pessoal que a poetisa produzira até o momento em que o abandona às pressas – jamais se valeu disso. Ajudou a fundar, muito tempo depois da morte de Florbela, uma empresa que lhe propiciaria estar para sempre ao lado dela, na continuidade de um hábito adotado desde a separação (e valioso para a posteridade): o de colecionar os recortes da imprensa sobre a ex-mulher.

Assim, a publicação desta epistolografia (as únicas cartas de amor do punho de Florbela Espanca) resulta de um tipo de generosidade que nada tem a ver com aquela do dr. Lage. E atesta a faísca que soldou (e eletrizou) durante cerca de cinco anos essas duas pessoas: o sexo. O teor da paixão que os une conserva a mesma temperatura tanto na “frieza” quanto nos choques que distanciarão o casal, incluindo, para além da intempestiva saída de cena de Florbela, o feitiço de amor que um soneto dela descarrega sobre Guimarães, e que o atinge por inteiro (e pela vida afora!) com seus sortilégios.

Transcorrida durante o período de completa turbulência política e social da Primeira República Portuguesa, essas cartas atestam uma Florbela atenta à vida pública, muito bem informada e com uma consciência política aguda – ao contrário da alienação que lhe atribuíram sempre. De maneira que esta correspondência revela uma Florbela inesperada. Aliás, não apenas uma, mas diversas e várias: a Penélope, a estrategista, a grávida, a espirituosa, a destemida, a somatizadora, a capoeirista, a burguesa. E todas elas se enfeixam numa única mulher, saudosa do corpo do amante e que, sem constrangimento, lhe confessa o desejo – atrevimento que ultrapassa o limite puramente biográfico e que penetra com intensidade os seus poemas.

Só isso já a desloca do seu tempo, desirmanando-a de suas colegas de ofício. Mas há ainda outros lances que a trazem para bem mais perto da nossa contemporaneidade. Como uma precursora mulher moderna (pós-moderna?), Florbela tem a convicção de que somos animais históricos, e que é o tempo, com as mudanças que acarreta, aquilo que rege o amor, visto que este (assim como tudo o que existe) nasce, vive e morre...

Talvez por isso, para manter-se em dia com as transmutações impostas pela História, ela tanto se esforce por amar, amar, perdidamente! Também para ela, o amor é “infinito enquanto dura” - como diria depois Vinicius. Mas Florbela é ainda mais peremptória que o nosso Poeta, quando assegura libertariamente: Quem disser que pode amar alguém / Durante a vida inteira é porque mente! É esta a inefável Florbela que as presentes cartas entremostram. Esta que, já em 1922, e como se anunciasse uma nova era, inaugurava uma experiência que hoje em dia tornou-se um truísmo muito real, a contrapelo do... eterno romantismo que sempre se imputou a ela: Amar-te a vida inteira eu não podia. / A gente esquece sempre o bem dum dia. / Que queres, ó meu Amor, se é isso a vida?!

terça-feira, 22 de maio de 2012

Afinado desconserto


Há aqui uma mulher desvestida em múltiplos trajes. Há aquela que adora desagradar mas deplora que a originalidade a afaste dos homens. Há esta que, malgrado tudo, não abdica da sua maldição singular. Há também a pantera enjaulada (a bárbara da charneca), cujos uivos morrem asfixiados na voz. E ainda outras mais, com destaque para aquela que cumpre permanentemente o luto, pelo irmão ou por si mesma e, neste caso, apenas por ter nascido.

O fluxo destas prosas (ficcionais e autobiográficas) que, dos contos, atravessa as cartas para derramar-se no diário (derradeiro ato de Florbela) – é a pretendida nudez diante de um espelho, afinal ingrato, pois que a despe ainda em outra e outra, desconsolo fatal para quem, por fim, se buscava una, muito embora se tivesse encenado em hidra de mil rostos, em face mutável do eterno feminino. Trancada no seu palco (na sua cela de sóror, no desterro em que foi se emparedando, na solidão carcerária à imagem do casulo, da urna, do útero primevo), Florbela
exibe agora, pateticamente, sua tragédia pessoal, que (antes) ficara travestida no jogo das personagens de que (então) se investia nas suas produções.


Delta da fusão definitiva da arte e da vida, o diário as amalgama (de tal forma) que acaba por se dar a ler (nas síncopes dos seus pulsantes fragmentos) como uma vibrátil cartografia remissiva e fantasmática de tudo quanto escreveu, expondo o corpo (a caligrafia) de todos os textos. Ondulam-se nele os motivos da sua poética e da sua narrativa: a nostalgia de um mundo aquém da vida, a perscrutação lírica, a confiança na Senhora Dona Morte, o louvor à instabilidade dos sentimentos, a glória de compreensão dos seres inanimados, o desafio à sorte sinistra, a melancolia dolorosa, a espera do Prince Charmant, a defesa do suicídio, a intuição oracular, o panteísmo, a aura saturnina, a revolta do inter­dito, o cumprimento da pena de ter nascido, a introspecção impressionista, a visão desencantada, os vasos comunicantes com o universo, o litígio com o social, o sensualismo sedutor, a apreensão do circundante enquanto cambiantes da alma, o monólogo com a solidão, o envolvimento cósmico, o fazer sala no mundo.

O leitor encontra aqui os contos “Carta da Herdade”, “À margem dum soneto”, “O regresso do filho”, “O aviador”, “Os mortos não voltam”, “O resto é perfume”, “O inventor” e “O sobrenatural”: aqueles dedicados ao feminino, à província alentejana e à morte (onde o fantástico faz a sua aparição na prosa de Florbela). Catorze peças da sua correspondência familiar buscam dar a conhecer ao leitor a relação epistolar de Florbela com o pai, a madrasta, o irmão, o namorado, os maridos, os cunhados. Dezoito outras peças indicam o seu contato com o mundo intelectual português de então, dentre as quais se ressaltam as interlocuções com Américo Durão e com Raul Proença.

A publicação do diário que, intermitentemente, Florbela escreve durante 1930 se faz no contexto de todas as outras missivas por ela endereçadas neste último ano da sua existência, a fim de que essas confissões possam ser compreendidas também à luz dos mais triviais acontecimentos correntes. Assim, convivem, ao lado de deambulações pungentes sobre a sua vida (inscritas tanto no diário quanto nas 24 cartas a Guido Battelli – o futuro editor das suas obras póstumas), um postal em francês ao seu médico, bilhetes de envio de coisas usadas à família do

seu afilhado, cartas brincalhonas em “alentejanês” para o seu amigo de infância, notícias sobre a sua obra ao amigo jornalista, e a carta à amiga que virá para celebrar o seu aniversário... e o seu funeral. Tudo em afinado desconcerto.

Maria Lúcia Dal Farra

segunda-feira, 21 de maio de 2012

De santos e sábios


Leminski no círculo dos escritores mais inventivos se ombreia em talento com Joyce, Rosa ou Carroll no fabuloso Catatau, seu aclamado primeiro livro, e a um Italo Calvino ou Cortazar neste Agora é que são elas.

Sempre genial no que fazia, Leminski saiu-se com esta: “O romance não é mais possível. Agora é que são elas é um romance sobre a minha impossibilidade de fazer um romance”. E lançou então esta narrativa, em lúdico e atrevido exercício, misturando todo seu repertório e talento como poeta, tradutor, ensaísta, publicitário, músico e transgressor inventivo de diversas normas.
Com grande habilidade e competência neste ”suprarromance” misturando paródias, ironias, citações várias, inversões de perspectivas, norma culta ou linguajar desbocado, Leminski vai tecendo tramas: personagem sem nome, narrador-malandro que queria ser médico, mas virou astrônomo, tem um caso com Norma, filha de seu analista Vladimir Propp, escritor russo, autor da Morfologia do conto maravilhoso...
As normas propostas por Propp nesse livro norteiam ou confundem a vida e ações das personagens enquanto rola uma agitada festa que estranhamente não comemora nada, divagações e questionamentos sobre os lances de uma guerra em algum lugar no cosmos, idas e vindas no tempo e no espaço, na história: tudo parece muito ao acaso, despretensiosamente ou não, para reviravoltas do pensamento culto, da filosofia à psicanálise, com uma linguagem simples, leve e solta, ligeira e musical, embaralhando e desmascarando as articulações da lógica e as regras dos esquemas prontos.

Além das aparências, este de­fi­nitivamente não é um ro­man­ce fácil ou superficial. E a crí­tica vem se desdobrando em análises para lhe renovar elogios.
A vida como um carnaval passando pelo labirinto, dentro ou avessa a certas normas. Ficção e realidade, indagações sobre a existência. “Ao delito de deixar o dito pelo não dito” é o pensamento vivo de Leminski que conspira por aqui. Mas será que é mesmo assim?

domingo, 20 de maio de 2012

De Profundis


Não entendo a poesia de Trakl, mas me deslumbra, e não há nada que me dê melhor a ideia de gênio.

(...) recebi o “Sebastião no Sonho”, do qual muito já li: comovido, estupefato, cheio de pressentimentos e perplexidade; pois logo se entende que as circunstâncias desse soar ascendente e ressoar descendente foram irremediavelmente únicas, justamente como as que nascem do sonho. Tenho a sensação de que, mesmo para alguém próximo a Trakl, essas perspectivas e visões só aparecem como se através de vidros, como se excluído delas: pois a experiência de Trakl é como uma sucessão de reflexos e preenche todo o seu espaço, inacessível qual o espaço do espelho.

Trakl pertence à estirpe dos poetas videntes na que figuram Blake, Hölderlin, Rimbaud, Lautréamont e Artaud. Poetas que penetraram no obscuro do mundo e no obscuro do homem.

1914. Após a batalha de Grodek, na Galícia, 90 feridos graves do exército austríaco são entregues, num celeiro, aos cuidados de um tenente. Mero farmacêutico, quase sem remédios, ele pouco pode fazer.
Do lado de fora, desertores são enforcados. Um dos feridos se mata, com um disparo, em sua presença. Ele também tenta o suicídio. Mas só obtém sucesso posteriormente, na segunda tentativa. Com uma overdose de cocaína. Idade: 27 anos. Nome: Georg Trakl.
Nativo de Salzburgo, ele nascera não na pequena Áustria de hoje, mas no grande império dos Habsburgos. Um império que não se imaginava à beira do colapso. Somente duas características distinguiram-lhe a vida: as drogas nas quais se viciara e a poesia.
Reconhecido por pessoas tão diferentes quanto os filósofos Wittgenstein, que apesar de admirá-lo, dizia não compreendê-lo, e Heidegger, que procurou decifrar sua “ambígua ambiguidade” (sic). Trakl tornou-se, através dos poemas escritos sobretudo nos seus dois últimos anos, o maior dos expressionistas e um poeta de exceção que, estabelecendo o nexo entre a loucura de Hölderlin e o desespero de Celan, tem sido cultuado quase secretamente por um sem-número de leitores devotos. Aos quais, graças ao belo trabalho tradutório de
Claudia Cavalcanti, podem juntar-se afinal os brasileiros.
Pois, mais do que o vício, é sua poesia que prefigura o próprio e outros fins. Uma poesia de declínios e ocasos, desintegração e ruínas, decomposição e lindas mortes. Uma poesia orientada para um ocidente poente (Abendland) que é a terra do entardecer (Abend), onde os animais são azuis e dorme-se um sono branco. Uma poesia dolorosamente imbuída da doença do mundo ao seu redor, descrente de qualquer cura e nostálgica de um tempo inconcebivelmente remoto.
Foi Heine que, canceroso, agonizando em seu leito-esquife, escreveu: “Dormir é bom; morrer, melhor; o certo, porém, seria nunca ter nascido”. Trakl considerava-se apenas seminascido.
O suicídio servira menos para matá-lo do que para abortar seu completo nascimento. Tratava-se, portanto, da consumação natural da nostalgia de seus poemas sob a forma de um derradeiro mergulho amniótico no antes — não depois — da vida, do pecado e da queda.

sábado, 19 de maio de 2012

A branca voz da solidão



Uma das mais originais poetisas da literatura universal, tão original e tão grande, que melhor convém chamar-lhe poeta.
Emily Dickinson realiza o máximo de magia com o mínimo de sons, tira todo o efeito possível do amplo estoque de palavras da língua inglesa, e com tudo isso guarda uma simplicidade de canção popular, uma ingenuidade infantil, ora travessa, ora magoada.
Essa mulher, que poucos viram e pouco viu na vida, ostenta uma sabedoria de percepção ontológica e de expressão verbal raríssima em qualquer poeta.

Moça bela e prendada que não se sujeitou ao casamento, numa época em que muitas opções eram negadas às mulheres, Emily Dickinson dedicou-se, depois de adulta, a uma vida de completa reclusão, tendo passado mais de vinte anos sem sair de casa e sem receber visitas. Suas únicas tarefas eram cuidar da mãe doente, cozinhar e cultivar flores exóticas, além, é claro, de fazer versos. Nos bolsos do avental ou do vestido branco que costumava usar havia sempre lápis e papel, e entre uma ocupação e outra ela rabiscava os seus poemas.

Alguns deles eram passados a limpo em cadernos, outros eram enviados a amigos e parentes com os quais ela se correspondia, e outros ainda, na forma de esboços ou de rascunhos quase indecifráveis, eram engavetados. Foram assim encontrados, depois de sua morte, uns na mais completa desordem, outros em mãos de terceiros. O trabalho de edição de sua obra coube de início a um crítico literário, Thomas Higginson, que não apreciava a sua poesia e por mais de uma vez a havia aconselhado a não publicá-la, e à amante de seu irmão, Mabel Loomis Todd, que ela se negara a conhecer pessoalmente. Editados e formatados ao gosto de cada época, os poemas de Emily Dickinson tornaram-se ao longo dos anos um sucesso de vendas e foram aos poucos conquistando a crítica literária, que antes via nela uma simples “poetisa” de ocasião cujos versos “estranhos” e “difíceis” não se enquadravam nos ideais estéticos da poesia lírica, e que hoje a consagrou como uma das maiores expressões da literatura universal.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Péricles, príncipe de Tiro


Escrita provavelmente em 1608, Péricles, príncipe de Tiro é a primeira peça (no jargão crítico “romance”) do período final e mais amadurecido da dramaturgia de William Shakespeare.

Embora os motivos ainda não estejam inteiramente esclarecidos, a peça não foi incluída no célebre Fólio de 1623, primeira coletânea das “obras completas” do dramaturgo de Stratford-upon-Avon. Curiosamente, a não inclusão na coletânea talvez se explique porque o trecho que corresponde aos dois primeiros atos do venerável périplo do protagonista pelo Mediterrâneo, na divisão da peça em atos feita posteriormente à sua primeira publicação (em 1609) não costuma ser atribuído a Shakespeare, mas a um colaborador, George Wilkins, segundo a opinião da maioria dos estudiosos. Contudo, a probabilidade de colaboração, em vez de ser demérito, é fator que garante ao texto a fascinante perspectiva da inescapável realidade da cooperação entre os agentes do fazer teatral.

Ao “ressuscitar” John Gower, poeta inglês medieval que aqui aparece para narrar a velha história das aventuras do príncipe de Tiro, a peça é um brilhante híbrido que se situa entre narração e atuação, entre o romanesco e o teatral. Péricles é admirada por sua complexidade psicológica e dramática, especialmente na renomada cena do comovente reencontro do protagonista errante com a filha, Marina, no quinto ato (cena 21). Esse momento muitas vezes é comparado ao reencontro de Lear e Cordélia no quarto ato de Rei Lear, em que emoção e linguagem poética se mesclam de modo contundente. Os críticos têm igualmente destacado a inspirada intervenção da música, da magia e do sobrenatural, aliás, elementos típicos e cativantes que ressurgiriam nos romances que Shakespeare escreveria a seguir.

Péricles, príncipe de Tiro foi um estrondoso sucesso em 1608, talvez o maior êxito de público da carreira de Shakespeare, e foi a primeira peça do bardo a ser reencenada quando os teatros londrinos reabriram em 1569-60, após a Guerra Civil. Sobretudo no mundo anglófono, montagens do texto têm ressaltado as características fantasiosas do enredo e o recurso à pompa, por exemplo, no desfile e apresentação dos cavaleiros no segundo ato (cena 6). O movimento da ação da peça, de porto em porto, antes de ser empecilho à realização cênica, é elemento que pode ensejar montagens livres e ágeis, que apostem na capacidade de a palavra se tornar ação, bem como na cumplicidade e na imaginação do público para situar geografias e histórias. Eis, portanto, Péricles, príncipe de Tiro, colaboração de autores dramáticos, arte de narração e ação, romance e teatro, à disposição do leitor e do ator.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

DEZEMBRO DE UM VERÃO


Assim como Hemingway dizia que seus contos eram como icebergs, o mais substancial se encontrava no volume escondido. Cadão Volpato se utiliza da elipse, como característica principal nos 23 contos de seu livro. Ele escreve como se estivesse na estação mais próxima de telégrafo, e cabe a nós imaginar o que está nas entrelinhas. Dezembro parece completar o percurso iniciado em Ronda noturna. Neles o tema recorrente é a morte e o amor que não dá certo. A vida não seria assim para a maioria das pessoas?

quarta-feira, 16 de maio de 2012

ENTRE LEMBRANÇAS E ESPERANÇAS


A cineasta, roteirista e romancista Rita Buzzar nos dá nesses contos sua visão do cotidiano com seus pequenos dramas e alegrias.

terça-feira, 15 de maio de 2012

EXCLUSO


Vindo das mãos de um diretor de teatro, Excluso é o resultado de depoimentos poéticos, quase místicos, sempre vertiginosos, sempre dionisíacos, construídos durante os seis meses em que Maurício Abud esteve encerrado na prisão de Saint Gilles, em Bruxellas, acusado de tráfico de entorpecentes.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A FARSA DOS MILÊNIOS


Segundo volume de contos do autor de O mal absoluto. Com humor e cinismo o escritor paraibano traz para o leitor uma literatura crítica profundamente arraigada em nossa história

domingo, 13 de maio de 2012

POEMAS


Essa é a primeira edição da poesia de Sylvia Plath no Brasil. Consagrada em seu país de origem, os Estados Unidos, sua poesia transcendeu, sendo hoje cultuada no mundo todo.

sábado, 12 de maio de 2012

AS FERAS



Alfredo Aquino é um artista plástico. Neste seu primeiro livro de ficção, procura o que chama de “texto pictural”. Usa o texto como tela para retratar personagens que vivem situações entre o imaginado e o real. Personagens solitários, em histórias sem um aparente fio condutor, mas de grande poder narrativo e expressividade visual.

MANDE BEIJOS A GARDEL


Nesse romance, crimes se vão sucedendo sem a provocação de grandes conseqüências, exatamente como na vida real, ou como na maioria dos casos da vida real, em que o crime na verdade só envolve um insignificante criminoso e uma pobre vítima insignificante, sem ao menos uma notícia no jornal. Prêmio Guimarães Rosa 1990.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O FOGO DOS INFERNOS


Nesse novo livro o autor apresenta quatro histórias independentes, cada uma com um enredo autônomo em relação às outras. Mas em todas elas os protagonistas acabam condenados ao fogo de seus próprios infernos. É este fogo que varre todas as páginas e dão certa unidade às quatro novelas, tornando-as quase um romance.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

FOLHAS SOLTAS DE UM DIÁRIO


Dividido em quatro partes, a autora nos apresenta diversos momentos de sua vida, compartilhando-os com os leitores, e mostrando que a experiência é mestra da sabedoria

quarta-feira, 9 de maio de 2012

FÚRIAS DA MENTE,AS


Classificado pela revista Galileu como: “ Jornada contra a depressão”, o livro aborda uma das mais devastadoras doenças dos últimos tempos. “Ele”, o protagonista, realiza um árduo caminho à procura de sua identidade, após descobrir que sofre de depressão; confirmado por um anúncio com os sinais do mal (tristeza, insônia, sentimento de culpa, baixa auto-estima). Um livro que evita as falsas fórmulas — do tipo “você merece ser feliz” — e em que o leitor encontrará, além de reflexões interessantes, boa literatura.

terça-feira, 8 de maio de 2012

POESIA ARGENTINA 1940-1960


Essa antologia é um panorama das principais tendências da produção poética argentina durante três décadas. Um período marcado por febris discussões e profundas mudanças, que vão desde a aparição do surrealismo, da poesia social, do antivanguardismo, da poesia metafísica até a poesia beatnik, entre outras.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

AO REDOR DO ESCORPIÃO...


Este livro de Raimundo Carrero é mais do que um romance: é na verdade um grave desafio. Desafio, aliás, que o autor faz a si mesmo e ao leitor. É também uma provocação, que se realiza numa única frase — “o que faz uma mulher apontando o revólver para o marido?” — e que causa inquietação, procura, ansiedade. Que se desdobra, ecoa e investiga. Que surpreende. Que se esvai como um corte de navalha no pescoço...

domingo, 6 de maio de 2012

A ASSINATURA PERDIDA


“São contos exemplares no levantamento de personagens, de conflitos, de situações. Linguagem transparente de quem, precisamente por ter o que dizer, não precisa turvar as águas para parecer profundo.”

sábado, 5 de maio de 2012

AZEVICHE OU NOSSA SRA.DO


Uma tentativa de assassinato e singulares aventuras eróticas equilibram esse romance entre o absurdo e o feérico: Andersen amenizando Kafka

sexta-feira, 4 de maio de 2012

NOTURNO


O autor fala de sensações muito particulares, de aguçamentos de sensibilidade bem próprios, mas que dizem respeito, de forma direta, a qualquer leitor. Ao mesmo tempo, oferece uma fruição estética, uma poesia de inegável refinamento: acompanhar as ambigüidades, seguindo os meandros de uma narrativa não-convencional, mas transparente e sedutora em cada página

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O PECÚLIO


Bitmap O autor diz que a história dessa novela é verídica. Aposentado, partiu em busca de seu pecúlio pelos corredores do INSS de campinas. Entrou numa fila às 5h25min para verificar o drama que os aposentados vivem diariamente. ele produziu um texto ágil e com muito humor. pode ser um livro de auto-ajuda ou de auto-defesa para quem tiver a infelicidade de precisar do INSS.

terça-feira, 1 de maio de 2012

AMOR NÃO TEM BONS


Prêmio Jabuti 2000, Raimundo Carrero revela um personagem denso, às vezes cruel, às vezes lírico, possuído de um lirismo comovente, um lirismo brutal, de quem ama com arrebatamento e sem controle, capaz de ver em Biba o seu peixinho dourado, assim como descarrega a sua paixão desmedida sobre a menina e sobre a mãe.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A PUPILA DO ZERO


Oliverio Girondo é considerado o maior poeta argentino do século XX ao lado de Jorge Luis Borges. A pupila do zero é a primeira tradução do livro En la masmédula (1954) para outro idioma. Poema vanguardista por excelência, a dificuldade de tradução impediu que se conhecesse esse extraordinário poeta. Acompanham a edição textos de Régis Bonvicino, Jorge Schwartz e Raul Antelo

domingo, 29 de abril de 2012

BORGES A CONTRALUZ


Estela Canto, que manteve amizade com Borges até o final da vida dele, conta-nos a partir dessa correspondência, sua relação com o escritor e nos revela algumas das chaves de sua personalidade, em relação à família e ao grupo que os rodeava em Buenos Aires: Bioy Casares, Silvina e Victoria Ocampo, José Bianco e outros. E nos revela cartas de amor e comentários sobre o livro Aleph.

sábado, 28 de abril de 2012

BORGES EM-E-SOBRE CINEMA


A relação de Borges com o cinema foi tão labiríntica e inesperada quanto a de suas personagens com o tempo. Esse livro propõe um inventário, necessariamente provisório, de seus numerosos e contraditórios aspectos. Seu centro são os artigos que Borges publicou entre 1931 e 1944 na revista Sur sobre filmes particulares e diferentes aspectos da linguagem cinematográfica reunidos pela primeira vez em livro pelo cineasta e escritor Edgardo Cozarinsky

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O MAR QUE A NOITE ESCONDE


Coletânea de oito contos do autor, que tem agradado ao público e à crítica com sua aguçada vocação para colorista e humor sutil. Dono de uma narrativa em que o familiar se torna estranho e vice versa, aproxima o leitor e o desarma, para enredá-lo em suas certezas e surpreendê-lo em seu próprio emaranhado.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

MEMÓRIAS


“(...) Escritas entre 1890 e 1899, portanto nos anos que antecederam sua morte, e sem ter sofrido uma revisão final pelo autor, suas páginas parecem, às vezes, anotações de diário, daquelas que guardam o frescor das experiências e do impacto por elas causado. (...)”

quarta-feira, 25 de abril de 2012

METAFORMOSE


“Nas águas de Narciso os olhos dos deuses que viraram lendas. Coisa boa a ser vista com esse sabor de Catatau. (...) Por isso não confundir com Ovídio, não é metamorfose, é metaformose, a outra forma transformada por uma leitura. Uma interpretação ‘através das formas’ numa linguagem que também mudou.”

terça-feira, 24 de abril de 2012

MEU BIMBIM


Reunião de relatos que revelam a saga erótica de uma família bem-dotada. Prêmio Governador do Estado do Paraná.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

MUSA ADOLESCENTE



Romance múltiplo, explora diversos caminhos, numa atitude literária que abre sendas, multiplicando as armadilhas; uma literatura inquietante, que busca uma cumplicidade inteligente com o leitor

domingo, 22 de abril de 2012

NA ESTRADA


“A obra que Maximiano Campos vem escrevendo é cíclica e é uma só, escrita e publicada em partes que, por sua vez, cada uma por si, tem vida própria e independente. O conjunto compõe um vasto mural que ele vem levantando da vida nordestina ou, para ser mais preciso, da vida humana através deste pedaço do mundo que é o Nordeste.”

sábado, 21 de abril de 2012

NIEMEYER, UM ROMANCE


Um biógrafo diletante informa ao narrador que há vinte anos se prepara para escrever sobre Niemeyer. E que, ao se separar de sua mulher, Beatriz B., quase começou o livro ou que, em todo o caso, poderia tê-lo escrito por ocasião da separação. Há, portanto, o narrador, o biógrafo, sua ex-mulher, Niemeyer e um livro a ser escrito. Com esses elementos mínimos, Teixeira Coelho nos dá um romance arrasador sobre a insaciabilidade moderna de biografar e ser biografado e, ao mesmo tempo, um verdadeiro romance urbano brasileiro

quinta-feira, 19 de abril de 2012

HERCULES PASTICHE


Bitmap Nesse seu quarto livro o artista plástico e escritor joga com a novela dos trabalhos de Hércules, criando uma forma especial de livro. Como diz Haroldo de Campos:o Aguiar escritor é uma projeção feliz do Aguiar-pintor-escultor-performista. Tem achados que são peculiares à sua verve multimídia. Tem giros oníricos que brotam, fascinantes, de seu imaginário. Sabe colher o imprevisto e a inovação."

quarta-feira, 18 de abril de 2012

HISTORIA NATURAL DA DITADURA


“(...) História natural da ditadura, como tantos outros textos de Teixeira Coelho, tece uma simultaneidade de sentidos: a ditadura como estado natural; a natureza da ditadura; a inacabada e constante crônica da depravação e cumplicidade com a des/ordem e a repressão, com a mesquinhez e a hipocrisia, para além do ensaio e da encenação do eu, suas páginas incitam a uma reflexão constate. (...)”

terça-feira, 17 de abril de 2012

INQUILINA DO INTERVALO


“O que surpreende de imediato nesse livro é a juventude da voz, infância desabrochando na adolescência, ocupada em crescer, compreender, sentir, confundir-se, perder. (...) Esse tom, ou ressonância, impõe ao texto uma perpétua oscilação, enquanto marca de construção da subjetividade, iluminada de vários focos, fixados numa espécie de árvore do tempo. (...)”

segunda-feira, 16 de abril de 2012

JARDIM ZOOLÓGICO


Wilson Bueno, autor do premiado Mar paraguayo e de Pequeno tratado de brinquedos, ambos editados pela Iluminuras, nos traz aqui sua divertida zoologia fantástica. Na tradição dos bestiários medievais, o autor constrói seu zoológico imaginário com bichos que deslumbraram o leitor com as suas idiossincráticas características. Um livro encantador.

sábado, 14 de abril de 2012

A LUNETA MÁGICA


Por meio de uma prosa amena, o célebre autor de A moreninha constrói em A luneta mágica um enredo empolgante, que substitui o excesso de pieguice característico da primeira obra pelo mistério que prende a leitura, mantendo daquela o mesmo gosto pela descrição de costumes e cenários, que nos remete às origens de nossa formação urbana.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O MAL ABSOLUTO


Nesses onze contos do escritor paraibano Arturo Gouveia, iremos encontrar um narrador sólido, que conhece seu ofício e que, com muito humor e não sem uma boa dose de cinismo, põe a nu nossa história recente.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

POEMAS E FRAGMENTOS


“Instável por definição, o domínio de Eros está fadado à incerteza: sobre cada noite de amor sempre pode pesar a ameaça de ser a última. Daí que a fantasia da permanência ocupe a imaginação dos amantes desde há muito tempo. Ou, ao menos, desde a idade de ouro do lirismo grego, por volta de 600 a.C., quando Safo de Lesbos registrou em versos suas delicadas súplicas para a paixão substituir o tempo. Na brilhante tradução de Joaquim Brasil Fontes podemos finalmente ter acesso aos fragmentos de Safo, que deram origem à poesia amorosa do Ocidente.”

quarta-feira, 11 de abril de 2012

MAR PARAGUAY0


Escrito em portunhol (“um portunhol malhado de guarani”), esse romance, sucesso de crítica, tem um lugar ímpar na literatura brasileira, colocando seu autor na galeria dos grandes inventores da literatura mundial.

terça-feira, 10 de abril de 2012

VODU URBANO


“Assim como Godard diz que faria filmes de ficção que fossem documentários e documentários que fossem como filmes de ficção, Cozarinsky escreve narrativas autobiográficas que são como ensaios, ensaios que são como narrativas. Vodu urbano é um livro de exilado. A Buenos Aires de Cozarinsky (o passado local) e sua Paris (o presente cosmopolita) são, ambas, capitais de uma nostalgia ao mesmo tempo retroativa e percebida. O vodu do escritor conjura o passado para exacerbar os desejos não acalmados e também para exorcizá-los.”

segunda-feira, 9 de abril de 2012

WASABI


Viagem alucinada e cruzamento de gêneros, Wasabi é uma narrativa de amor e de aventuras improváveis; mas também uma parábola perfeita da difícil chegada de um homem à maturidade. “O surgimento de Alan Pauls é a melhor coisa que poderia ter acontecido à literatura argentina desde a estréia de Manuel Puig.”

domingo, 8 de abril de 2012

OS INFORTÚNIOS DA VIRTUDE


Em 1787, às vésperas da Revolução Francesa, Sade, sofrendo de uma infecção nos olhos, escreve em apenas duas semanas Os infortúnios da virtude, obra inaugural da grande saga das irmãs Justine e Juliette, a heroína virtuosa e a libertina perversa, uma trilhando as veredas do bem, a outra as do vício e da crueldade, enfim, as personagens-síntese da simetria perfeita do sistema sadiano. Uma não existe sem a outra, assim como um libertino não faz sentido neste universo radical e assustador sem a vítima que lhe serve de objeto de deboche e contraponto tipológico no exercício da perversidade.

Justine e Juliette representam os dois extremos complementares dessa narrativa dialógica na qual os poderes do vício triunfam e as fraquezas da virtude sucumbem inexoravelmente, como se a natureza, a grande-Mãe, inspirasse toda a narrativa, de forma retumbante, arrebatando das mãos os raios da Divina Providência para atirá-los contra os pobres infortunados. Eis a tônica: todo virtuoso é infeliz. Assim, a pobre heroína peregrina pela França, de cantão em cantão, sem renunciar a sua fé,sem descrer nos poderes absolutos e salvadores da religião, seus asseclas e santos.

Ela cai e se levanta, inabalável, a cada ultraje, a cada infâmia, encarnando a última das heroínas virtuosas. Justine, dir-se-ia, só existe para ser aviltada, molestada, profanada. Por isso tem “vida longa”, por isso resiste, resiste... eterna sobrevivente dos dispositivos de destruição da literatura sadiana.

No entanto, são esses “tropeços”, essas “ciladas”, cartas marcadas de uma estratégia romanesca originalíssima: há que se importunar e espezinhar a virtude, pois, caso ela triunfe sempre, o romance perde o interesse. A vida tem de ser mostrada como ela é: dura e cruel.

A tese que Sade sustenta é que a virtude exprime melhor seu sentido se for “atormentada pelo vício”.

No entanto, tal subterfúgio serve de tacape para uma empreitada maior: a paródia do gênero sentimental que faz detonar os poderes da corrupção e do vício, os únicos que, segundo seu autor, estão de acordo com as “verdadeiras intenções da natureza”.
Nessa medida (ou desmedida), Justine pode ser considerada a última das heroínas virtuosas do século XVIII, que, com efeito, decreta a morte do gênero sentimental, tão difundido nesta época por autores como Richardson, Prévost e Rousseau.

Sade escreve à contracorrente ou à contraluz desses autores, atirando no fundo do poço e sepultando de vez as esperanças do homem no homem.