O grande mérito de “Além da Estrada” (2010) está na forma com que o filme aproveita as paisagens do interior do Uruguai. A direção de fotografia da produção consegue captar com sensibilidade a beleza melancólica dos pampas. Tais enquadramentos, entretanto, não se limitam à mera demonstração de virtuosismo. O diretor Charly Braun consegue estabelecer uma relação dessas imagens com a temática do filme – a de jovens em momento de indecisão que procuram algum sentido para a sua vida. De certa forma, Braun evoca um pouco da escola Sofia Coppola de filmar – olhar contemplativo, personagens em crise existencial, trilha sonora na linha rock/folk indie. O seu diferencial dentro do mencionado estilo se encontra no fato de se utilizar técnicas documentais no registro de algumas cenas, quase como se quisesse captar o efeito casual em diálogos e situações. Nesses momentos, “Além da Estrada” atinge o seu pico criativo. No geral, padece de uma certa frouxidão na dinâmica cinematográfica pelo excesso de quebras no seu ritmo narrativo.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Além da Estrada
O grande mérito de “Além da Estrada” (2010) está na forma com que o filme aproveita as paisagens do interior do Uruguai. A direção de fotografia da produção consegue captar com sensibilidade a beleza melancólica dos pampas. Tais enquadramentos, entretanto, não se limitam à mera demonstração de virtuosismo. O diretor Charly Braun consegue estabelecer uma relação dessas imagens com a temática do filme – a de jovens em momento de indecisão que procuram algum sentido para a sua vida. De certa forma, Braun evoca um pouco da escola Sofia Coppola de filmar – olhar contemplativo, personagens em crise existencial, trilha sonora na linha rock/folk indie. O seu diferencial dentro do mencionado estilo se encontra no fato de se utilizar técnicas documentais no registro de algumas cenas, quase como se quisesse captar o efeito casual em diálogos e situações. Nesses momentos, “Além da Estrada” atinge o seu pico criativo. No geral, padece de uma certa frouxidão na dinâmica cinematográfica pelo excesso de quebras no seu ritmo narrativo.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Esses Amores

Em um primeiro plano, “Esses Amores” (2010) seria uma história romântica marcada por um pano de fundo histórico. Em essência, entretanto, trata-se de uma espécie de inventário estético e biográfico do diretor francês Claude Lelouch, onde o mesmo faz a profissão de fé de suas obsessões formais e temáticas. Misturando gêneros (romance, guerra, musical), o cineasta gera um pastiche que configura diversas influências e referências, e, por mais que tenha passagens de histórias reais, monta um mosaico narrativo que evoca vários elementos do nosso imaginário cinematográfico. Em alguns momentos, a narrativa se torna frouxa e até mesmo fragmentada, com personagens e situações se desenvolvendo de forma superficial e apressada, mas é inegável que algumas sequências trazem um cuidado visual e sonoro cativante, induzindo a um registro de tintas quase oníricas. De certa forma, é como se Lelouch jogasse no celulóide uma gama de reminiscências e fizesse com que as lembranças se materializem numa trama. Como toda recordação, é provável que o tom fique distorcido/idealizado, o que dá para o filme uma atmosfera algo irreal. Apesar de um todo irregular, “Esses Amores” é um exercício contundente de cinema por afirmar um toque personalista na sua concepção e realização.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Ainda Há Pastores?
Em princípio, a temática do documentário português “Ainda Há Pastores?” (2008) aparenta simplicidade: o progressivo fim da atividade pastoril na Serra das Estrelas. Registra prosaicos episódios do quotidiano dos moradores da região, dando especial ênfase para a rotina de Hermínio, o mais jovem pastor em atividade da localidade e, possivelmente, o último que exercerá a profissão. O diretor Jorge Pelicano adota uma concepção formal, entretanto, que transcende o conteúdo de sua trama, dando a mesma uma dimensão épica e que beira até mesmo um certo tom delirante. A direção de fotografia capta flagras antológicos da beleza natural daquelas montanhas, fazendo com que o local se apresente aos olhos do espectador como um refúgio situado em um fragmento de eternidade em que o tempo parou. Mesmo assim, Pelicano sempre nos deixa consciente que o fim daquela civilização arcaica e bucólica está próximo, com a modernidade do mundo exterior sempre à espreita agindo como um canto da sereia para os seus derradeiros habitantes. A solene narração em off acentua a impressão de anacronismo melancólico que ronda a produção. A figura de Hermínio sintetiza com perfeição os conflitos e contradições que emanam de “Ainda Hás Pastores?”: o rapaz é uma verdadeira força da natureza no seu misto de força bruta, ignorância, bom humor, observações perspicazes e hábitos bonachões (fuma e bebe como um condenado, além de adotar dieta alimentar baseada em muita gordura e quase nada de vegetais), pastoreando sem parar pelos campos e montanhas, mas se sentindo atraído pela possibilidade de trabalhar menos e descansar mais numa possível troca pela vida na cidade. E dentro de um conjunto tão coeso como narrativa, destacam-se algumas seqüências pela graça que oscila entre o ingênuo e o malicioso, como aquela em que Hermínio vai ao show do seu ídolo musical Quim Barreiros – a fúria com que rapazes e moças dançam no salão lembra muito mais um show punk do que a apresentação de um cantor brega-regional.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Ler é um hábito onde todos devem ter em sua rotina
O problema maior é que, a grande maioria das pessoas encara a leitura como uma coisa chata, sem graça nenhuma, o que não é verdade, sendo que, uma vez que adquirimos esse habito, ele acaba se tornando parte do nosso cotidiano. Bom seria que, todos lessem, pelo menos uma pagina de um livro por dia.
Acredito que isso já seria bastante para dispertar nas pessoas o gosto pela leitura. Além disso, um bom livro é uma excelente companhia e em qualquer lugar, pois aonde quer que esteja, lendo você pode viajar em um mundo cheio de entretenimento e conhecimento.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Amor a Toda Prova

Steve Carrell é um ator cômico de potencial considerável. Quando bem aproveitado (“O Âncora”, “O Virgem de 40 Anos”), consegue ter alguns momentos antológicos de humor alucinado. Nos últimos anos, entretanto, tem se enquadrado em, pelo menos, dois insípidos nichos específicos no gênero comédia – aventuras light e familiares (“Agente 86”, “Uma Noite Fora de Série”, “A Volta do Todo Poderoso”) e dramas indie familiares (“Pequena Miss Sunshine”, “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”). “Amor a Toda Prova” se enquadra na segunda opção e é igualmente frustrante. A premissa inicial da trama é até interessante – o protagonista Cal (Carell) é traído pela esposa (Julianne Moore), com a mesma pedindo ainda o divórcio. A partir daí, acaba recebendo lições de um sebento metido a conquistador (Ryan Gosling) e passa a sair com várias garotas. O que poderia ter sido uma ácida crítica ao bem comportado modo de vida classe média aos poucos se converte na exaltação deste mesmo modelo, com Cal fazendo de tudo para reconquistar a ex-mulher. O final brega, com aqueles literais discursos moralistas, põe tudo mais a perder ainda. A concepção formal do filme obedece aos ditames temáticos, adotando visual e encenação assépticos, ainda que a bonita trilha sonora de canções indies insista em oferecer uma certa atmosfera indie. No mais, o filme até tem algumas sequências efetivamente engraçadas, quando se esquece o seu tom moralizante, além de possuir um elenco acima da média, mas acaba sendo pouco para salvar “Amor a Toda Prova” de um resultado final insatisfatório.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Pacific

O próprio formato de “Pacific” (2010) já é algo polêmico. Afinal, coloca em cheque a importância do papel do diretor de um filme no momento em que o cineasta Marcelo Pedroso não coordenou qualquer tomada no documentário, aproveitando-se exclusivamente de registros amadores dos turistas participantes de um cruzeiro para Fernando de Noronha. Assim, seu papel foi trabalhar o material na montagem e lhe dar a coesão narrativa. Para aqueles que acreditam no cinema dentro da concepção de obra bem composta visualmente, tal procedimento beira a heresia. No entanto, dentro dessa proposta insólita, Pedroso consegue extrair um filme que tem momentos genuinamente engraçados e que pouco cai no enfadonho. Além disso, o diretor constrói uma obra que adquire interpretações diferentes de acordo com o olhar de cada espectador. É provável que o público cativo deste tipo de produção alternativa, que mais é exibido em festivais ou num circuito de salas não comerciais, entenda “Pacific” como a ridicularização do modo de pensar e estilo de vida pequeno burguês. Também é possível, entretanto, que se tal filme fosse exibido para uma platéia típica de salas comerciais a visão seria diversa – o mesmo espectador poderia dizer: “Que legal!! Eu queria estar me divertindo com esse pessoal!”. Por mais tosco que a sua concepção formal possa ser em alguns momentos, a força de “Pacific” está nesta capacidade de valorização do olhar subjetivo de quem o vê.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Eram três
Eram três amigos.
Eram três amigos inseparáveis.
Ficaram unidos desde a primeira vez que se viram (gostavam de se pabular disso).
Eram carne e unha desde as primeiras brincadeiras de bila, bola e arraia. Moravam em ruas separadas, mas não distantes. Nunca houve briga, mancha alguma que os separasse.
Cresceram juntos, apaixonaram-se pelas quase mesmas meninas. Dois torciam pelo São Vicente e o outro pelo Unidos do Petróleo.
Cresceram, irremediavelmente.
Um ficou pelo ginásio e ajudava o pai na bodega. Outro foi para o seminário em Sobral. E o terceiro perambulou de festa em festa.
Fatalmente um deles seria próspero comerciante. Outro, dedicado padre. E o último, professor e poeta.
Porém um deles suicidou-se por causa de um amor não correspondido. O outro foi assassinado ao separar uma briga de casais. E o derradeiro pulou da ponte da linha férrea e espatifou a coluna.
Eram três amigos.
Eram três.
Eram.
Eram três amigos inseparáveis.
Ficaram unidos desde a primeira vez que se viram (gostavam de se pabular disso).
Eram carne e unha desde as primeiras brincadeiras de bila, bola e arraia. Moravam em ruas separadas, mas não distantes. Nunca houve briga, mancha alguma que os separasse.
Cresceram juntos, apaixonaram-se pelas quase mesmas meninas. Dois torciam pelo São Vicente e o outro pelo Unidos do Petróleo.
Cresceram, irremediavelmente.
Um ficou pelo ginásio e ajudava o pai na bodega. Outro foi para o seminário em Sobral. E o terceiro perambulou de festa em festa.
Fatalmente um deles seria próspero comerciante. Outro, dedicado padre. E o último, professor e poeta.
Porém um deles suicidou-se por causa de um amor não correspondido. O outro foi assassinado ao separar uma briga de casais. E o derradeiro pulou da ponte da linha férrea e espatifou a coluna.
Eram três amigos.
Eram três.
Eram.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Estamos Juntos

O diretor Toni Venturi já havia abordado o universo do MST (Movimento dos Sem Teto) e assemelhados no ótimo documentário “Dia de Festa” (2006). Em “Estamos Juntos” (2011), ele se volta novamente para esta temática, mas a relacionando a uma trama ficcional de cunho intimista. Não à toa, alguns dos melhores momentos desta produção mais recente do cineasta estão naquelas tomadas que mostram a invasão de um prédio abandonado por integrantes do movimento e seu consequente confronto com a polícia. Venturi filma a ação com competência, valendo-se, inclusive, de recursos tipicamente documentais, como câmera de mão e imagens granuladas. No geral, entretanto, “Estamos Juntos” apresenta uma narrativa irregular. Percebe-se o que o diretor quer propor ao contrapor o drama pessoal da protagonista Carmem (Leandra Leal) com elementos de drama social. O problema é que em algumas sequências o filme acaba adquirindo um certo tom ingênuo e professoral no viés politicamente correto que adota. Mesmo assim, “Estamos Juntos” ainda apresenta algumas nuances que o tornam uma experiência cinematográfica interessante, principalmente pela interpretação sanguínea de parte de seu elenco (com destaque para a própria Leandra Leal) e para a ótima trilha sonora, que inclusive acaba tendo relevância para o contexto dramático do roteiro.
O guardador de fios
– O maior mistério que cerca a vida do grande Marechal Rondon foi o fato, até hoje inexplicado, de sua mudança de rota ao estender os fios do telégrafo nestas terras que então pertenciam ao Mato Grosso...
Eu almoçava em um empoeirado hotel de beira de estrada, em Pimenta Bueno, Rondônia, quando ouvi tal comentário na mesa vizinha. Não pensei duas vezes. Pedi licença e me ofereci para pagar a conta em troca de mais informações sobre o citado misterioso fato.
Os ocupantes da mesa me acolheram como a um amigo distante que não viam há muito tempo... Não só me proibiram de pagar a conta, como um deles ofereceu pouso em sua casa, quando souberam que eu estava para me hospedar naquele hotel. Disseram que o hotel era um bom restaurante, nada mais... Dito tudo isso em surdina, nos apresentamos e continuamos a conversa.
Seu Nonato, cearense, fora guarda-fios e narrava alguns acontecimentos a outro conterrâneo seu, o Gonzaga, seringueiro por muitos anos em Costa Marques, de passagem pela cidade, em visita ao amigo.
O misterioso fato – a tal mudança de rota – permaneceu um mistério. Desejei saber em detalhes qual teria sido a magnitude do desvio; as causas prováveis; as suas conseqüências. Porém, não avançamos muito. O que mantém o encanto de certos mistérios, descobri, é precisamente a ausência de dados que possam elucidá-los. E mesmo se os dados existem, os cultores do mistério não desejam expô-los. O encanto do mistério, enfim, pode estar nos mecanismos de sua própria preservação. E nesse sentido, o seu Nonato tudo fez para preservá-lo de qualquer solução racional.
O ponto alto do mistério estava em um fato ocorrido com o Marechal: precisamente no sonho que ele tivera na noite anterior àquela em que decidira mudar o itinerário. Se o sonho existira de fato ou não, não se sabe. Narram que ele sonhara, no entanto, com muitas serpentes atravessadas no caminho. Ao aproximar-se delas, para matá-las, elas se transformavam em pequenos fios d’água, como os indicadores de rios em um mapa. Os exatos detalhes daquele mapa, onde os rios serpenteavam, que lhe ficaram impressos na memória ao acordar, teriam dado a indicação do novo rumo, que ele não titubeou em seguir...
Seu Gonzaga, para completar a rodada de conversa, contou sobre as cobras cipó, que também, em certo dia, teria lhe indicado o rumo de sua casa, depois de ter-se perdido na mata, em lugar muito distante dos caminhos da seringa. Eu, como ouvira de um mateiro a versão contrária, de que a tal cobra faz os homens perderem-se na mata, desejei saber algo mais sobre o estranho ocorrido, mas pressenti que calar era o melhor remédio...
Da cobra cipó orientadora ao pássaro da chuva foi apenas um passo. Ou um arremesso de vôo. Seu Nonato, o guarda-fios, contou como em inúmeras vezes pôde voltar para casa mais cedo, avisado da tempestade que o pássaro anunciava. Aos pequenos saltos ele traçava a coreografia do prenúncio da chuva, deslocando-se no ar, lateralmente, como que impelido pelo vento. Deixava-se cair, retomava o vôo e de novo deslocava-se para o lado...
O dono do hotel-restaurante veio limpar a mesa, ofereceu-nos café, trouxe-nos suco e mais tarde nos serviu um lanche. Ao entardecer decidimos deixar o local, rumando para a casa de Seu Nonato. O jantar seria por lá. Uma caldeirada de peixe nos aguardava. Ele expedira a ordem por um menino de recados, que levara a mensagem à sua esposa. De modo que ao chegar sentimos no ar o cheiro da pimenta verde e outros condimentos típicos da cozinha amazônica.
Por toda noite comemos, bebemos suco de açaí e ouvimos casos e mais casos. Eu me encantava a cada pequeno trecho narrado, não imaginando que a mais impressionante das histórias ainda estava por vir e foi contada ao amanhecer do outro dia, quando o sol, tímido, se anunciava:
Eu guardava fios pelas proximidades da Vila Urupá, depois Vila de Rondônia, hoje Ji-Paraná. Percorria, por conta deste trabalho, muitos quilômetros de estrada por dia. O meu trecho era imenso e eu tinha que dar conta dele de segunda a sábado. Eu descansava no domingo e voltava a percorrê-lo, tudo recomeçando no dia seguinte.
Os postes do telégrafo margeavam uma pequena picada, que ora se estreitava, ora se alargava, a depender do trânsito de homens e animais das rotas da seringa e do comércio que alguns poucos tropeiros que faziam ocasionalmente. Na maior parte dos trechos, porém, a mata avançava sobre os fios. A minha missão era impedir que as transmissões sofressem qualquer interrupção. Os cipós, aparentemente inofensivos, tinham força para romper os fios. Certos cipós, aliás, são tão obstinados ao se deslocarem em busca da luz, que arrastam consigo tudo o que encontram pela frente... Até mesmo alguns postes foram derrubados graças à força desses cipós, embora seja muito difícil fazer alguém acreditar nisso hoje...
Certos mistérios da Amazônia, meus amigos, não podem ser desvendados, pois não costumam aparecer aos olhos dos homens mais do que uma vez... Por isso não me importo com os olhares de dúvida que me lançam. Sei que fui testemunha dos mais inacreditáveis acontecimentos.
Um caso hei de contar, para vocês terem uma idéia de como a mão de Deus pode nos guiar em certas circunstâncias, nestas terras.
Vocês podem imaginar o quanto a vida de um guarda-fios era monótona... Passávamos horas e horas sem nada fazer, senão caminhar. Certos dias, estando nos trechos mais distantes, não era possível voltar para os pontos de apoio. Dormíamos, então, no alto das árvores... Além da distância de casa, a solidão da floresta, o melancólico canto de alguns pássaros e nenhuma viva alma com quem conversar. Vez ou outra quebrava o silêncio o zumbido dos insetos, um urro de onça, um bando de maritacas, uma vara de queixadas a atravessar a picada... No caso dos porcos da mata, não era de se brincar, mas de se tomar muito cuidado; eu subia em uma árvore e os esperava passar, pois eles atropelam tudo o que encontram pela frente.
Para me sentir mais próximo dos homens; para saber de suas notícias, um dia me veio à cabeça uma idéia luminosa: aprender o código Morse, o que fiz em dois tempos. Havia em cada ponto de apoio uma máquina de telégrafo rudimentar, onde pude ensaiar as primeiras mensagens e conversas.
Dizem que não é possível o que revelarei agora, mas o fato é que, um dia, deu-me na telha estender uma grande vara de aroeira bem lisa, firme e seca, com a qual eu andava e o inusitado ocorreu: passei a captar e ler todas as mensagens que transitavam por aqueles fios.
Tornei-me, assim, um informante de todas as coisas que aconteciam pelo país e pelo mundo. Tanto que em pouco tempo alguns seringueiros mudaram suas rotas, para poderem me encontrar. Eu lhes fornecia, de graça e com boa vontade, informações sobre o preço da borracha, os rumos da política, os resultados do futebol...
Um dia, retornando para casa, depois de muitos dias na estrada, senti os fios vibrarem. Tomei a minha vara e li a mensagem. Pressenti que esta havia sido vazada, isto é, não fora registrada, seja para ser entregue ou retransmitida. E pude confirmar isso, mais tarde na Vila. O operador do telégrafo cochilara e a mensagem deixaria de ser entregue, caso eu não a tivesse interceptado. O destinatário da mensagem era o administrador do nosso lugarejo. A mensagem, em si, era curta e cifrada: “Não embarque. A travessia é perigosa. O rastro de ouro é pura ilusão”.
Eu decidi investigar o caso, pois andava desconfiado do tal administrador, que não era da região e que fora colocado ali sabia Deus o motivo! Pedi ao meu chefe, que era lotado em Porto Velho, uns dias de folga, que me foi concedido “pelos serviços cumpridos e pela disciplina exemplar”. Os três dias, somado ao domingo, foi o suficiente para desvendar toda a trama do embarque.
Na verdade, o pobre homem não era nada perigoso ou desonesto. Pelo contrário. O que me fez supor tratar-se de alguém que pudesse nos trazer problemas era o seu hábito de tudo anotar em um grosso caderno de notas. E eu imaginando, cuidadoso com as coisas alheias e que não me diziam respeito, que ele estava a escrever algum relatório secreto!
Na primeira oportunidade em que pudemos permanecer a sós, fui direto ao assunto e perguntei-lhe se a frase que eu interceptara fazia algum sentido para ele. Ele respondera que sim; que ela se encaixava perfeitamente; que era a mensagem perdida da terça-feira passada.
Em resumo, era um homem letrado e instruído. As mensagens vinham de Cuiabá, onde fora seminarista, durante alguns anos. Ele e um amigo, que se tornara padre, estavam escrevendo a quatro mãos o que eles denominavam de “Lendas da Amazônia e do Pantanal”. Em seguida me mostrou os passos da lenta elaboração do livro, nascido das mensagens trocadas, dia a dia, numa paciência sem fim.O rastro de ouro era um aviso que um personagem passava a outro, no seu embarque no rio Guaporé, em Vila Bela da Santíssima Trindade, da expedição que tinha por destino primeiro o rio Madeira. Deste eles sairiam em busca do Eldorado. Como a história é muito longa, eu a contarei em outra oportunidade.
Eu disse a mim mesmo, naquele instante, depois do caso esclarecido: “Minha santa vara de aroeira! Se não fosse você, como eu poderia descobrir uma coisa dessas!?”
Daquele dia em diante, como uma criança que encontra um novo amigo para brincar, eu contava as horas para poder voltar para a Vila. As onças, as sucuris, o mapinguari, os botos, o curupira, os tuiuiús me esperavam. Enquanto nossas esposas preparavam os filés de pescada, conforme o gosto do meu amigo, nós nos abraçávamos às lendas e nos perdíamos em meio aos tantos casos...
Os olhos marejados de Seu Nonato tentavam, em vão, esconder a emoção que as lembranças evocadas lhe causavam. Outras narrativas se sucederam naquela noite-e-manhã em que comi a melhor caldeirada de peixe de toda minha vida. Na verdade, o sabor do peixe se mesclava ao tempero próprio dos casos contados, de modo que o paladar e a audição se complementavam. Dormi como um anjo, após a sessão de cinema e do verdadeiro banquete que nos serviram, no almoço do outro dia.
Na noite do dia seguinte, já refeitos, Seu Gonzaga e eu nos vimos de novo mergulhados no talento narrativo do Seu Nonato. Entre o mingau de banana e a tapioca, ele nos serviu, saindo do forno, a história da expedição ao Eldorado. Depois de tecida toda a trama e acrescentado alguns detalhes que ele sabia tão bem acentuar, cheguei a fechar os olhos para melhor saborear a descrição de um dos trechos do enredo, como este:
...desembarcaram em uma praia, na margem direita do Guaporé, na altura do Forte Príncipe da Beira. As tracajás, pequenas tartarugas de água doce, muito comuns neste rio, saltavam em festa dos galhos das pequenas árvores existentes na beira do rio, mergulhando em suas águas quase transparentes. Nisso ouviu-se um grito medonho...
Ao recobrar plenamente os sentidos, tendo já ouvido um largo trecho da história da expedição, decidi perguntar-lhe algo, insistindo em um ponto: qual seria o grau de veracidade de, pelo menos, alguns daqueles fatos?
Ele pediu silêncio com um sinal e baixando a voz sussurrou o que disse ser o seu segredo; que não comentássemos com mais ninguém, por tudo o que fosse sagrado. Prometemos, solenemente. Disse, então, ser um inventor de prosas; que contava todas aquelas histórias para dar um colorido novo à sua vida; que estava aposentado; sua saúde não lhe permitia trabalhar como nos velhos tempos; os filhos estavam criados; de modo que não lhe restava muito a fazer, senão o refúgio de recriar casos já ouvidos e de inventar outros ainda, para se ocupar... Confessou, por fim, que às vezes exagerava nas invenciones, mas que nada fugia às regras do jogo. Dito isso, puxou o tabuleiro de dama, convidando-nos para uma rodada. Disse mais, enquanto jogávamos: que ele contaria como um seringueiro analfabeto aprendera a soletrar, sozinho, as primeiras sílabas, mesmo vivendo isolado no meio da mata, apenas por bem observar o contorno do desenho das letras nas nuvens e os sinais silábicos enviados pelo céu...
Eu, que não tinha pressa alguma em seguir viagem, acabei ficando por lá uma semana inteira. Depois, a convite de Seu Gonzaga, rumei com ele para suas terras à beira do Rio Machado, muitas léguas distantes, onde pudemos mais tarde, entre tantas pescarias, ruminar juntos as tantas histórias ouvidas.
Uma frase de Seu Nonato me acompanharia por muito tempo, lá nas barrancas do rio e que agora eu faço ressurgir ao recordar todos esses fatos: “Eu sempre deixo pistas que permitem ao ouvinte mais atento a possibilidade de distinguir com certa exatidão o que é ficção e o que é realidade, caso ele se interesse.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Sua Majestade, o Juiz
Jáder de Carvalho pertence à elite dos grandes escritores cearenses. Premiado pela Academia Brasileira de Letras e consagrado nacionalmente como um dos nossos melhores poetas, é como romancista que ele vem sendo reabilitado, a partir da reedição de romances como Aldeota e Sua Majestade, o Juiz, que agora volta às livrarias em sua terceira edição.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Planeta dos Macacos

Os mais ranhetas podem dizer que há excessos de convencionalismos no roteiro. Ou os mais nostálgicos podem dizer que os primeiros filmes da série eram mais charmosos pela maquiagem dos macacos. Tudo isso, entretanto, é preciosismo desnecessário. “Planeta dos Macacos – A Origem” (2011) traz aquilo que sempre foi essencial para a franquia – a combinação bem azeitada de aventura empolgante e uma trama consistente. Os efeitos especiais digitais de captação de movimentos dão uma clareza cristalina para o visual do filme, com os macacos oscilando com desenvoltura entre os movimentos selvagens e expressões e gestos humanizados. A interação das trucagens com atores e cenários reais impressiona pela naturalidade, com o ápice desta integração se concentrando nas sequncias finais de embates entre símios e humanos. Os efeitos também conseguem a proeza de possibilitar individualizar os principais protagonistas primatas, ressaltando a importância dramática de cada um. Já em termos de trama, o filme realmente se prende a alguns gastos dogmas no gênero ficção científica (conflitos entre a ciência e a ganância, a falta de ética e humanidade nos experimentos científicos que levam ao apocalipse, os preconceitos), mas os mesmos são explorados com sensibilidade em algumas de suas nuances, além da história trazer alguns momentos de sutis simbologias e detalhes. A conjunção de todas essas qualidades cria expectativa para os eventos futuros que a final em aberto de “Planeta dos Macacos – A Origem” sugere.
Ventos poéticos
“Grão de areia arrastado pelo ar, eu sentia sumir-me o chão dos pés, levitar, alçar voo... E me guiavam os quatro ventos...”. Nilto Maciel, em sua poética, mostra-nos que as mudanças climáticas afetam a vida e a paisagem dos homens. Fazemos ideia do poder que o vento tem? O que se revela ao decidirmos sair em caminhada para sentir o vento? Esse, o desafio.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Lima Barreto: um retrato do Brasil
O candidato a brazilianist, que queira seguir os passos do mais famoso deles, o inglês Kenneth Maxwell, e conhecer o Brasil de hoje, deveria começar por ler a obra completa de Lima Barreto (1881-1922), mas não fará má estreia se optar por Lima Barreto e a política: os “contos argelinos” e outros textos recuperados (Rio de Janeiro, Editora PUC-Edições Loyola, 2010), com organização, introdução e notas do professor Mauro Rosso. A introdução e as notas de rodapé que acompanham os textos são leitura fundamental para quem quiser se situar e contextualizar a época vivida por esse romancista e contista único na história da Literatura Brasileira.
Esta edição muito bem cognominada de “histórica” por seu organizador abriga um conjunto de 13 textos intitulados pelo próprio autor de “contos argelinos” e 33 contos escritos em sua maioria à mesma época e igualmente com clara identidade de enfoque de teor político. O organizador reuniu ainda dois textos praticamente inéditos e duas peças teatrais, que teriam sido as únicas tentativas de Lima Barreto no domínio de arte cênica, quando ainda vivia o verdor de seus 24 anos.
É de notar que, se o romancista Lima Barreto tem merecido ao longo da história edições bem cuidadas, seus contos foram publicados repletos de erros e omissões, que agora começam a ser superados pela pesquisa encetada por Rosso. Tantos equívocos talvez se tenham dado pelo fato de Lima Barreto ter publicado em vida apenas um livro de contos. Os demais textos – que fazem parte de um conjunto de 105 contos – ficaram “esquecidos” em revistas de circulação efêmera que hoje, com sorte, só podem ser encontradas nos arquivos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. É de lembrar que alguns contos foram publicados como “apêndices” de romances, como Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1949).
II
Esclarecedor é o estudo “Simulacros e alegorias barretianas” em que Rosso analisa os “contos argelinos” publicados na revista Careta, do Rio de Janeiro, entre 1915 e 1922, além de outro, “Hussein Bem-Áli Al Bálec e Miquéias Habacuc”, publicado noCorreio da Noite, em julho de 1914 e incorporado à Parte I das três edições da coletânea de contos Histórias e sonhos (1920).
Estes textos refletem o desencanto de boa parte da sociedade brasileira com a República nascida da caserna em 1889, a partir de um tosco golpe militar liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892). Mesmo assim, o 15 de novembro de 1889 representou uma alteração substancial na política e nas relações entre o poder militar e as forças dominantes. Acreditava-se que o oficial militar seria o “cidadão fardado” que, por ter um conhecimento adquirido nos bancos da academia, estaria mais bem preparado para conduzir os destinos da Nação.
Essa é uma idéia que permeou também o golpe militar de 1964 e que ainda, hoje, ronda a cabeça de alguns ideólogos de direita. Mas, a rigor, o balanço da participação militar de forma ostensiva na República tem sido mais desfavorável do que favorável para o País. Sem contar os desmandos representados pela violação dos direitos humanos não só com perseguições aos contestadores de um poder ilegítimo, pois alcançado pela força bruta, como aqueles em que as forças armadas foram utilizadas para sufocar rebeliões populares, como a Guerra dos Canudos (1896-1897), no sertão da Bahia, a Guerra do Contestado (1912-1916), em Santa Catarina, e as Revoltas da Vacina (1904) e da Chibata (1904), no Rio de Janeiro, e a de Eldorado do Carajás (1996), no Pará, entre outras.
Segundo levantamento feito pelo jornal O Estado de S.Paulo (19/12/2010), o Estado brasileiro matou 556 civis em 32 conflitos esquecidos do século 20. Ainda recentemente, o Exército foi levado a atuar contra brasileiros – narcotraficantes e pacatos moradores, indistintamente – do conjunto de favelas chamado de Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, quando a norma civilizadamente aceitável é que a força armada só existe para a defesa do País, ou seja, para agir contra ameaças externas. E não contra brasileiros, ainda que narcotraficantes. Para agir contra esses, há a Polícia Federal, que deveria ser mais bem equipada, e as polícias estaduais. Aliás, o Exército só deveria agir nas fronteiras para impedir a entrada de drogas e armas clandestinas. O pior de tudo é que isso se deu num governo liderado por um ex-metalúrgico, que pretensamente representaria a classe operária.
III
Os “contos argelinos”, à base da sátira, procuram exatamente mostrar as maquinações oligárquicas, ou seja, o sistema de poder no Brasil e suas manifestações de patrimonialismo, que valem até hoje, para utilizar a força armada em defesa de seus interesses de classe, tal como nas repúblicas islâmicas. Assim, Lima Barreto mostra São Paulo (“Al-Bandeirah”), Pernambuco (“Al-Súgar”, ou seja, açúcar) e a Bahia (“Hbaya”) como domínios de sultões, xeiques e personagens “orientalizados” deliberadamente inspirados e relacionados a figuras políticas, estabelecendo claras referências com acontecimentos da época, como observa o professor Mauro Rosso.
Dessa maneira, Lima Barreto recria o Brasil como “o País de Al-Patak”, governado pelo “usurpador Abu-Al-Dhudut”, ou seja, Hermes da Fonseca (1855-1923), e por Basileus Epitaphio, isto é, Epitácio Pessoa (1865-1942). Sem esquecer figuras menos representativas, como o ministro da Guerra Bem-Zuff Kalogheras, ou seja, Pandiá Calógeras (1870-1934), ou Cide Cinsin Bem-Nhato, ou seja, Cincinato Braga (1864-1953), líder da bancada paulista na Câmara dos Deputados que, em 1913, deu início à campanha oficial à sucessão de Hermes da Fonseca, restabelecendo a velha política do “café com leite”. Em resumo: em todos os “contos argelinos”, Lima Barreto usa e abusa do recurso à clef, que, hoje, em razão da distância, nem sempre seria fácil de desvendar, não fosse o notável trabalho de pesquisa do organizador.
Para Rosso, Lima Barreto inspirou-se claramente no movimento dos “jovens turcos”, nome dado a uma coalizão de diferentes grupos que tinham em comum o desejo de reformar o governo e a administração do Império Otomano. O movimento teve início na Turquia em 1889, primeiro entre estudantes militares, espalhando-se gradualmente para outros setores da população que se opunham à monarquia do sultão Abdülhamid II.
Com a fundação oficial em 1906 do Comitê para a União e o Progresso, partido político que atraiu a maioria dos “jovens turcos”, o movimento conseguiu construir uma tradição de contestação, que marcou a vida artística, intelectual e política do final do período otomano. Os Três Paxás, pertencentes ao movimento “jovens turcos”, governaram o império desde o golpe de 1913 até o fim da Primeira Guerra Mundial. Essas vicissitudes foram amplamente noticiadas pelos jornais do Rio de Janeiro da época e, com certeza, acompanhadas de perto por Lima Barreto.
Seja como for, esses “contos argelinos”, metafóricos, críticos, insólitos, indutivos, dedutivos e explosivos de alegoria e simulacros, como observa Rosso, guardam muitos subterfúgios e dissimulação, refletindo a visão de quem vivia à margem da classe dominante e, portanto, via as coisas de fora, à distância, sempre com um juízo crítico, percorrendo como um pícaro os salões da alta sociedade na condição de dublê de funcionário público e jornalista, até porque àquela época poucos podiam viver profissionalmente do jornalismo. Ainda hoje o jornalista é, muitas vezes, um simulacro de Lazarillo de Tormes, um “vírus” que percorre um organismo sem dele pertencer, pois, por sua atividade profissional, pode conversar pessoalmente com figurões da República ou com o alto empresariado, sem que faça parte do poder.
IV
O Brasil de Lima Barreto era governado por sultanatos, tal como hoje ainda ocorre no chamado “Brasil profundo”, em que clãs dominam a máquina pública e os meios de comunicação, sempre em defesa de interesses subalternos que se definem pelo conceito weberiano de patrimonialismo. À época, São Paulo e Minas Gerais, que dominavam a cena política, não fugiam à regra. Lima Barreto, inclusive, não se cansava de denunciar os empréstimos que os produtores paulistas levantavam no Banco do Brasil sempre a pretexto de “salvar” a lavoura do café, a grande riqueza do País.
Que “riqueza” seria essa que levava seus detentores a arrancar dinheiro e mais dinheiro das burras da Nação sempre a juros maternais, a prazos a perder de vista, em empréstimos que nem sempre seriam pagos? – era o que mais indignava o mulato Lima Barreto. E não era só o escritor quem se indignava: as oligarquias dos demais Estados também, pois não viam a hora de igualmente meter a mão na bolsa da Viúva (ou seja, da República). É aqui que está a gênese do golpe de 1930, que alguns historiadores incautos ainda chamam de Revolução de 30, que de revolução nada teve, pois não passou de uma rearrumação de oligarquias no poder.
V
Se há algum reparo a fazer a Lima Barreto e a política: os “contos argelinos”e outros textos recuperados, é para observar que, ao contrário do que o organizador diz em nota de rodapé à página 138, o escritor português Eça de Queirós (1845-1900) nunca esteve no Brasil, ainda que tenha escrito em uma de suas famosas “Farpas” na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, a respeito dos “eternos toscos achinelados da rua do Ouvidor”.
Como garante de Lisboa por correio eletrônico o mais categorizado dos biógrafos de Eça de Queirós, Alfredo Campos Matos, autor do recente Eça de Queiroz: fotobiografia: vida e obra (São Paulo, Leya, 2010), o romancista luso deve ter feito esta observação com base no que lhe teriam dito seus amigos brasileiros, como Eduardo Prado (1860-1901), Graça Aranha (1868-1931), Olavo Bilac (1865-1918), José Veríssimo (1857-1916), Joaquim Nabuco (1849-1910), Domício da Gama (1862-1925) e o barão do Rio Branco (184501912).
“Eça nunca esteve no Brasil, muito embora sejam inúmeras as suas ligações com esse país, desde a tenra infância até as suas relações tão estreitas de amizade sentimental e intelectual com Eduardo Prado”, lembra, ressaltando que, por pouco, o escritor português esteve para começar a carreira consular pela Bahia, por direito da mais alta classificação, mas foi preterido. “Depois, Prado quis que Eça fosse ministro de Portugal no Rio de Janeiro, mas isso esboroou-se, pois já não estava em idade para uma tal deslocação”, acrescenta Campos Matos.
VI
Mauro Rosso é professor e pesquisador de Literatura Brasileira, ensaísta, autor deUma proposta para a prática pedagógica (2002); São Paulo, a cidade literária(2004); e Cinco minutos e A Viuvinha, de José de Alencar, edição comentada (2005). Colaborou na coletânea Machado de Assis e a economia: o olhar oblíquo do acionista, crônicas, organizada por Gustavo Franco (Brasília, Senado Federal, 2007).
Publicou, pela parceria Editora PUC-Edições Loyola, em 2008, Contos da Machado de Assis: relicários e raisonnés e, em 2009, Contos de Arthur de Azevedo: os “efêmeros” e inéditos e Escritos de Euclides da Cunha: política, ecopolítica, etnopolítica. Atualmente, está empenhado na publicação pelo Senado Federal do primeiro dos três volumes da antologia Machado de Assis e a política: crônicas, que reunirá no total 384 textos.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Cinema e literatura
venho de ver Rio, Zona Norte e tive a impressão de rever muito do percurso crítico do movimento que no Brasil estabeleceu a literatura chamada de modernista. Nelson Pereira dos Santos atualiza em seu cinema algumas linhas de força que fundamentaram os antecedentes e os desdobramentos da emblemática Semana de Arte de 1922. Mas é curioso por outro lado perceber a carga de neorrealismo que o filme comporta, criando uma divergência com a iconoclastia do primeiro momento modernista (1922-1930), apelidado de fase heroica, que teve na arte realista um de seus alvos mais constantes.
Antologia dos Poetas Brasileiros do Período Colonial
Prazerosa tarefa a de compilar textos e compor antologias. Segue mais uma, desta vez contemplando os poetas "brasileiros" do período colonial. A nacionalidade desses poetas segue entre aspas pois de fato nem todos eles são brasileiros: aliás o primeiro deles, Anchieta, nasceu longe das terras em que iria morrer – nas Ilhas Canárias, ano de 1534, época em que a grande conquista portuguesa na América era ainda um vasto território a ser invadido, colonizado e batizado (ou seja, o Brasil ainda não existia). Além de Anchieta, também Bento Teixeira não nasceu nesta Terra dos Papagaios, sendo natural da cidade do Porto, em Portugal. Tomás Antônio Gonzaga é da mesma cidade lusitana, mas difícil seria encontrar poeta mais brasileiro que ele entre seus contemporâneos. Já o infeliz Cláudio Manuel da Costa nascera em Mariana, mas poetava como quem passasse em Minas Gerais pelo mais duro exílio. Enfim, o acidente geográfico que marca o nascimento desses indivíduos pode ser importante para a definição de seus mapas astrais, mas nem sempre importam para a definição do caréter expressivo de suas produções poéticas. A antologia pode ser encontrada no seguinte endereço:
O Grande Êxtase

Na superfície, “O Grande Êxtase do Entalhador Steiner” (1973) é um documentário a retratar o ápice de superação de Walter Steiner, campeão mundial de salto de esqui, que atinge sucessivamente impressionantes recordes mundiais. Na essência, entretanto, é obra que mostra a construção de mito, retratando o momento exato em que o homem se converte em lenda vida. Quando está fora da plataforma de salto e sem os esquis, Steiner é uma criatura tímida e desajeitada, de ar quase introspectivo. Quando entra em ação, ganha uma postura que beira a divindade, praticamente um semideus a desafiar os limites da velocidade e da gravidade. A forma com que Herzog registra os saltos de Steiner também colabora para a construção de tal dimensão épica: enquadramentos inusitados e uma câmera lenta que capta todas as nuances da performance do esquiador dão a impressão de que estamos vendo algum ser alado tirado de algum conto fantástico invadindo a nossa realidade. Mas se Herzog expõe um olhar admirado pelas proezas de seu protagonista, ele também reserva a lembrança de que o limite entre a glória mitológica e a dura realidade do fracasso é muito tênue – há sequências que trazem casos de saltos que resultaram em tragédias, como se o diretor lembrasse da própria fragilidade física humana diante de uma tentativa frustrada. Essa contraposição entre o sucesso e o fracasso estimula o questionamento sobre os motivos reais de um homem como Steiner a tentar ultrapassar cada vez mais as suas próprias marcas. A falta de uma resposta plausível acentua a aura de mistério que permeia “O Grande Êxtase do Entalhador Steiner”.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Literatura e psicanálise
Meu caro primo,Andava eu passeando pelas páginas de uma edição crítica de Iracema [preparada por Silviano Santiago], com pedaços de nossa última conversa ainda reverberando, e encontrei algo interessante. Logo nas notas ao “Prólogo da primeira edição”, Silviano aponta para o seguinte aspecto da criação literária alencarina:
Das constantes mais curiosas no texto alencarino é o fato de sempre usar o esquema metafórico /pai-filho/ para designar a ele, autor, e a seu livro, respectivamente. Já os textos mantêm entre si relações fraternas, pois na advertência a Ubirajara, escreve o romancista: “Este livro é irmão de Iracema. Chamo-lhe de lenda como ao outro.” Esse mesmo cuidado metafórico se encontra também no prólogo a Sonhos d’ouro, assinado por Sênio (pseudônimo do próprio Alencar) e que leva como título: “Bênção paterna”. O texto não pode circular sem a bênção do pai, assim como aqui, linhas acima, se preocupava o “pai” pela “sorte” do livro. Esse cuidado extremo pela sorte do texto (seu livro, dentro do esquema) redunda numa característica excepcional de Alencar: é o escritor brasileiro onde mais claro fica o desejo de sempre cercar, cercear, o caminho livre do texto, precedendo-o e seguindo-o de prefácios e posfácios, bem como protegendo-o com notas explicativas. É o caso de Iracema, O Guarani e Ubirajara, por exemplo. Assim sendo, torna-se difícil a livre interpretação do texto-filho, na medida em que o autor-pai se quer fazer “presente” no momento da leitura, acompanhando o texto de perto, com grande receio de que “seja recebido como estrangeiro e hóspede na terra dos seus”. Preferia Alencar, é claro, que ele ali encontrasse “a intimidade e aconchego da família”. [...]
E segue por aí afora. A nota me parece interessante e informativa, sugerindo possíveis caminhos de reflexão. E é muito curioso notar a presença forte do ‘esquema edípico’ [para o qual me faltam as palavras definidoras devidas] em muitos dos passos literários de Alencar. Fica pra depois uma nova conversa sobre.
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