domingo, 24 de abril de 2011

Turnê

Turnê
Merecido vencedor do prêmio de direção em Cannes, o ator Mathieu Amalric vive Joachim, um ex-produtor de TV parisiense que planeja recomeçar sua vida na América. Na “terra das oportunidades” encontra algumas dançarinas de “New Burlesque” e une-as, agenciando sua ida para a França, onde lhes promete uma turnê requintada. Mathieu tratou um tema controverso e sexual, abordando personagens marginalizadas (dançarinas de strip-tease), conseguindo torná-las interessantes, essencialmente humanas e fugindo da simples caricatura, sem que o clima da obra em nenhum momento soasse vulgar ou apelativo. Basicamente o oposto do que o diretor Marcus Baldini realizou em “Bruna Surfistinha”.

O cinéfilo devotado irá perceber uma enorme semelhança com o filme de John Cassavetes: “A Morte do Bookmaker Chinês” (1976), enquanto o roteiro nos envolve na melancolia existente por trás de todo o espetáculo de luzes e cores engendrado por Joachim, que esconde uma realidade sem nenhum glamour, onde a equipe acaba tendo que se hospedar em hotéis baratos e até mesmo se envolver em atos de furto.

Utilizar reais dançarinas de “New Burlesque” nos papéis principais é um elemento que ajuda na nossa imersão como espectadores. Mathieu Amalric se mostra um tanto quanto exagerado em cena, porém sua direção é precisa e incrivelmente eficiente. Aos poucos o filme nos prende a atenção e quando percebemos estamos completamente entretidos, neste “road movie” divertido e interessante.

sábado, 23 de abril de 2011

Que Mais posso Querer

Que Mais posso Querer
“Que Mais posso Querer” conta uma história já bastante gasta, de maneira convencional e pouco atrativa. O tipo de filme que você se surpreende cansado e checando o tempo de duração, assustando-se com o fato de haverem passado apenas vinte e cinco minutos! Arrastado e previsível.

Anna (vivida por Alba Rohrwacher) é uma jovem bem realizada em seu emprego, porém infeliz em sua relação amorosa. Seu namorado Alessio (Giuseppe Battiston) não foge do estereótipo grosseiro, desinteressado e esquisito, envolto na teia da rotina. O roteiro então nos apresenta o garçom galã Domenico (Pierfrancesco Favino), que atrai a atenção da frustrada jovem que inicia uma relação regada a muitas cenas de sexo picantes e poucos questionamentos realmente interessantes ou inovadores. É exatamente como você já assistiu em diversos filmes, porém nunca de forma tão pouco atraente.

O diretor Silvio Soldini realiza um espetáculo técnico sem falhas, com ótimas atuações, porém frio. Ele não julga as atitudes de seus personagens, tampouco os torna interessantes. O filme termina e se apaga de nossa mente no exato momento em que as luzes se acendem!

domingo, 17 de abril de 2011

Amor?

Amor?
Como documentarista o diretor João Jardim teve uma ótima experiência em Pro Dia Nascer Feliz ao falar das adversidades de alunos de escolas brasileiras. Agora o diretor volta suas lentes para um tema que está incrustado na sociedade: A violência derivada de uma grande paixão. Tendo como base diversos depoimentos verídicos de pessoas que passaram por essa situação o diretor pode delinear seu mais novo filme, “Amor?”, que chega aos cinemas nesta sexta em meio a outras grandes estreias.

A intenção do diretor é louvável, sobretudo por abordar um tema espinhoso através de pessoas da classe média e alta de nossa sociedade e tirar de sua mira estereótipos mais freqüentes em filmes que se nutrem das classes menos abastadas e caem no lugar comum. Lugar comum que fica longe desse drama bem dirigido, mas que perde impacto sem seus verdadeiros protagonistas contando suas histórias. Jardim optou por contar com um grande elenco retratando as pessoas que deram seus sofridos depoimentos. Apesar de o elenco estar muito bem, faltou esse dado mais “pessoal” nessa produção que conta ótimas histórias de forma linear, mas sem ousar aonde deveria.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

As Mães de Chico Xavier

As Mães de Chico Xavier
A capitalização recente em cima da temática espírita já nos apresentou uma obra mediana (“Chico Xavier”) e uma obra medíocre (“Nosso Lar”), agora apresenta com “As Mães de Chico Xavier”, uma obra que consegue alcançar um meio termo entre as duas já citadas.

As intenções belíssimas, porém traduzidas de maneira precária pela equipe técnica, são condizentes com a filosofia da crença. Os espíritas que não entendem muito sobre cinema, irão reclamar com os críticos, pois para eles o que vale é que os ensinamentos foram passados. Muita câmera lenta e uma trilha exagerada, tudo muito bem planejado para atender ao nicho que representa seu público alvo. Sem em nenhum momento questionar, o roteiro funciona como uma eficiente ferramenta doutrinária. O símbolo desta imparcialidade é o personagem de Caio Blat, um jornalista cético que aos poucos vai se tornando um ferrenho defensor do espiritismo.

A realidade é que os nossos cineastas ainda não conseguiram encontrar uma maneira de traduzir o discurso espírita de forma cinematograficamente eficiente. Pecam em sua essência, pois tentam criar tutoriais de sua filosofia e não obras de arte. Os atores interpretam utilizando a linguagem das novelas e do teatro, destruindo o ritmo do filme. Os diretores Glauber Filho e Halder Gomes não fogem das óbvias retratações do paraíso, com nuvens e espíritos de luz já desgastados.

Mas esta crítica não servirá aos espíritas, que sempre irão contra argumentar com pérolas como: “Você não entende a doutrina” ou “leia os livros de Kardec”. E por mais que expliquemos que analisamos o filme como obra de cinema, não como um “manual de instruções” de qualquer crença, não irão entender.

“As Mães de Chico Xavier” como cinema é ruim, exagera nos truques para emocionar, nos diálogos edificantes e que soariam melhor em palcos de teatro, com um ritmo que se arrasta e cansa até mesmo os mais devotados.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Contracorrente

Contracorrente
Uma espécie de Dona Flor e Seus Dois Maridos às avessas, esse filme Peruano que concorreu a uma vaga ao Oscar desse ano, mas foi eliminado logo na primeira etapa, Contracorrente é mais um filme gay que chega aos cinemas sem se preocupar em chocar ou mesmo levantar bandeiras. Esse é um ponto importante no longa dirigido por Javier Fuentes, decidido apenas a contar a história de amor entre dois homens em meio a uma sociedade preconceituosa (uma vila de pescadores).

Contracorrente pode ser facilmente comparado ao sucesso O Segredo de Brokeback Montain, devido as semelhanças com o filme de Ang Lee, mas a verdade que o tema de amor entre dois homens não trás tanta novidade na maioria dos roteiros. Os argumentos no geral se assemelham como um todo e “Contracorrente” sofre desse problema. Em parte, o público sabe o que esperar no fim das contas. Para tentar driblar esse problema, Fuentes se valeu do artifício do sobrenatural para dar maior importância à história de Santiago (O pintor) e Miguel (O pescador), que vivem uma paixão as escondidas, até que uma tragédia revela mais do que Miguel desejaria. É nesse ponto que o filme perde força e segue pelo caminho espiritual. Se não fosse nessa Contracorrente, talvez trouxesse algum diferencial.

O filme tem uma boa fotografia e boas atuações, mas permanece mediano devido ao seu tema atual, mas sem um bom argumento. Vale pela tentativa de tocar em um assunto importante e que na maioria das vezes é jogado para “debaixo do tapete”.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Eram três

Eram três amigos.
Eram três amigos inseparáveis.
Ficaram unidos desde a primeira vez que se viram (gostavam de se pabular disso).
Eram carne e unha desde as primeiras brincadeiras de bila, bola e arraia. Moravam em ruas separadas, mas não distantes. Nunca houve briga, mancha alguma que os separasse.
Cresceram juntos, apaixonaram-se pelas quase mesmas meninas. Dois torciam pelo São Vicente e o outro pelo Unidos do Petróleo.
Cresceram, irremediavelmente.
Um ficou pelo ginásio e ajudava o pai na bodega. Outro foi para o seminário em Sobral. E o terceiro perambulou de festa em festa.
Fatalmente um deles seria próspero comerciante. Outro, dedicado padre. E o último, professor e poeta.
Porém um deles suicidou-se por causa de um amor não correspondido. O outro foi assassinado ao separar uma briga de casais. E o derradeiro pulou da ponte da linha férrea e espatifou a coluna.
Eram três amigos.
Eram três.
Eram.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Eu Sou o Número 4

Eu Sou o Número 4
Cada vez mais os estúdios de cinema se voltam para o público adolescente produzindo histórias açucaradas com teor de ação e ficção misturados, criando uma salada por vezes sem sal e sem tempero. Seguindo a mesma tendência – infelizmente- da saga Crepúsculo, chega aos cinemas “Eu Sou o Número 4”, produção dirigida por D.J. Caruso, diretor que já mostrou uma média habilidade no gênero do suspense com Paranóia, mas não tem feito nada de fato com mais substância atualmente. Agora o diretor volta ao cinema com essa adaptação de um livro não tão conhecido do grande público. Será falta de um bom roteiro?

“Eu sou o Número 4” é previsível do início ao fim com é o habitual das produções que tem como foco o público adolescente. Um emaranhado de idéias antigas que se propõem apenas e tão somente a entreter sem criar um conteúdo inovador para o gênero água com açúcar. A premissa é mesma que tantos e tantos filmes voltados para a faixa mais consumidora da sociedade, os adolescentes. Nele temos os eternos clichês dessas produções, o mocinho que foge dos alienígenas caçadores, a mocinha que se revela uma grande guerreira e claro, um colégio cheio de valentões idiotas e suas vítimas nerds. Sem falar nos vilões alienígenas.

O problema desse tipo de filme é não beber de outras primorosas fontes que tanto fizeram sucesso em décadas passadas e buscar idéias em livros e roteiros bobos que subestimam a inteligência de um público que precisa ser instigado.

A Trilogia “De Volta para o Futuro” é uma prova de que é possível fazer um filme onde a junção de diversos estilos (drama, comédia, ação, suspense) deram certo e até hoje é referência de bom roteiro e direção. Mas também é a prova de que, infelizmente, nem sempre uma boa fórmula pode ser reproduzida. E Eu Sou o Número 4 está aí para atestar. Pena.

Ricky

Ricky“Ricky” é um filme que mescla temas de cunho social com uma bela história digna dos clássicos contos de fada.

Falar muito sobre a trama estragaria a fantástica surpresa que o cineasta francês François Ozon guardou para seu público. O que posso adiantar é que não poderia haver nascido um bebê mais especial que Ricky! Katie (vivida por Alexandra Lamy) e sua filha de sete anos Lisa (Melusine Mayance) possuem uma bela relação de cumplicidade, que a câmera de Ozon transmite com rara beleza sutil nos seus minutos iniciais. Quando o seu colega de trabalho na fábrica, o espanhol Paco (Sergi Lopez) inicia uma relação com Katie, desperta desconfiança na criança prematuramente madura. Desta relação nasce Ricky, que cedo começa a apresentar hematomas em suas costas, fazendo crescer a desconfiança da mãe com relação à índole do pai. Estaria ele batendo em seu filho? Seria a irmã mais velha, procurando atenção? A resposta dada pelo cineasta é uma bela surpresa que ofusca as pequenas falhas da obra em sua hora final, com direito inclusive a um toque final que nos remete aos piores elementos nas obras de Spielberg.

O guardador de fios




– O maior mistério que cerca a vida do grande Marechal Rondon foi o fato, até hoje inexplicado, de sua mudança de rota ao estender os fios do telégrafo nestas terras que então pertenciam ao Mato Grosso...

Eu almoçava em um empoeirado hotel de beira de estrada, em Pimenta Bueno, Rondônia, quando ouvi tal comentário na mesa vizinha. Não pensei duas vezes. Pedi licença e me ofereci para pagar a conta em troca de mais informações sobre o citado misterioso fato.
Os ocupantes da mesa me acolheram como a um amigo distante que não viam há muito tempo... Não só me proibiram de pagar a conta, como um deles ofereceu pouso em sua casa, quando souberam que eu estava para me hospedar naquele hotel. Disseram que o hotel era um bom restaurante, nada mais... Dito tudo isso em surdina, nos apresentamos e continuamos a conversa.
Seu Nonato, cearense, fora guarda-fios e narrava alguns acontecimentos a outro conterrâneo seu, o Gonzaga, seringueiro por muitos anos em Costa Marques, de passagem pela cidade, em visita ao amigo.

O misterioso fato – a tal mudança de rota – permaneceu um mistério. Desejei saber em detalhes qual teria sido a magnitude do desvio; as causas prováveis; as suas conseqüências. Porém, não avançamos muito. O que mantém o encanto de certos mistérios, descobri, é precisamente a ausência de dados que possam elucidá-los. E mesmo se os dados existem, os cultores do mistério não desejam expô-los. O encanto do mistério, enfim, pode estar nos mecanismos de sua própria preservação. E nesse sentido, o seu Nonato tudo fez para preservá-lo de qualquer solução racional.
O ponto alto do mistério estava em um fato ocorrido com o Marechal: precisamente no sonho que ele tivera na noite anterior àquela em que decidira mudar o itinerário. Se o sonho existira de fato ou não, não se sabe. Narram que ele sonhara, no entanto, com muitas serpentes atravessadas no caminho. Ao aproximar-se delas, para matá-las, elas se transformavam em pequenos fios d’água, como os indicadores de rios em um mapa. Os exatos detalhes daquele mapa, onde os rios serpenteavam, que lhe ficaram impressos na memória ao acordar, teriam dado a indicação do novo rumo, que ele não titubeou em seguir...

Seu Gonzaga, para completar a rodada de conversa, contou sobre as cobras cipó, que também, em certo dia, teria lhe indicado o rumo de sua casa, depois de ter-se perdido na mata, em lugar muito distante dos caminhos da seringa. Eu, como ouvira de um mateiro a versão contrária, de que a tal cobra faz os homens perderem-se na mata, desejei saber algo mais sobre o estranho ocorrido, mas pressenti que calar era o melhor remédio...
Da cobra cipó orientadora ao pássaro da chuva foi apenas um passo. Ou um arremesso de vôo. Seu Nonato, o guarda-fios, contou como em inúmeras vezes pôde voltar para casa mais cedo, avisado da tempestade que o pássaro anunciava. Aos pequenos saltos ele traçava a coreografia do prenúncio da chuva, deslocando-se no ar, lateralmente, como que impelido pelo vento. Deixava-se cair, retomava o vôo e de novo deslocava-se para o lado...
O dono do hotel-restaurante veio limpar a mesa, ofereceu-nos café, trouxe-nos suco e mais tarde nos serviu um lanche. Ao entardecer decidimos deixar o local, rumando para a casa de Seu Nonato. O jantar seria por lá. Uma caldeirada de peixe nos aguardava. Ele expedira a ordem por um menino de recados, que levara a mensagem à sua esposa. De modo que ao chegar sentimos no ar o cheiro da pimenta verde e outros condimentos típicos da cozinha amazônica.

Por toda noite comemos, bebemos suco de açaí e ouvimos casos e mais casos. Eu me encantava a cada pequeno trecho narrado, não imaginando que a mais impressionante das histórias ainda estava por vir e foi contada ao amanhecer do outro dia, quando o sol, tímido, se anunciava:
Eu guardava fios pelas proximidades da Vila Urupá, depois Vila de Rondônia, hoje Ji-Paraná. Percorria, por conta deste trabalho, muitos quilômetros de estrada por dia. O meu trecho era imenso e eu tinha que dar conta dele de segunda a sábado. Eu descansava no domingo e voltava a percorrê-lo, tudo recomeçando no dia seguinte.

Os postes do telégrafo margeavam uma pequena picada, que ora se estreitava, ora se alargava, a depender do trânsito de homens e animais das rotas da seringa e do comércio que alguns poucos tropeiros que faziam ocasionalmente. Na maior parte dos trechos, porém, a mata avançava sobre os fios. A minha missão era impedir que as transmissões sofressem qualquer interrupção. Os cipós, aparentemente inofensivos, tinham força para romper os fios. Certos cipós, aliás, são tão obstinados ao se deslocarem em busca da luz, que arrastam consigo tudo o que encontram pela frente... Até mesmo alguns postes foram derrubados graças à força desses cipós, embora seja muito difícil fazer alguém acreditar nisso hoje...

Certos mistérios da Amazônia, meus amigos, não podem ser desvendados, pois não costumam aparecer aos olhos dos homens mais do que uma vez... Por isso não me importo com os olhares de dúvida que me lançam. Sei que fui testemunha dos mais inacreditáveis acontecimentos.

Um caso hei de contar, para vocês terem uma idéia de como a mão de Deus pode nos guiar em certas circunstâncias, nestas terras.

Vocês podem imaginar o quanto a vida de um guarda-fios era monótona... Passávamos horas e horas sem nada fazer, senão caminhar. Certos dias, estando nos trechos mais distantes, não era possível voltar para os pontos de apoio. Dormíamos, então, no alto das árvores... Além da distância de casa, a solidão da floresta, o melancólico canto de alguns pássaros e nenhuma viva alma com quem conversar. Vez ou outra quebrava o silêncio o zumbido dos insetos, um urro de onça, um bando de maritacas, uma vara de queixadas a atravessar a picada... No caso dos porcos da mata, não era de se brincar, mas de se tomar muito cuidado; eu subia em uma árvore e os esperava passar, pois eles atropelam tudo o que encontram pela frente.
Para me sentir mais próximo dos homens; para saber de suas notícias, um dia me veio à cabeça uma idéia luminosa: aprender o código Morse, o que fiz em dois tempos. Havia em cada ponto de apoio uma máquina de telégrafo rudimentar, onde pude ensaiar as primeiras mensagens e conversas.
Dizem que não é possível o que revelarei agora, mas o fato é que, um dia, deu-me na telha estender uma grande vara de aroeira bem lisa, firme e seca, com a qual eu andava e o inusitado ocorreu: passei a captar e ler todas as mensagens que transitavam por aqueles fios.

Tornei-me, assim, um informante de todas as coisas que aconteciam pelo país e pelo mundo. Tanto que em pouco tempo alguns seringueiros mudaram suas rotas, para poderem me encontrar. Eu lhes fornecia, de graça e com boa vontade, informações sobre o preço da borracha, os rumos da política, os resultados do futebol...
Um dia, retornando para casa, depois de muitos dias na estrada, senti os fios vibrarem. Tomei a minha vara e li a mensagem. Pressenti que esta havia sido vazada, isto é, não fora registrada, seja para ser entregue ou retransmitida. E pude confirmar isso, mais tarde na Vila. O operador do telégrafo cochilara e a mensagem deixaria de ser entregue, caso eu não a tivesse interceptado. O destinatário da mensagem era o administrador do nosso lugarejo. A mensagem, em si, era curta e cifrada: “Não embarque. A travessia é perigosa. O rastro de ouro é pura ilusão”.
Eu decidi investigar o caso, pois andava desconfiado do tal administrador, que não era da região e que fora colocado ali sabia Deus o motivo! Pedi ao meu chefe, que era lotado em Porto Velho, uns dias de folga, que me foi concedido “pelos serviços cumpridos e pela disciplina exemplar”. Os três dias, somado ao domingo, foi o suficiente para desvendar toda a trama do embarque.
Na verdade, o pobre homem não era nada perigoso ou desonesto. Pelo contrário. O que me fez supor tratar-se de alguém que pudesse nos trazer problemas era o seu hábito de tudo anotar em um grosso caderno de notas. E eu imaginando, cuidadoso com as coisas alheias e que não me diziam respeito, que ele estava a escrever algum relatório secreto!
Na primeira oportunidade em que pudemos permanecer a sós, fui direto ao assunto e perguntei-lhe se a frase que eu interceptara fazia algum sentido para ele. Ele respondera que sim; que ela se encaixava perfeitamente; que era a mensagem perdida da terça-feira passada.

Em resumo, era um homem letrado e instruído. As mensagens vinham de Cuiabá, onde fora seminarista, durante alguns anos. Ele e um amigo, que se tornara padre, estavam escrevendo a quatro mãos o que eles denominavam de “Lendas da Amazônia e do Pantanal”. Em seguida me mostrou os passos da lenta elaboração do livro, nascido das mensagens trocadas, dia a dia, numa paciência sem fim.
O rastro de ouro era um aviso que um personagem passava a outro, no seu embarque no rio Guaporé, em Vila Bela da Santíssima Trindade, da expedição que tinha por destino primeiro o rio Madeira. Deste eles sairiam em busca do Eldorado. Como a história é muito longa, eu a contarei em outra oportunidade.

Eu disse a mim mesmo, naquele instante, depois do caso esclarecido: “Minha santa vara de aroeira! Se não fosse você, como eu poderia descobrir uma coisa dessas!?”
Daquele dia em diante, como uma criança que encontra um novo amigo para brincar, eu contava as horas para poder voltar para a Vila. As onças, as sucuris, o mapinguari, os botos, o curupira, os tuiuiús me esperavam. Enquanto nossas esposas preparavam os filés de pescada, conforme o gosto do meu amigo, nós nos abraçávamos às lendas e nos perdíamos em meio aos tantos casos...

Os olhos marejados de Seu Nonato tentavam, em vão, esconder a emoção que as lembranças evocadas lhe causavam. Outras narrativas se sucederam naquela noite-e-manhã em que comi a melhor caldeirada de peixe de toda minha vida. Na verdade, o sabor do peixe se mesclava ao tempero próprio dos casos contados, de modo que o paladar e a audição se complementavam. Dormi como um anjo, após a sessão de cinema e do verdadeiro banquete que nos serviram, no almoço do outro dia.
Na noite do dia seguinte, já refeitos, Seu Gonzaga e eu nos vimos de novo mergulhados no talento narrativo do Seu Nonato. Entre o mingau de banana e a tapioca, ele nos serviu, saindo do forno, a história da expedição ao Eldorado. Depois de tecida toda a trama e acrescentado alguns detalhes que ele sabia tão bem acentuar, cheguei a fechar os olhos para melhor saborear a descrição de um dos trechos do enredo, como este:

...desembarcaram em uma praia, na margem direita do Guaporé, na altura do Forte Príncipe da Beira. As tracajás, pequenas tartarugas de água doce, muito comuns neste rio, saltavam em festa dos galhos das pequenas árvores existentes na beira do rio, mergulhando em suas águas quase transparentes. Nisso ouviu-se um grito medonho...
Ao recobrar plenamente os sentidos, tendo já ouvido um largo trecho da história da expedição, decidi perguntar-lhe algo, insistindo em um ponto: qual seria o grau de veracidade de, pelo menos, alguns daqueles fatos?

Ele pediu silêncio com um sinal e baixando a voz sussurrou o que disse ser o seu segredo; que não comentássemos com mais ninguém, por tudo o que fosse sagrado. Prometemos, solenemente. Disse, então, ser um inventor de prosas; que contava todas aquelas histórias para dar um colorido novo à sua vida; que estava aposentado; sua saúde não lhe permitia trabalhar como nos velhos tempos; os filhos estavam criados; de modo que não lhe restava muito a fazer, senão o refúgio de recriar casos já ouvidos e de inventar outros ainda, para se ocupar... Confessou, por fim, que às vezes exagerava nas invenciones, mas que nada fugia às regras do jogo. Dito isso, puxou o tabuleiro de dama, convidando-nos para uma rodada. Disse mais, enquanto jogávamos: que ele contaria como um seringueiro analfabeto aprendera a soletrar, sozinho, as primeiras sílabas, mesmo vivendo isolado no meio da mata, apenas por bem observar o contorno do desenho das letras nas nuvens e os sinais silábicos enviados pelo céu...
Eu, que não tinha pressa alguma em seguir viagem, acabei ficando por lá uma semana inteira. Depois, a convite de Seu Gonzaga, rumei com ele para suas terras à beira do Rio Machado, muitas léguas distantes, onde pudemos mais tarde, entre tantas pescarias, ruminar juntos as tantas histórias ouvidas.

Uma frase de Seu Nonato me acompanharia por muito tempo, lá nas barrancas do rio e que agora eu faço ressurgir ao recordar todos esses fatos: “Eu sempre deixo pistas que permitem ao ouvinte mais atento a possibilidade de distinguir com certa exatidão o que é ficção e o que é realidade, caso ele se interesse.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Uma Manhã Gloriosa

Uma Manhã Gloriosa
“Uma Manhã Gloriosa” possui um bom roteiro escrito por Aline McKenna (de “O Diabo Veste Prada”) e um trio de protagonistas que fazem valer o ingresso.

Rachel McAdams interpreta Becky, uma produtora de TV batalhadora que acaba de ser despedida de seu programa. Ela vê uma grande oportunidade ao tomar o controle de um programa matinal (apresentado por Diane Keaton) com péssimos índices de audiência, porém precisa da ajuda de um repórter veterano (vivido por Harrison Ford) que intenciona manter seu nível de qualidade e elevar os padrões do programa, que beira o medíocre. O roteiro é simples e todo mundo já imagina como irá ser o desfecho desta história já nos primeiros minutos, mas o charme e a química do trio são um deleite aos olhos. McAdams possui um precioso timing cômico e o utiliza com inteligência até mesmo nos momentos mais histriônicos. Já Ford apresenta seu melhor trabalho em muitos anos!

Guardadas as devidas proporções, o que “Rede de Intrigas” (Network – 1976) fez com o tema pelo drama, “Uma Manhã Gloriosa” faz pela vertente do humor. O diretor Roger Michell (de “Um Lugar Chamado Notting Hill”) nos entrega uma divertida visão sobre os bastidores da TV e as pessoas que trabalham nela. Não chega nem próximo de ser uma obra prima, mas são duas horas bem divertidas.

Sua Majestade, o Juiz




Jáder de Carvalho pertence à elite dos grandes escritores cearenses. Premiado pela Academia Brasileira de Letras e consagrado nacionalmente como um dos nossos melhores poetas, é como romancista que ele vem sendo reabilitado, a partir da reedição de romances como Aldeota e Sua Majestade, o Juiz, que agora volta às livrarias em sua terceira edição.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ventos poéticos




“Grão de areia arrastado pelo ar, eu sentia sumir-me o chão dos pés, levitar, alçar voo... E me guiavam os quatro ventos...”. Nilto Maciel, em sua poética, mostra-nos que as mudanças climáticas afetam a vida e a paisagem dos homens. Fazemos ideia do poder que o vento tem? O que se revela ao decidirmos sair em caminhada para sentir o vento? Esse, o desafio.

domingo, 3 de abril de 2011

Lima Barreto: um retrato do Brasil





O candidato a brazilianist, que queira seguir os passos do mais famoso deles, o inglês Kenneth Maxwell, e conhecer o Brasil de hoje, deveria começar por ler a obra completa de Lima Barreto (1881-1922), mas não fará má estreia se optar por Lima Barreto e a política: os “contos argelinos” e outros textos recuperados (Rio de Janeiro, Editora PUC-Edições Loyola, 2010), com organização, introdução e notas do professor Mauro Rosso. A introdução e as notas de rodapé que acompanham os textos são leitura fundamental para quem quiser se situar e contextualizar a época vivida por esse romancista e contista único na história da Literatura Brasileira.
Esta edição muito bem cognominada de “histórica” por seu organizador abriga um conjunto de 13 textos intitulados pelo próprio autor de “contos argelinos” e 33 contos escritos em sua maioria à mesma época e igualmente com clara identidade de enfoque de teor político. O organizador reuniu ainda dois textos praticamente inéditos e duas peças teatrais, que teriam sido as únicas tentativas de Lima Barreto no domínio de arte cênica, quando ainda vivia o verdor de seus 24 anos.
É de notar que, se o romancista Lima Barreto tem merecido ao longo da história edições bem cuidadas, seus contos foram publicados repletos de erros e omissões, que agora começam a ser superados pela pesquisa encetada por Rosso. Tantos equívocos talvez se tenham dado pelo fato de Lima Barreto ter publicado em vida apenas um livro de contos. Os demais textos – que fazem parte de um conjunto de 105 contos – ficaram “esquecidos” em revistas de circulação efêmera que hoje, com sorte, só podem ser encontradas nos arquivos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. É de lembrar que alguns contos foram publicados como “apêndices” de romances, como Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1949).

II

Esclarecedor é o estudo “Simulacros e alegorias barretianas” em que Rosso analisa os “contos argelinos” publicados na revista Careta, do Rio de Janeiro, entre 1915 e 1922, além de outro, “Hussein Bem-Áli Al Bálec e Miquéias Habacuc”, publicado noCorreio da Noite, em julho de 1914 e incorporado à Parte I das três edições da coletânea de contos Histórias e sonhos (1920).

Estes textos refletem o desencanto de boa parte da sociedade brasileira com a República nascida da caserna em 1889, a partir de um tosco golpe militar liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892). Mesmo assim, o 15 de novembro de 1889 representou uma alteração substancial na política e nas relações entre o poder militar e as forças dominantes. Acreditava-se que o oficial militar seria o “cidadão fardado” que, por ter um conhecimento adquirido nos bancos da academia, estaria mais bem preparado para conduzir os destinos da Nação.
Essa é uma idéia que permeou também o golpe militar de 1964 e que ainda, hoje, ronda a cabeça de alguns ideólogos de direita. Mas, a rigor, o balanço da participação militar de forma ostensiva na República tem sido mais desfavorável do que favorável para o País. Sem contar os desmandos representados pela violação dos direitos humanos não só com perseguições aos contestadores de um poder ilegítimo, pois alcançado pela força bruta, como aqueles em que as forças armadas foram utilizadas para sufocar rebeliões populares, como a Guerra dos Canudos (1896-1897), no sertão da Bahia, a Guerra do Contestado (1912-1916), em Santa Catarina, e as Revoltas da Vacina (1904) e da Chibata (1904), no Rio de Janeiro, e a de Eldorado do Carajás (1996), no Pará, entre outras.

Segundo levantamento feito pelo jornal O Estado de S.Paulo (19/12/2010), o Estado brasileiro matou 556 civis em 32 conflitos esquecidos do século 20. Ainda recentemente, o Exército foi levado a atuar contra brasileiros – narcotraficantes e pacatos moradores, indistintamente – do conjunto de favelas chamado de Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, quando a norma civilizadamente aceitável é que a força armada só existe para a defesa do País, ou seja, para agir contra ameaças externas. E não contra brasileiros, ainda que narcotraficantes. Para agir contra esses, há a Polícia Federal, que deveria ser mais bem equipada, e as polícias estaduais. Aliás, o Exército só deveria agir nas fronteiras para impedir a entrada de drogas e armas clandestinas. O pior de tudo é que isso se deu num governo liderado por um ex-metalúrgico, que pretensamente representaria a classe operária.

III

Os “contos argelinos”, à base da sátira, procuram exatamente mostrar as maquinações oligárquicas, ou seja, o sistema de poder no Brasil e suas manifestações de patrimonialismo, que valem até hoje, para utilizar a força armada em defesa de seus interesses de classe, tal como nas repúblicas islâmicas. Assim, Lima Barreto mostra São Paulo (“Al-Bandeirah”), Pernambuco (“Al-Súgar”, ou seja, açúcar) e a Bahia (“Hbaya”) como domínios de sultões, xeiques e personagens “orientalizados” deliberadamente inspirados e relacionados a figuras políticas, estabelecendo claras referências com acontecimentos da época, como observa o professor Mauro Rosso.

Dessa maneira, Lima Barreto recria o Brasil como “o País de Al-Patak”, governado pelo “usurpador Abu-Al-Dhudut”, ou seja, Hermes da Fonseca (1855-1923), e por Basileus Epitaphio, isto é, Epitácio Pessoa (1865-1942). Sem esquecer figuras menos representativas, como o ministro da Guerra Bem-Zuff Kalogheras, ou seja, Pandiá Calógeras (1870-1934), ou Cide Cinsin Bem-Nhato, ou seja, Cincinato Braga (1864-1953), líder da bancada paulista na Câmara dos Deputados que, em 1913, deu início à campanha oficial à sucessão de Hermes da Fonseca, restabelecendo a velha política do “café com leite”. Em resumo: em todos os “contos argelinos”, Lima Barreto usa e abusa do recurso à clef, que, hoje, em razão da distância, nem sempre seria fácil de desvendar, não fosse o notável trabalho de pesquisa do organizador.

Para Rosso, Lima Barreto inspirou-se claramente no movimento dos “jovens turcos”, nome dado a uma coalizão de diferentes grupos que tinham em comum o desejo de reformar o governo e a administração do Império Otomano. O movimento teve início na Turquia em 1889, primeiro entre estudantes militares, espalhando-se gradualmente para outros setores da população que se opunham à monarquia do sultão Abdülhamid II.

Com a fundação oficial em 1906 do Comitê para a União e o Progresso, partido político que atraiu a maioria dos “jovens turcos”, o movimento conseguiu construir uma tradição de contestação, que marcou a vida artística, intelectual e política do final do período otomano. Os Três Paxás, pertencentes ao movimento “jovens turcos”, governaram o império desde o golpe de 1913 até o fim da Primeira Guerra Mundial. Essas vicissitudes foram amplamente noticiadas pelos jornais do Rio de Janeiro da época e, com certeza, acompanhadas de perto por Lima Barreto.

Seja como for, esses “contos argelinos”, metafóricos, críticos, insólitos, indutivos, dedutivos e explosivos de alegoria e simulacros, como observa Rosso, guardam muitos subterfúgios e dissimulação, refletindo a visão de quem vivia à margem da classe dominante e, portanto, via as coisas de fora, à distância, sempre com um juízo crítico, percorrendo como um pícaro os salões da alta sociedade na condição de dublê de funcionário público e jornalista, até porque àquela época poucos podiam viver profissionalmente do jornalismo. Ainda hoje o jornalista é, muitas vezes, um simulacro de Lazarillo de Tormes, um “vírus” que percorre um organismo sem dele pertencer, pois, por sua atividade profissional, pode conversar pessoalmente com figurões da República ou com o alto empresariado, sem que faça parte do poder.
IV

O Brasil de Lima Barreto era governado por sultanatos, tal como hoje ainda ocorre no chamado “Brasil profundo”, em que clãs dominam a máquina pública e os meios de comunicação, sempre em defesa de interesses subalternos que se definem pelo conceito weberiano de patrimonialismo. À época, São Paulo e Minas Gerais, que dominavam a cena política, não fugiam à regra. Lima Barreto, inclusive, não se cansava de denunciar os empréstimos que os produtores paulistas levantavam no Banco do Brasil sempre a pretexto de “salvar” a lavoura do café, a grande riqueza do País.

Que “riqueza” seria essa que levava seus detentores a arrancar dinheiro e mais dinheiro das burras da Nação sempre a juros maternais, a prazos a perder de vista, em empréstimos que nem sempre seriam pagos? – era o que mais indignava o mulato Lima Barreto. E não era só o escritor quem se indignava: as oligarquias dos demais Estados também, pois não viam a hora de igualmente meter a mão na bolsa da Viúva (ou seja, da República). É aqui que está a gênese do golpe de 1930, que alguns historiadores incautos ainda chamam de Revolução de 30, que de revolução nada teve, pois não passou de uma rearrumação de oligarquias no poder.

V

Se há algum reparo a fazer a Lima Barreto e a política: os “contos argelinos”e outros textos recuperados, é para observar que, ao contrário do que o organizador diz em nota de rodapé à página 138, o escritor português Eça de Queirós (1845-1900) nunca esteve no Brasil, ainda que tenha escrito em uma de suas famosas “Farpas” na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, a respeito dos “eternos toscos achinelados da rua do Ouvidor”.

Como garante de Lisboa por correio eletrônico o mais categorizado dos biógrafos de Eça de Queirós, Alfredo Campos Matos, autor do recente Eça de Queiroz: fotobiografia: vida e obra (São Paulo, Leya, 2010), o romancista luso deve ter feito esta observação com base no que lhe teriam dito seus amigos brasileiros, como Eduardo Prado (1860-1901), Graça Aranha (1868-1931), Olavo Bilac (1865-1918), José Veríssimo (1857-1916), Joaquim Nabuco (1849-1910), Domício da Gama (1862-1925) e o barão do Rio Branco (184501912).

“Eça nunca esteve no Brasil, muito embora sejam inúmeras as suas ligações com esse país, desde a tenra infância até as suas relações tão estreitas de amizade sentimental e intelectual com Eduardo Prado”, lembra, ressaltando que, por pouco, o escritor português esteve para começar a carreira consular pela Bahia, por direito da mais alta classificação, mas foi preterido. “Depois, Prado quis que Eça fosse ministro de Portugal no Rio de Janeiro, mas isso esboroou-se, pois já não estava em idade para uma tal deslocação”, acrescenta Campos Matos.

VI

Mauro Rosso é professor e pesquisador de Literatura Brasileira, ensaísta, autor deUma proposta para a prática pedagógica (2002); São Paulo, a cidade literária(2004); e Cinco minutos e A Viuvinha, de José de Alencar, edição comentada (2005). Colaborou na coletânea Machado de Assis e a economia: o olhar oblíquo do acionista, crônicas, organizada por Gustavo Franco (Brasília, Senado Federal, 2007).

Publicou, pela parceria Editora PUC-Edições Loyola, em 2008, Contos da Machado de Assis: relicários e raisonnés e, em 2009, Contos de Arthur de Azevedo: os “efêmeros” e inéditos e Escritos de Euclides da Cunha: política, ecopolítica, etnopolítica. Atualmente, está empenhado na publicação pelo Senado Federal do primeiro dos três volumes da antologia Machado de Assis e a política: crônicas, que reunirá no total 384 textos.

sábado, 2 de abril de 2011

Cinema e literatura

venho de ver Rio, Zona Norte e tive a impressão de rever muito do percurso crítico do movimento que no Brasil estabeleceu a literatura chamada de modernista. Nelson Pereira dos Santos atualiza em seu cinema algumas linhas de força que fundamentaram os antecedentes e os desdobramentos da emblemática Semana de Arte de 1922. Mas é curioso por outro lado perceber a carga de neorrealismo que o filme comporta, criando uma divergência com a iconoclastia do primeiro momento modernista (1922-1930), apelidado de fase heroica, que teve na arte realista um de seus alvos mais constantes.

O Dilema

O Dilema
Depois de tantas comédias direcionadas ao público adolescente, Vince Vaughn estrela em uma imperfeita, porém deliciosa comédia adulta.

“O Dilema” dá uma chance para Vaughn amadurecer seu estilo de humor, com uma trama que nas mãos do diretor Ron Howard consegue misturar diferentes tons, combinando momentos de humor pastelão com outros bastante sérios. Howard peca somente em não conseguir fazer estas mudanças fluírem de maneira natural. Existem várias quebras de ritmo perceptíveis, denotando a pouca familiaridade do diretor com o material. Ele faz muito bem comédias simpáticas (como “Splash” e “Cocoon”) e dramas (como “Apollo 13” e “Frost/Nixon”), mas nas poucas vezes que se aventurou em misturar estes elementos, o resultado ficou abaixo do esperado.

Ronny (Vaughn) e Nick (Kevin James) são amigos desde a época da faculdade e são sócios em uma firma de projetos automobilísticos. Ao descobrir que a esposa de Nick, Geneva (Winona Ryder) está traindo seu amigo, ele se descobre em um sofrido dilema: contar ou não a ele toda a verdade? O que poderia se tornar um “filme de uma piada só”, consegue manter nossa atenção com ótimas idéias do roteiro e uma boa interação entre os atores. Jennifer Connely (Beth) vive a namorada de Vaughn e também não compromete.

Com algumas pequenas falhas estruturais, porém com simpatia transbordante, o filme se torna uma ótima opção de diversão descompromissada.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Literatura e psicanálise

Meu caro primo,
Andava eu passeando pelas páginas de uma edição crítica de Iracema [preparada por Silviano Santiago], com pedaços de nossa última conversa ainda reverberando, e encontrei algo interessante. Logo nas notas ao “Prólogo da primeira edição”, Silviano aponta para o seguinte aspecto da criação literária alencarina:

Das constantes mais curiosas no texto alencarino é o fato de sempre usar o esquema metafórico /pai-filho/ para designar a ele, autor, e a seu livro, respectivamente. Já os textos mantêm entre si relações fraternas, pois na advertência a Ubirajara, escreve o romancista: “Este livro é irmão de Iracema. Chamo-lhe de lenda como ao outro.” Esse mesmo cuidado metafórico se encontra também no prólogo a Sonhos d’ouro, assinado por Sênio (pseudônimo do próprio Alencar) e que leva como título: “Bênção paterna”. O texto não pode circular sem a bênção do pai, assim como aqui, linhas acima, se preocupava o “pai” pela “sorte” do livro. Esse cuidado extremo pela sorte do texto (seu livro, dentro do esquema) redunda numa característica excepcional de Alencar: é o escritor brasileiro onde mais claro fica o desejo de sempre cercar, cercear, o caminho livre do texto, precedendo-o e seguindo-o de prefácios e posfácios, bem como protegendo-o com notas explicativas. É o caso de Iracema, O Guarani e Ubirajara, por exemplo. Assim sendo, torna-se difícil a livre interpretação do texto-filho, na medida em que o autor-pai se quer fazer “presente” no momento da leitura, acompanhando o texto de perto, com grande receio de que “seja recebido como estrangeiro e hóspede na terra dos seus”. Preferia Alencar, é claro, que ele ali encontrasse “a intimidade e aconchego da família”. [...]

E segue por aí afora. A nota me parece interessante e informativa, sugerindo possíveis caminhos de reflexão. E é muito curioso notar a presença forte do ‘esquema edípico’ [para o qual me faltam as palavras definidoras devidas] em muitos dos passos literários de Alencar. Fica pra depois uma nova conversa sobre.