sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A arte de escrever ensaio




A maior parte dos discursos do sr. Hume é uma cópia tão exata do método mais perfeito e fácil de investigação, que vemos, diante de nós, a cada passo do argumento, a maneira como ele teria concebido os sentimentos que recomenda. Para evitar objeções, ele tem o cuidado de esconder os resultados de algumas de suas investigações até que o leitor esteja preparado para aceitá-los, em virtude de uma gradação tão suave de observações e inferências que é impossível não os admitir. E, se, porventura, o leitor hesitar em assentir ou quiser recusar o assentimento, não saberá onde encontrar objeções, visto que assentiu às premissas do argumento antes de estar ciente dos resultados. É preciso, portanto, muita cautela na leitura desse autor.

Joseph Priestley

O filósofo escocês David Hume (1711-1776) é mais conhecido nos dias de hoje como autor do volumoso Tratado da natureza humana, livro importante, obrigatório nos cursos de epistemologia, teoria do conhecimento e filosofia da ciência. Também é estudado como um “grande cético”, responsável por destruir os alicerces da metafísica clássica, substituindo as certezas delas pela dúvida. Mas a imensa fama da qual Hume desfrutou no século XVIII – na Grã-Bretanha bem como no continente europeu – foi devida sobretudo aos seus escritos posteriores ao Tratado (que ele mesmo via como obra de juventude), obras mais concisas e menos abertamente técnicas. Dono de um estilo próprio e original, Hume é um dos responsáveis pela consolidação da prosa de língua inglesa.
O registro de sua escrita, clara e direta, voltada para o leitor que não é especialista, constitui um bom exemplo do equilíbrio entre as duas características que o próprio Hume recomenda para a perfeição da “arte de escrever”: a simplicidade, pela qual o autor desaparece da obra; o refinamento, que mostra a sua presença nela. Unidas numa prosa fluente e acessível, o balanço dessas qualidades, como mostra Hume, dá ao texto filosófico uma transparência que seria de outra maneira impensável.
Os A arte de escrever ensaio e outros ensaios que o leitor tem em mãos são o testemunho talvez mais vibrante do êxito que o autor alcança nessa tentativa de remodelação da sua própria linguagem filosófica.
 Dos gêneros da arte de escrever, o ensaio é provavelmente o mais conveniente à vinculação do raciocínio crítico, das construções sugestivas, porém inconclusivas.
 Não é por acaso que Hume se decide pelo cultivo desse gênero, quando se trata de elaborar uma ciência da natureza humana.
Ao lado de duas investigações (sobre o entendimento, sobre a moral), de duas histórias (uma da religião, outra da Inglaterra) e de diálogos (sobre a religião natural), os Ensaios respondem pela maturidade filosófica de Hume, e são, ao lado daqueles escritos, a maneira que o filósofo encontra para descrever o seu objeto e, atento às suas infinitas nuances, reconhecer a natureza parcial e incompleta de todo e qualquer exame conceitual daquilo que constitui o homem, este ser naturalmente social.
 A força dessa proposta não passou despercebida pelos contemporâneos de Hume. De Rousseau a Smith, de Burke a Kant, a filosofia das Luzes se empenha em encontrar uma resposta filosófica ao estilo de Hume, algo que possa dar conta do desafio por ele lançado e que todos reconhecem ao menos como legítimo: que a filosofia deixe o domínio dos especialistas para se constituir no jogo das paixões e dos sentimentos, que são a mola propulsora da natureza humana; que o filósofo se torne ciente de que as suas doutrinas serão inócuas se não puderem reconhecer-se como o resultado da trama de um discurso que, como qualquer outro, é motivado em primeiro lugar pelos sentimentos do autor que o concebeu.
Os ensaios de Hume aqui reunidos são mostra inequívoca de como as difíceis questões postas pelos filósofos requerem da parte do leitor, para ser decifradas, o prazeroso exercício da reflexão, o único capaz de dar vida à letra do texto e de fazer jus a um autor que permanece, em pleno século XXI, pertinente e inquietante.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Corações e Mentes


Já fazia alguns anos que eu ouvia falar de "Corações e Mentes" como uma obra referência dentro do gênero de documentários, não só através de críticas, mas também de comentários de amigos e conhecidos. O entusiasmo de tais manifestações sempre me deixou curioso em assistir a esse filme, mas o problema é que nem em VHS o mesmo havia sido lançado, e as exibições em cinemas dele eram cada vez mais raras. Em uma daquelas jogadas de sorte, "Corações e Mentes" foi relançado uns três anos atrás no Brasil em cópia nova. Quando finalmente consegui assistí-lo, pude perceber os motivos de tantas louvações. Tendo por tema a participação dos EUA na Guerra do Vietnã, esse documentário americano de 1974 atua basicamente em duas frentes. Por um lado, mostra com crueza o cotidiano do conflito entre americanos e vietnamitas no front de batalha, retratando todas as duras conseqüências da guerra tanto para soldados quando para a população do país. Por outro, os reflexos do conflito também colhidos nos próprios Estados Unidos, através de depoimentos que vão do alienado ao francamente obtuso até declarações amargas de militares e ex-combatentes. O que torna "Corações e Mentes" um clássico cinematográfico é a habilidade do diretor Peter Davis em pegar todo esse farto material e dar-lhe uma unidade fenomenal, através de uma montagem que casa com precisão imagens impressionantes da guerra com entrevistas contundentes, dando uma fluidez admirável para a sua narrativa. A edição do filme é tão fascinante que faz com que Davis dispense a narrativa em off para oferecer a sua visão pessoal sobre a insanidade colocada em prática no Vietnã.

Que Mais posso Querer

Que Mais posso Querer
“Que Mais posso Querer” conta uma história já bastante gasta, de maneira convencional e pouco atrativa. O tipo de filme que você se surpreende cansado e checando o tempo de duração, assustando-se com o fato de haverem passado apenas vinte e cinco minutos! Arrastado e previsível.

Anna (vivida por Alba Rohrwacher) é uma jovem bem realizada em seu emprego, porém infeliz em sua relação amorosa. Seu namorado Alessio (Giuseppe Battiston) não foge do estereótipo grosseiro, desinteressado e esquisito, envolto na teia da rotina. O roteiro então nos apresenta o garçom galã Domenico (Pierfrancesco Favino), que atrai a atenção da frustrada jovem que inicia uma relação regada a muitas cenas de sexo picantes e poucos questionamentos realmente interessantes ou inovadores. É exatamente como você já assistiu em diversos filmes, porém nunca de forma tão pouco atraente.

O diretor Silvio Soldini realiza um espetáculo técnico sem falhas, com ótimas atuações, porém frio. Ele não julga as atitudes de seus personagens, tampouco os torna interessantes. O filme termina e se apaga de nossa mente no exato momento em que as luzes se acendem!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

King Kong


Comparada com a obra original de 1933, essa versão mais recente de “King Kong” (2005) perde no quesito concisão, sendo que as mais de três horas de duração acabam se revelando um pouco excessivas. Apesar disso, a versão das aventuras do gorilão de Peter Jackson é disparada uma das grandes experiências cinematográficas dos últimos anos.

Os momentos iniciais em Nova Iorque e durante a viagem da expedição até a Ilha da Caveira são muito bem delineados, mas na realidade servem muito mais como elementos de expectativa, pois o filme se torna realmente monumental quando a expedição chega ao seu destino. A partir desse momento, teremos algumas das seqüências de ação, praticamente ininterruptas, mais delirantes já assistidas. Dos tensos e assustadores conflitos entre a expedição e os macabros nativos até a captura de Kong, Jackson orquestra uma aventura insana regada a muita morte, destruição e selvageria, com alguns breves e belos interlúdios românticos entre Ann Darrow (Naomi Watts) e o gorilão. O genial diretor neo-zelandês joga o bom senso e a contenção para o alto, sendo que o seu filme tem até uma incrível e absurda seqüência em que uma manada de dinossauros corre em disparada e capota espetacularmente. Aliás, isso é uma coisa que precisa ser dita: "King Kong" é o melhor filme de dinossauros que já assisti nos cinemas. Mas certamente o auge nessa loucura toda perpetrada por Jackson é o longo e violento combate travado entre Kong e três tiranossauros rex em que cada segundo é maravilhosamente indispensável.

Na parte final de "King Kong", a ação volta novamente para Nova Iorque com o nosso amigo primata capturado. Jackson dá uma freada no ritmo frenético das seqüências na Ilha da Caveira, mas essa desaceleração é breve. Logo depois, o embate final entre Kong e os aviões no topo do Empire State é realizado com um requinte visual e emocional ainda maior que nas versões anteriores. O momento em que os aviões surgem pela primeira vez deveria constar em uma antologia de cenas marcantes da história do cinema.

Como saldo final, pode-se dizer com certeza que "King Kong" é o melhor filme de Jackson desde "Almas Gêmeas" (1994), mostrando que mesmo trabalhando dentro de um "esquemão" Hollywood ele consegue marcar de forma indelével a sua concepção original, insana e apaixonada de cinema, conhecida desde as suas obras-primas iniciais como "Fome Animal" (1982) e "Meet The Feebles" (1989).

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Noiva Perfeita


“A Noiva Perfeita” (2006) é o tipo de filme “não fede nem cheira”: direção sem maiores inspirações, roteiro água com açúcar travestido de “ousado”, diálogos metidos a esperto, atores simpáticos (mas que atuam no piloto automático). Ou seja: tão inofensivo e quadrado quanto as comédias românticas mais insossas com Meg Ryan. Mas há um detalhe que faz toda a diferença: é um filme francês!! E como diria o velho e bom Nelson Rodrigues, tudo que é dito em francês parece mais inteligente..

domingo, 18 de setembro de 2011

Alguém Tem de Ceder


“Alguém Tem de Ceder” (2003) é aquele tipo de produção que gosta de tirar uma onda de que é uma obra madura, inteligente, sofisticada, sensível ou coisa que o valha, e supostamente seria uma espécie de contraponto aos brutais e descerebrados filmes de aventura com efeitos especiais que domina os nossos cinemas por aí. Pura cascata!! É só dar uma sacada no roteiro para perceber a lorota: coroa ricaço, boa vida e que só sai com jovenzinhas gostosas (Jack Nicholson) conhece escritora sessentona de prestígio (Diane Keaton), mãe de uma de suas conquistas, que faz com que ele reveja seus conceitos. E, é claro, os dois se apaixonam. Ah, e para provar como a tal da senhora é uma mulher realmente fascinante, um médico (Keanu Reeves) com metade da idade dela também se encanta com a mesma e passa a disputar com o tal coroa quem vai ficar com a nossa heroína. Como vocês podem ver, tudo bem mais profundo e adulto que essas bobagens de “Senhor dos Anéis”, “Harry Potter”, “Homem Aranha” e afins... Mas o que me incomoda realmente em “Alguém Tem de Ceder” é a sua absoluta falta de vida: não é a previsibilidade da trama o problema, mas sim a direção mecânica e burocrática de Nancy Meyers que tira qualquer traço de vitalidade e espontaneidade do filme. O que resta é Diane Keaton reprisando os mesmos faniquitos de sempre e Jack Nicholson mantendo a mesma expressão aparvalhada durante todo o filme (justiça seja feita: mesmo assim o cara continua muito acima da média).

sábado, 17 de setembro de 2011

Amor?

Amor?
Como documentarista o diretor João Jardim teve uma ótima experiência em Pro Dia Nascer Feliz ao falar das adversidades de alunos de escolas brasileiras. Agora o diretor volta suas lentes para um tema que está incrustado na sociedade: A violência derivada de uma grande paixão. Tendo como base diversos depoimentos verídicos de pessoas que passaram por essa situação o diretor pode delinear seu mais novo filme, “Amor?”, que chega aos cinemas nesta sexta em meio a outras grandes estreias.

A intenção do diretor é louvável, sobretudo por abordar um tema espinhoso através de pessoas da classe média e alta de nossa sociedade e tirar de sua mira estereótipos mais freqüentes em filmes que se nutrem das classes menos abastadas e caem no lugar comum. Lugar comum que fica longe desse drama bem dirigido, mas que perde impacto sem seus verdadeiros protagonistas contando suas histórias. Jardim optou por contar com um grande elenco retratando as pessoas que deram seus sofridos depoimentos. Apesar de o elenco estar muito bem, faltou esse dado mais “pessoal” nessa produção que conta ótimas histórias de forma linear, mas sem ousar aonde deveria.

Rota Suicida


A linha básica da trama de "Rota Suicida" é bem simples, girando em torno da história do policial durão e alcoólatra Ben Shockley (Clint Eastwood, numa variação eficiente do seu clássico papel de Dirty Harry) que deve proteger a prostituta Gus Mally (Sondra Locke), testemunha de um caso envolvendo corrupção policial. É claro que alguns homens da lei envolvidos não querem deixar barato, sendo que Schockley é incriminado injustamente e é obrigado a fugir com a sua protegida. Esse fio de roteiro pode parecer banal, e realmente não tem nada demais. O grande mérito de Eastwood é justamente extrair disso um eletrizante filme de ação. Mesmo com uma série de clichês, ele consegue fazer um filme tenso, impactante e que prende a atenção de quem assiste de forma implacável.

Como bom pupilo do mestre Don Siegel, com quem já havia trabalhado em uma série de filmes magníficos como "Perseguidor Implacável" e "Meu Nome é Coogan", Eastwood sabe que originalidade de roteiro não é algo que conta muito para se fazer um bom filme policial. O bom diretor desse gênero sabe que o que importa é fazer um trabalho bem cuidado em termos de edição, fotografia e caracterização de personagens, e é isso que é determinante para dar agilidade narrativa para um filme, não importando as obviedades do roteiro. Nesse sentido, Eastwood mostra entender do riscado como poucos em "Rota Suicida". Dispensando maiores efeitos e utilizando-se de uma montagem equilibrada e fotografia limpa, o diretor cria seqüências de ação de tirar o fôlego, como aquela em que Shockley tenta escapar em uma moto da perseguição incessante de um helicóptero. Fantástica também é toda a seqüência final, em que o protagonista, dentro de um ônibus blindado, é obrigado a enfrentar quase toda a força policial de Phoenix. Eastwood também fez a escolha sábia de centrar sua narrativa quase que exclusivamente em situações de Shockley se safando de várias enrascadas, que incluem até um quebra pau com uma turma de pretensos Hell Angels, o que dá uma concisão fabulosa para "Rota Suicida".

É senso comum na crítica cinematográfica dizer que Clint Eastwood tornou-se um diretor "respeitável" apenas a partir de "Bird" (1988). Assistindo, entretanto, obras como "Josey Wales" (1976) e esse "Rota Suicida" (1977) pode-se constatar que o cara já fazia ótimos filmes a bem mais tempo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Showgirls


A história do cinema é pródiga em filmes considerados malditos, obras que ganharam esse título devido a uma temática polêmica ou por apresentarem qualidades artísticas e comerciais questionáveis, nesse último caso, aquilo que podemos chamar de "bombas". É claro que alguns filmes fazem jus a esse estigma, pois realmente são muito ruins. Mas há casos, entretanto, que tal denominação acaba sendo equivocada, sendo fruto de uma percepção preconceituosa ou medíocre. Eu acredito que "Showgirls" enquadra-se nesse último caso. Considerado por muitos críticos e boa parte do público como um dos maiores fiascos da história do cinema, esse foi o filme que quase enterrou a carreira do genial diretor holandês Paul Verhoeven (na verdade, ele nem levou muito a sério esta história, comparecendo em 1996 na entrega do Framboesa de Ouro, quando "Showgirls" foi "vencedor" em várias categorias). Talvez o que tenha levado a tantos a se frustrarem foi o fato de esperarem um novo "Instinto Selvagem", um dos maiores sucessos de Verhoeven e igualmente roteirizado por Joe Eszterhas. O que diferencia os dois filmes, entretanto, é simples: enquanto que em "Instinto Selvagem" temos uma contra-parte "do bem", mesmo que perturbada, na figura do detetive Nick Curran (Michael Douglas) para a figura amoral de Catherine Tramell, em "Show Girls" isso inexiste - em sua trama ninguém é flor que se cheire, e até mesmo a pretensa heroína Nomi Malone (Elisabeth Berkley), por exemplo, não hesita em empurrar a sua rival Cristal Connors (Gina Gershons) para tomar o seu lugar de atração principal de um dos mais famosos números de dança das boates de Las Vegas. E se "Instinto Selvagem" é basicamente um suspense policial pontuado por fortes seqüências eróticas, "Show Girls" é um melodrama sobre ascensão no show business recheado de uma sexualidade que beira quase o pornográfico.

A verdade é que quem lesse atentamente o roteiro de "Showgirls" veria com certeza que se tratava de um verdadeiro suicídio comercial: essencialmente é a trajetória de dançarina loira e gostosa que quer vencer na vida, saindo de um bagaceiro bar de stripper para um show de dança erótica em um dos maiores cassinos de Las Vegas (sério, mas não se consegue perceber com grande clareza qual seria a grande evolução na vida da personagem nessa troca de emprego...). E para coroar todo esse exagero, o pano de fundo da trama é uma Las Vegas no auge da cafonice. Os olhos de Verhoeven devem ter brilhado quando ele viu todo o material que tinha em mãos. Ele joga qualquer traço de sutileza para o espaço, não abrindo qualquer concessão no seu estilo e dando um tratamento barroco e operístico para a saga de Nomi Malone. O cineasta filma as ultra-bregas coreografias das apresentações nos cassinos com uma paixão e sentido épico impressionantes. Sua câmera também dá uma dimensão insólita e ainda mais grandiosa para Las Vegas, fazendo com que a mesma pareça uma versão modernosa de Sodoma e Gomorra. Nesse sentido ainda, Verhoeven não poupa extremos: a podridão moral e a falta de escrúpulos rondam toda a trama, rendendo seqüências antológicas como aquela em que a nossa "heroína" faz a dança do colo em um influente executivo (Kyle MacLachlan) para receber uma oportunidade de emprego ou quando um diretor de coreografia (Robert Davi) sugere a candidatas para um de seus espetáculos que passem cubos de gelos nos seus mamilos para deixá-los mais durinhos...

Talvez o que leve tantos a odiarem "Showgirls" é quererem encarar o filme como se tudo aquilo fosse alguma análise séria de Verhoeven sobre o mundo dos espetáculos ou coisa parecida. O que o diretor realmente nos oferece é uma visão extrema e absurda sobre um tema que nem é tão importante assim, sendo apenas um pretexto para o seu fabuloso virtuosismo cinematográfico que se mostra no auge. A lógica de "Showgirls" é tão escapista e fantasiosa quanto a de humanos guerreando contra insetos gigantes e alienígenas em "Tropas Estelares", outra obra-prima do mestre holandês.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Profissão de Risco


Em "Profissão de Risco", o diretor Ted Demme parece nos dizer insistentemente que quer ser o novo Martin Scorsese. Bem, se ele conseguiria atingir tal objetivo é uma incógnita, afinal Demme faleceu em 2002, logo após ter finalizado "Profissão de Risco". Mas a julgar pelo filme em questão, é provável que dificilmente atingisse tal patamar. Até porque Scorsese já demonstrava genialidade no início de sua carreira, em filme como "Quem Bate a Minha Porta", "Sexy e Perigosa" e "Caminhos Perigosos", coisa que Demme nunca demonstrou em sua curta carreira cinematográfica. Mas não ser Scorsese não implica necessariamente em ser ruim, sendo que em "Profissão de Risco" podemos encontrar alguns momentos de bom cinema.

Demme formata "Profissão de Risco", tanto formal quanto tematicamente, tendo como modelo "Os Bons Companheiros", uma das grandes obras-primas de Scorsese, contando a história de ascensão, apogeu e queda do traficante George Jung (Johnny Depp). Guardadas às devidas proporções, a primeira metade de "Profissão de Risco" remete bastante aos filmes de gangsters de Scorsese, com um ritmo frenético (que parece aludir ao consumo de cocaína), caracterização bem trabalhada dos anos 60 e 70 e narração em off pautando a ação. São nesses momentos que o filme tem as suas melhores seqüências, com Demme sabendo conciliar com firmeza ironia e dramaticidade, além de contar com uma edição envolvente que se casa de forma eficiente com a trilha sonora recheada de ótimas canções emblemáticas da época. O diretor cria também um clima de dubiedade para a sua trama, em que a opulência e intensidade da vida do protagonista provocam um efeito de atração e repúdio para quem assiste.

Os problemas de "Profissão de Risco" começam aparecer, entretanto, no segundo ato do filme, que corresponde à decadência financeira e moral de Jung. O filme adquire uma narrativa muito mais arrastada e marcada por um forte tom moralista do tipo "você fez e agora você tem de pagar". Perde-se o sarcasmo do início, e fica apenas o rosário de desgraças para o nosso "herói". Demme parece esquecer alguns dos princípios do seu mestre, transformando a história de Jung em apenas mais uma parábola de como não devemos desobedecer a lei sob o risco de nos arrependermos. Uma das coisas fascinantes em "Os Bons Companheiros" era justamente o fato de que os personagens de Scorsese não pareciam demonstrar arrependimento dos seus atos, aceitando resignados o seu destino como uma das possíveis conseqüências para os seus crimes. O brilhante final resumia perfeitamente esse espírito: Henry Hill (Ray Liotta), já sob as asas do programa de proteção a testemunhas, olha o seu prato de macarrão com catchup e diz: "eu comia muito melhor antes". Aliás, um detalhe curioso em "Profissão de Risco" é o fato de Ray Liotta participar do filme como o pai de Jung, dando justamente a impressão desse último parecer uma versão júnior de seu marcante personagem em "Os Bons Companheiros".

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A tragédia de fazer ironias



Verdadeiro inventário de uma geração que findava, bússola de uma produção literária que começava. Assim podemos caracterizar O País do Carnaval, livro de estreia da profícua produção literária de Jorge Amado. A história de Paulo Rigger, o protagonista do romance, é o símbolo das "atitudes céticas" que supostamente haviam marcado a geração ativa durante os anos de 1920 no Brasil. A geração de Jorge Amado, de acordo com sua próprias palavras, chegava para combater as "atitudes céticas". Era o "projeto estético" que apresentava sinais de exaustão, deixando espaço para o chamado "projeto ideológico", que marcou o segundo momento do Modernismo (segundo a proposta interpretativa de João Luiz Lafetá, no seu importante estudo 1930: a crítica e o modernismo). O País do Carnaval é romance escrito pelo jovem Amado, então com 18 anos -- e talvez devamos pesar este dado na consideração dos defeitos e qualidades da narrativa. Como certa aparência contraditória que surge logo na "Explicação" posta antes da história de Rigger: Amado parece combater as "atitudes cética" com outra atitude cética, acreditando por exemplo que a "grandiosidade da natureza" e a "confusão de raças e sentimentos" que caracterizam a "formação do povo" no Brasil nos condenam à condição de palhaços, "de uma pequenez clássica". Vejamos o que Amado explica em sua "Explicação".
Diante da grandiosidade da natureza, o brasileiro pensou que isto aqui fosse circo. E virou palhaço...
Este livro pretende contar a história de um homem que, tendo vivido na velha França muito tempo, voltou à Pátria disposto a encontrar o sentido da sua vida.
Conta a sua luta, o seu fracasso. Conta a luta dos seus amigos, rapazes de talento, que falharam na existência.
Este livro é um grito. Quase um pedido de socorro. É toda uma geração insatisfeita, que procura a sua finalidade.
Nós já começamos a luta contra a dúvida. A geração que chega combate as atitudes céticas.
Este livro narra a vida de homens céticos que, entretanto, procuram uma finalidade. Tentaram alcançá-la. Uns no amor, outros na religião. O fracasso das tentativas não é prova da sua inutilidade.
Este livro pretende ser humano. Por mais que pareçam artificiais os seus heróis, eles vivem. Porque, procurando bem, até homens inteligentes se encontram no Brasil.
Mais do que humano, este livro tem veleidades de humanitário.
Cristo disse que se devia amar o próximo.
Acho que se deve ter amor aos semelhantes e uma grande indiferença feita de desprezo e de perdão, aos que não nos são semelhantes...
Eu não tenho veleidades literárias. Não pretendo fazer público com este romance. Não sou pornógrafo, nem jornalista de sensação.
Este livro tem um cenário triste: o Brasil. Natureza grandiosa que faz o homem de uma pequenez clássica.
A sátira, no Brasil, só a praticam os papagaios.
No Norte, terra da promissão, há uma grande confusão de raças e de sentimentos. É a formação do povo. E dessa confusão está saindo uma raça doente e indolente. E todo dia a natureza surra, com o chicote do sol, o nortista tragicamente vencido.
Este livro é como o Brasil de hoje. Sem um princípio filosófico, sem se bater por um partido. Nem comunista, nem fascista. Nem materialista, nem espiritualista. Dirão talvez que assim fiz para agradar toda crítica, por mais diverso que fosse o seu modo de pensar. Mas afirmo que tal não se deu. Não me preocupa o que diga do meu livro a crítica. Este romance relata apenas a vida de homens que seguiram os mais diversos caminhos em busca do sentido da existência. Não posso bater-me por uma causa. Eu ainda sou um que procura...
Eu quisera intitular este romance de – Os homens que eram infelizes sem saber porquê, – Mas a gente tem vergonha de certas confissões. E fica-se vivendo a tragédia de fazer ironias.
Os defeitos deste livro são a minha maior honra.

domingo, 11 de setembro de 2011

Anos de Rebeldia


Lançado em 1979 e considerado um dos vários pontos altos da carreira de Neil Young, o álbum "Rust Never Sleeps" é o reflexo de uma época conturbada tanto para o rock quanto para o próprio mundo. Era um tempo ainda muito marcado pela efervescência violenta e niilista do punk, com o ideário de paz e amor da geração "flower power" sepultado. Intrigado com a situação, o mestre canadense resolve expressar sua visão desse período através do disco em questão, cujo título, "A Ferrugem Nunca Dorme", já é uma alusão ao temor do autor de ser transformado em apenas mais um anacronismo. A clássica canção de abertura do disco, "Hey Hey, My My (Out Of The Blue)", sintetiza com perfeição o espírito da obra. Nela, Neil Young declara o seu amor ao rock and roll e faz dele a sua profissão de fé, mas ao mesmo tempo expõe as suas contradições, fazendo a ligação direta entre o Rei Elvis Presley e o príncipe bastardo Johnny Rotten, vocalista e líder dos Sex Pistols. É nessa canção, inclusive, que está a famosa sentença "é melhor queimar do que enferrujar", citada por Kurt Cobain na sua carta de despedida.

"Anos de Rebeldia", cujo título original é "Out Of The Blue", é um filme de 1981 que é diretamente inspirado em "Hey Hey, My My", mostrando o cotidiano de C.B. (Linda Manz), uma "punk girl" interiorana sempre pronta a arrumar confusões e fissurada em Elvis e Sid Vicious. Ao longo da trama, a menina vê o seu frágil núcleo familiar se desestruturar ainda mais após o seu pai, Don Barnes (Denis Hopper, também diretor do filme), sair da prisão.

Um detalhe fantástico em "Anos de Rebeldia" é que ele parece uma continuação natural de "Sem Destino", a fundamental obra de estréia de Hopper na direção e um verdadeiro marco cultural dos "sixties". Enquanto no primeiro filme há uma abordagem com um certo tom idealista e romântico para a trajetória dos dois traficantes-motoqueiros interpretados por Hopper e Peter Fonda, mas com final abrupto e violento, em "Anos de Rebeldia" essa visão mais reverencial dos anos 60 desaparece. Para o diretor, o sonho definitivamente acabou. A rebeldia, o amor livre e o uso de drogas, vistos anteriormente como formas de contestação da sociedade, foram distorcidos, passando apenas a serem mais uma forma de alienação. E C.B. é a encarnação perfeita dessa constatação, com a mesma tendo um ódio que chega a ser conceitual pelos hippies (a garota adora invadir as ondas de rádios amadores para ficar bradando "Kill All Hippies" - aliás, tal expressão é título de uma grande canção do Primal Scream, que inclusive sampleou as falas de C.B. para a música).

Hopper filma toda essa saga de decadência e destruição com muito vigor e estilo, apostando em um registro de fortes influências documentais que se casa perfeitamente com o espírito do filme. Isso se reflete logo na violenta abertura, com um dos acidentes automobilísticos mais brutais já visto no cinema, e também nas fantásticas seqüências de peregrinação noturna de C.B. pela cidadezinha onde vive e arredores, com a mesma se metendo em tudo que é tipo de encrenca, desde a puxar briga com leões-de-chácara com o triplo do seu tamanho até dar canja como baterista no show de uma banda punk e logo após participar do roubo de um carro. A espontaneidade captada por Hopper nesses momentos é admirável. É incrível também como a direção de fotografia oferece ao filme uma narrativa visual fortemente expressiva, abusando de longos planos-seqüência .

Além do belo trabalho na direção, Denis Hopper tem em "Anos de Rebeldia" uma das melhores interpretações de sua carreira, com o seu Don Barnes variando de forma comovente entre o francamente repulsivo e o patético. Mas o grande destaque do elenco do filme é sem dúvida nenhuma Linda Manz. Ela faz com que C.B. seja aquele tipo de personagem que fica rondando no nosso imaginário cinematográfico para sempre. Afinal, é em torno dela que gira o próprio filme, fazendo com que realmente ficamos íntimos da garota. Ao longo do filme, conseguimos perceber várias facetas de C.B.: sarcástica, apaixonada, carinhosa, carente, inocente, vingativa, sábia. Manz sabe captar e expressar todos esses lados da personagem, oferecendo uma atuação inesquecível. A garota ainda consegue resumir toda essa gama de sensações na trágica e irônica conclusão de "Anos de Rebeldia". Tal final, aliás, é uma verdadeira sacada de gênio de Hopper, dando um fecho sombrio e coerente para essa pérola transgressora da sua bissexta e marcante carreira de cineasta.

As Mães de Chico Xavier

As Mães de Chico Xavier
A capitalização recente em cima da temática espírita já nos apresentou uma obra mediana (“Chico Xavier”) e uma obra medíocre (“Nosso Lar”), agora apresenta com “As Mães de Chico Xavier”, uma obra que consegue alcançar um meio termo entre as duas já citadas.

As intenções belíssimas, porém traduzidas de maneira precária pela equipe técnica, são condizentes com a filosofia da crença. Os espíritas que não entendem muito sobre cinema, irão reclamar com os críticos, pois para eles o que vale é que os ensinamentos foram passados. Muita câmera lenta e uma trilha exagerada, tudo muito bem planejado para atender ao nicho que representa seu público alvo. Sem em nenhum momento questionar, o roteiro funciona como uma eficiente ferramenta doutrinária. O símbolo desta imparcialidade é o personagem de Caio Blat, um jornalista cético que aos poucos vai se tornando um ferrenho defensor do espiritismo.

A realidade é que os nossos cineastas ainda não conseguiram encontrar uma maneira de traduzir o discurso espírita de forma cinematograficamente eficiente. Pecam em sua essência, pois tentam criar tutoriais de sua filosofia e não obras de arte. Os atores interpretam utilizando a linguagem das novelas e do teatro, destruindo o ritmo do filme. Os diretores Glauber Filho e Halder Gomes não fogem das óbvias retratações do paraíso, com nuvens e espíritos de luz já desgastados.

Mas esta crítica não servirá aos espíritas, que sempre irão contra argumentar com pérolas como: “Você não entende a doutrina” ou “leia os livros de Kardec”. E por mais que expliquemos que analisamos o filme como obra de cinema, não como um “manual de instruções” de qualquer crença, não irão entender.

“As Mães de Chico Xavier” como cinema é ruim, exagera nos truques para emocionar, nos diálogos edificantes e que soariam melhor em palcos de teatro, com um ritmo que se arrasta e cansa até mesmo os mais devotados.

sábado, 10 de setembro de 2011

Atitude de apaixonada escuta

Manuel Bandeira, em seuItinerário de Pasásrgada – que revela muito do "itinerário em poesia" do seu autor –, conta como foi se aproximando da "ideia de que a poesia está em tudo – tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas". Logo nas primeiras páginas doItinerário, Bandeira fala dos primeiros versos que teria percebido, dos contos da carochinha, da companhia paterna. E do pai aliás ouviu Bandeira uns versos que o impressionaram, versos que seu pai por sua vez ouvira de um homem que lhe viera pedir esmola. Seu Souza Bandeira, o pai do poeta, brincara com o sujeito: "Pois não! Mas você antes tem de me dizer uns versos." E o sujeito assim se saiu:

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Filmes da Semana, Coisas Que Perdemos Pelo Caminho


Os dois primeiros filmes que assisti da diretora dinamarquesa de Susanne Bier foram “Corações Livres” (2002) e “Brothers” (2004), obras altamente vigorosas, em que a cineasta combinava com maestria o rigor naturalista típico do movimento Dogma 95 e dinâmica narrativa admirável, além das tramas apresentarem uma forte densidade dramática que dispensava sentimentalismos excessivos. O superestimado “Depois do Casamento” (2006) colocou a perder boa parte das qualidades das produções anteriores, com a diretora sucumbindo a exageros melodramáticos e convencionalismos formais.

“Coisas Que Perdemos Pelo Caminho” (2007), estréia de Susanne Bier nas produções norte-americana, é um pouco melhor que “Depois do Casamento”, mas não recupera o brilho inicial de “Corações Livres” e “Brothers”. Por mais que o filme trate de temas difíceis como morte e vício em drogas pesadas, o tratamento que a cineasta oferece aos mesmos é asséptico demais, tirando muito do impacto que o filme poderia ter. Bier parece mais preocupada com as lições de vida do que com oferecer uma narrativa interessante. Mesmo assim, o filme mostra alguns atrativos, principalmente pela boa interpretação de Benicio Del Toro como o viciado Jerry (apesar de estar a léguas de distância do assustador junkie vivido por Del Toro no genial “Medo e Delírio em Las Vegas), além da bela trilha sonora recheada de inesquecíveis canções de Velvet Underground e Frank Zappa.

Singularidades de uma Rapariga Loura

Singularidades de uma Rapariga Loura
Falar do cinema realizado pelo português Manoel de Oliveira é admirar a simplicidade (que me remete a Yasujiro Ozu) e a elegância de um homem que continua filmando aos 102 anos! Incrível constatar em “Singularidades de uma Rapariga Loura” o mesmo humor ingênuo de seu início em “Aniki Bóbó”, ainda na década de 40.

A obra definitivamente é indicada para os que já apreciam o estilo do cineasta, pois possui um ritmo lento, mesmo tendo apenas uma hora (que parecem duas!). Aqueles que já sabem o que esperar se encantarão com pequenos momentos simbólicos na trama, como quando se é recitado um poema de Fernando Pessoa ou na bonita forma que o cineasta encontrou para homenagear o autor do conto: Eça de Queirós. Aliás, conto este reproduzido com fidelidade. Sem querer estragar a surpresa para os que não conhecem a história, basta dizer que Oliveira nos apresenta Francisco (vivido por Ricardo Trêpa), um contador que se apaixona perdidamente por uma bela jovem (Catarina Wallenstein) com a qual troca olhares todas as tardes pela janela.

O diretor acerta ao trazer atemporalidade à obra, com personagens de gestos e atitudes que se alternam entre antigas e modernas. A Lisboa apresentada é claramente nascida das lembranças da juventude do cineasta, assim como os chapéus que serviam de adorno a uma elegância esquecida (infelizmente) pelos homens de nosso tempo.

A realidade é que não são os filmes do diretor que são lentos, fomos nós que perdemos a paciência. Oliveira (assim como Ozu) cria obras para serem saboreadas com calma, onde os detalhes possuem razão de existir.

Marcha da Vida

Marcha da Vida
O holocausto sempre será matéria-prima para as mais diversas produções cinematográficas, muitas com grande apelo e alcance popular. Importantes obras que podem e devem lembrar o que de pior um ser humano é capaz. Nesta sexta chega aos cinemas mais um documentário que esmiúça os eventos daquela época negra da humanidade através do olhar de quem viveu – e sobreviveu – ao genocídio. Marcha da vida, doc. dirigido por Jessica Sanders e co-produzido pela Conspiração Filmes em parceria com a Filmland.

“Marcha da Vida” mostra a experiência de jovens de diversas partes do mundo ao conhecerem campos de concentração mantidos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Filmado no Brasil, Alemanha, Polônia, Israel e Estados Unidos, o documentário acompanha os participantes desta marcha, numa jornada emocionante, desde a sua terra natal (São Paulo, Los Angeles e Berlim) até a chegada a Auschwitz e Birkenau, onde os jovens entram em contato com a história.

Jessica teve a habilidade de captar através de suas câmeras a emoção vivida tanto pelos sobreviventes como pelos jovens. Mesmo optando pelo padrão esquemático muito comum na maioria dos documentários como imagens em plano geral, depoimentos em off e entrevistas, Sanders soube dosar cada fala e imagem sem se exceder ou soar artificial na busca pela emoção fácil. Além de tudo foge do didatismo monótono, o que deve elevar o interesse do público e reavivar na memória de todos um dos maiores crimes que o mundo já conheceu. Uma aula de história recente da humanidade e obrigatória sempre.

Saturação

 

A sociedade atual está saturada, o que significa que está em processo de desestruturação e de reestruturação a partir dos elementos mesmos que são ora desconstruídos.
Ao mesmo tempo, todo o pensamento sobre o social e o cultural está saturado, até mesmo no sentido vulgar da palavra, com velhas fórmulas e ideias feitas. O sentido, diz Maffesoli, precisa ser invaginado.
Os dois textos que integram esta edição foram publicados originariamente pela CNRS Éditions, iniciativa editorial do Centro Nacional da Pesquisa Científica da França, na forma de dois pequenos livros independentes, cada um sob seu próprio título: Apocalipse e Matrimonium (Pequeno tratado de ecosofia). São esses textos que ora se reúnem pela primeira vez, graças a esta edição brasileira, sob o título comum Saturação, decidido pelo autor em conversa com o coordenador desta coleção.
A saturação, como Maffesoli explica no prefácio a esta edição, é um processo quase-químico que responde pela desestruturação de um dado corpo e pela subsequente reestruturação desse mesmo corpo com os componentes daquilo que foi desconstruído. Na visão de Maffesoli, o que está em desestruturação e em vias de reestruturação por meio de seus próprios elementos desmontados – o que está, portanto, em processo de saturação – é a sociedade atual e, mais especificamente, a sociedade moderna, revista e recomposta agora no formato de uma sociedade pós-moderna.
E o autor retoma aqui, com outras palavras e por outras perspectivas, a descrição que fez e está fazendo deste novo formato social, isolando e reexaminando suas características e mostrando em quê e como possibilita às pessoas um outro relacionamento com a vida e o mundo, um outro estar-na-cultura por ele considerado mais estimulante e mais apto a fazer, da existência, uma obra de arte.
Ao mesmo tempo, está claro, saturação é uma palavra a ser tomada também em seu sentido cotidiano de estar cheio, de não aguentar mais – e aquilo de que Maffesoli está cheio e que ele não aguenta mais (e não está sozinho nessa sensação e nesse sentimento) é o desprezo por este mundo que existe, a negação deste mundo que existe em nome de um além-mundo moralista de cunho religioso ou político (quase sempre, uma única entidade). Essa negação e esse desprezo pelo que está aí apresenta-se como um intransponível obstáculo, um obstáculo efetivamente duro e não apenas epistemológico, para que seja possível viver a vida, vida, no entanto, hoje, a ser continuamente postergada em nome de um além pós-morte ou de um futuro que já vai raiar, mas que nunca chega porque não se permite que chegue.
Maffesoli está saturado, também, das ideias feitas, dos conformismos do pensamento sociológico, das fórmulas politicamente corretas que repetem como papagaios opiniões velhas de duzentos anos ou mais e que não terminam de espalhar-se, insuficientemente contestadas, pelo tecido da reflexão sobre o ser humano e a sociedade.
Discutindo o moralismo vazio que se opõe às práticas jovens dos piercings, das tatuagens e das roupas que mais mostram do que ocultam, o autor indaga-se sobre o que acontece quando a civilização já deu o melhor de si mesma e se transforma em cultura.
Pondo sempre a tônica na qualidade da existência, Maffesoli critica os “de profundistas” e busca as vias que permitem a “eclosão das coisas” servindo-se do que denomina de sua geossociologia e sua ecosofia.
Como os outros livros deste autor e desta coleção, também este mostra-se um instrumento decisivo não apenas para o entendimento da dinâmica cultural contemporânea em si mesma como para a definição de políticas culturais que de fato criem as condições para que cada um invente seus próprios fins e não viva sob o império de fins criados fora dele e antes dele.

Fagundes Varela,O Evangelho nas Selvas

Folheando O Evangelho nas Selvas ou Anchieta (1871-75), de Fagundes Varela, é curioso o passeio pelas páginas iniciais onde se estampam uma nota editorial e uma longa introdução. Essas páginas são marcadas pela melancolia que a recente morte do “poeta da simplicidade e da singeleza” impunha. E o tom das lamentações é bastante grandiloquente, com os exageros característicos da época. No final de uma das notas elegíacas do livro, deparamo-nos com essa verberação patética: “Eu não te lastimo, não. Invejo-te.” Pois, o autor da nota não lamentava o fim precoce do poeta fluminense, mas antes invejava sua sorte! Patético demais! Bem ao gosto... “Tão Brasil” – diria Mário de Andrade.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Morta Viva


O título em português desse filme clássico de Jacques Torneur lançado em 1943 pode fazer supor que seja uma produção podreira sobre zumbis. Mas o caso aqui é quase que o oposto. Assim como na sua outra obra-prima “Sangue de Pantera” (1942), o mestre dos filmes de horror da RKO prefere investir na construção de atmosferas sombrias e no suspense psicológico, onde a tensão vem muito mais do que é sugerido do que é realmente mostrado. Tourneur obtém seqüências de uma beleza visual perturbadora, principalmente naquela em que a enfermeira Betsy (Frances Dee) segue a Senhora. Holland (Edith Barrett) no meio de uma floresta sombria e enevoada. As trucagens são simples e econômicas, mas contribuem fantasticamente com o raro encanto sensorial de “A Morta Viva”. O resultado de tantas virtudes cinematográficas é um filme que envelheceu quase nada.

Contracorrente

Contracorrente
Uma espécie de Dona Flor e Seus Dois Maridos às avessas, esse filme Peruano que concorreu a uma vaga ao Oscar desse ano, mas foi eliminado logo na primeira etapa, Contracorrente é mais um filme gay que chega aos cinemas sem se preocupar em chocar ou mesmo levantar bandeiras. Esse é um ponto importante no longa dirigido por Javier Fuentes, decidido apenas a contar a história de amor entre dois homens em meio a uma sociedade preconceituosa (uma vila de pescadores).

Contracorrente pode ser facilmente comparado ao sucesso O Segredo de Brokeback Montain, devido as semelhanças com o filme de Ang Lee, mas a verdade que o tema de amor entre dois homens não trás tanta novidade na maioria dos roteiros. Os argumentos no geral se assemelham como um todo e “Contracorrente” sofre desse problema. Em parte, o público sabe o que esperar no fim das contas. Para tentar driblar esse problema, Fuentes se valeu do artifício do sobrenatural para dar maior importância à história de Santiago (O pintor) e Miguel (O pescador), que vivem uma paixão as escondidas, até que uma tragédia revela mais do que Miguel desejaria. É nesse ponto que o filme perde força e segue pelo caminho espiritual. Se não fosse nessa Contracorrente, talvez trouxesse algum diferencial.

O filme tem uma boa fotografia e boas atuações, mas permanece mediano devido ao seu tema atual, mas sem um bom argumento. Vale pela tentativa de tocar em um assunto importante e que na maioria das vezes é jogado para “debaixo do tapete”.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Patópolis



“Não gosto do nome “gibi”. Tem algo de ensebado; de “gurizada”; de dobrável; carta de baralho cujas pontas se desfolham em orelhas, orelhinhas.

Gibi, guri, figurinha: explicita-se aí uma minúcia de epitélio infantil, de dobrinha nas juntas de um bebê, de desbeiço pequenino, de nhenhenhém com cheiro de óleo Johnson, bibicos de chupeta, folhação de carne inocente, escamas de gordura assexuada, bilu-bilus de baba, alegrias; espécie de bíblia lambe- lambe, pipizinho jubilante, bibliofilia em fraldas.”

Assim começa este livro do sociólogo e jornalista Marcelo Coelho, que revisita
as suas leituras de infância, e em especial as histórias em quadrinhos de Walt
Disney.

Não se trata, porém, de análise sociológica ou de ensaio crítico. O colunista da Folha de S. Paulo retoma, aqui, a veia memorialística inaugurada em Noturno, publicado pela Iluminuras em 1992.

Mistura de ficção, memória e ensaio especulativo, Patópolis não se enquadra em nenhum gênero literário preestabelecido. muitas perguntas e inquietações de sua infância e adolescência.

Num texto fantasioso e cheio de meandros, surgem questões aparentemente singelas: como é possível que patos comam frango assado? Se Pluto é um cachorro, como explicar que Pateta seja um cachorro também? Há religião em

Patópolis? Quantos Metralhas existem, afinal?

Outros fantasmas da infância em cena conforme se ramificam as lembranças do autor - cuja narrativa imperceptivelmente passa das curiosidades infantis para o plano da puberdade e da adolescência, vividas no ambiente contraditório e claustrofóbico do Brasil da década de 1970.

A trama de Patópolis, ao mesmo tempo complexa e transparente, pode
sem dúvida inquietar o leitor. Mas o humor e o lirismo do estilo superam
graciosamente todas as estranhezas que o autor instilou neste audacioso
exercício de literatura.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Eu Sou o Número 4

Eu Sou o Número 4
Cada vez mais os estúdios de cinema se voltam para o público adolescente produzindo histórias açucaradas com teor de ação e ficção misturados, criando uma salada por vezes sem sal e sem tempero. Seguindo a mesma tendência – infelizmente- da saga Crepúsculo, chega aos cinemas “Eu Sou o Número 4”, produção dirigida por D.J. Caruso, diretor que já mostrou uma média habilidade no gênero do suspense com Paranóia, mas não tem feito nada de fato com mais substância atualmente. Agora o diretor volta ao cinema com essa adaptação de um livro não tão conhecido do grande público. Será falta de um bom roteiro?

“Eu sou o Número 4” é previsível do início ao fim com é o habitual das produções que tem como foco o público adolescente. Um emaranhado de idéias antigas que se propõem apenas e tão somente a entreter sem criar um conteúdo inovador para o gênero água com açúcar. A premissa é mesma que tantos e tantos filmes voltados para a faixa mais consumidora da sociedade, os adolescentes. Nele temos os eternos clichês dessas produções, o mocinho que foge dos alienígenas caçadores, a mocinha que se revela uma grande guerreira e claro, um colégio cheio de valentões idiotas e suas vítimas nerds. Sem falar nos vilões alienígenas.

O problema desse tipo de filme é não beber de outras primorosas fontes que tanto fizeram sucesso em décadas passadas e buscar idéias em livros e roteiros bobos que subestimam a inteligência de um público que precisa ser instigado.

A Trilogia “De Volta para o Futuro” é uma prova de que é possível fazer um filme onde a junção de diversos estilos (drama, comédia, ação, suspense) deram certo e até hoje é referência de bom roteiro e direção. Mas também é a prova de que, infelizmente, nem sempre uma boa fórmula pode ser reproduzida. E Eu Sou o Número 4 está aí para atestar. Pena.

Caçado


Uma das coisas que mais se falou sobre o brilhante “Possuídos” (2006) é que o mesmo marcava o “renascimento artístico” de William Friedkin. Bem, quem falou essa bobagem provavelmente não viu ou tem de rever “Caçado”, produção de 2003 também dirigida por Friedkin, obra essa que está no mesmo nível de qualidade de outras belas obras-primas desse mestre como “Operação França” (1971) e “Viver e Morrer em Los Angeles” (1985). Friedkin mostra que não é necessário fazer dezenas de cortes por minutos para se fazer uma ótima seqüência de ação, sendo que é impressionante em “Caçado” a classe do trabalho de montagem do filme. O cineasta conduz com precisão uma obra que alia forte tensão com cenas eletrizantes de perseguição e lutas corporais. As seqüências em que os personagens de Tommy Lee Jones e Benicio Del Toro duelam com facas e no braço são primorosas no seu dinamismo cinematográfico. Aliás, outro ponto forte em “Caçado” é o ótimo trabalho de direção de atores, com Jones e Del Toro tendo alguns dos melhores momentos dramáticos de suas carreiras.

Assistir a “Caçado” é ver o bom cinema de ação em estado de graça nas mãos de um dos maiores especialistas no gênero.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Os outros



Neste livro estão reunidos textos de 27 escritores argentinos contemporâneos, muitos deles publicados no Brasil pela primeira vez, outros já consagrados e conhecidos em língua portuguesa.

É a chance de o leitor brasileiro conhecer um mapa da produção argentina atual para além dos escritores tornados famosos pelo boom literário dos anos 1960. Os outros foi organizado pelo escritor e psicanalista argentino Luis Gusmán, a partir da ideia de que uma antologia não precisa resultar necessariamente em soma pois, para ele, “Os outros quer dizer diferença”.

Diferença nos mais diversos sentidos. A nacionalidade, por exemplo, neste início de século 21 é um conceito incerto e movente. Assim, cabem nesta antologia argentina tanto o olhar do viajante argentino nos Estados Unidos (Sergio Chejfec) quanto o da nipo-americana que
adotou a língua espanhola como pátria literária (Anna Kazumi Stahl).

Em relação aos temas, são diversos os territórios, desde a saborosa memória de uma história de migração armênia (“Amor pela armênia”, de Matilde Sánchez), a evocação mítica da Calábria que destrói a
língua espanhola (“Se tivéssemos vivido aqui”, de Roberto Raschella), até a narração de um episódio misterioso da vida de Stendhal na Letônia (“O nariz de Stendhal”, Daniel Guebel) e do próprio passado argentino, em intimistas construções histórico-narrativas (“O cerco”,
de Martín Kohan; “Vida de uma bala”, de Juan Becerra).

Quanto aos gêneros, comparecem a crônica na cidade, sintetizada em uma praça (“Tenha dó (Praça Miserere)”, de María Moreno); a poderosa prosa poética de Luis Tedesco; e o diário de um tradutor viciado, Rímini,
personagem constante na obra de Alan Pauls (conhecido no Brasil pelo filme O passado, de Héctor Babenco, 2007).

A iniciação sexual de dois adolescentes comparece com o violento humor de Sergio Bizzio, com seu “Cinismo”, que coloca em xeque a moral sexual da burguesia liberal numa história depois levada às telas (XXY, Dir. Lucía Puenzo, 2007). A loucura é tema de dois grandes contos, “O escolhido”, do já falecido tradutor do Finnegans Wake, Carlos Eduardo Feiling, que constrói uma possibilidade do conto fantástico do século XX; e “Nos confins da cidade”, de Gustavo Ferreyra, em que a loucura da própria esposa é o tema da perturbadora narrativa.

Este livro é o mapa fundamental da produção em prosa da Argentina de hoje, em sua diversidade. Os outros, talvez sem tal pretensão, termina por mapear também o lugar do escritor argentino contemporâneo.

Os autores desta antologia são, em sua maioria, o que se chama profissionais das Letras: professores universitários, críticos literários,
articulistas e tradutores. É preciso conhecê-los.

O diário de Anne Frank

Diario de Anne Frank



De inicio...vou comentar sobre um livro que eu achei muito interessante.Entrando na onde de segunda guerra mundial com o livro que a Lady postou embaixo, o Diário de Anne Frank traz o comovente relato de uma menina de 13 anos, judia que se ve no meio da segunda guerra mundial.Esse é uma história veridica.Seu diário foi encontrado após o fim da S.G.M e publicado pelo seu pai Otto Frank.

Nele anne fala de sua vida no 'anexo' lugar onde ela, sua familia e mais um grupo de judeus passam a residir para fugir da perseguição nazista.
Bom, ele mostra a realidade de judeus que viveram naquela época...uma crua e verdadeira realidade...

É esta ai minha dica de hoje, espero que gostem...é um livro emociionante. Vale realmente a pena ler !

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O Amor nos Tempos de Cólera


A produção é norte-americana, o roteiro é baseado no livro de um escritor colombiano, a trama se passa numa cidadezinha imaginária da América do Sul, o diretor é inglês e o casal de protagonistas é vivido por um espanhol e uma italiana (com ambos falando um inglês macarrônico). É claro que não é regra que uma combinação esdrúxula dessas necessariamente teria de resultar em um mau filme, mas no caso de “O Amor nos Tempos de Cólera” toda essa confusa combinação de elementos acabou implicando numa obra sem vida e de personalidade nula. A bonita fotografia e a trilha sonora até tem seus encantos, mas não fazem com que a narrativa perca o seu excessivo ranço acadêmico. Confesso que não li o livro de Gabriel Garcia Márquez, mas a trama do livro, digna de uma novela das 8, não me estimulou nem um pouco a ler ao mesmo. É irritante também a forma caricatural com que Mike Newell retrata personagens e situações, tirando dos mesmos quaisquer traços de humanidade e consistência dramática. Tudo no filme é vazio e contaminado por um exotismo para anglo-saxões se deslumbrarem.

Lençois de Cetim

Comecei a ler o livro no dia 26 de Abril e acabei no dia 2 de Maio.Um canal de televisão promove um concurso que implica um casamento e os vendedores são Kit e Shelly - duas pessoas que nunca se encontraram anteriormente. Com o objectivo de ganharem um apartamento de luxo em Docklands, uma lua-de-mel de cinco estrelas e um avultado prémio em dinheiro, é-lhes lançado um repto... Shelly e Kit têm de permanecer casados para conquistarem a recompensa. E enquanto as câmaras de televisão seguem a "benção" matrimonial e todos os passos do casal, torna-se evidente que esta irá ser a primeira e a última experiência em termos de TV real.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não Se Pode Viver Sem Amor

A proposta narrativa de Jorge Durán em “Não Se Pode Viver Sem Amor” (2010) é interessante como conceito. Três histórias paralelas que vão estabelecendo pontos em comuns até atingirem um denominador como trama única lá pelo seu terço final. Para fazer tal interligação, há toques de elementos fantásticos no roteiro. Se essa união entre uma abordagem naturalista e elementos de fantasia traz momentos insólitos que garantem o interesse para o filme, também é responsável pelo ponto fraco da produção, no sentido de revelar uma certa indecisão criativa na narrativa. A conclusão do filme é reflexo claro de tal postura, ao evidenciar uma solução estapafúrdia, típica de alguma novela global. Se tais equívocos comprometem o trabalho de Durán, por outro lado o cineasta compensa os mesmos ao apresentar um sólido trabalho de direção de atores – Simone Spoladore, Ângelo Antonio, Cauã Reymond e Fabíula Nascimento oferecem uma consistência dramática notável para os seus respectivos personagens.