“Não gosto do nome “gibi”. Tem algo de ensebado; de “gurizada”; de dobrável; carta de baralho cujas pontas se desfolham em orelhas, orelhinhas.
Gibi, guri, figurinha: explicita-se aí uma minúcia de epitélio infantil, de dobrinha nas juntas de um bebê, de desbeiço pequenino, de nhenhenhém com cheiro de óleo Johnson, bibicos de chupeta, folhação de carne inocente, escamas de gordura assexuada, bilu-bilus de baba, alegrias; espécie de bíblia lambe- lambe, pipizinho jubilante, bibliofilia em fraldas.”
Assim começa este livro do sociólogo e jornalista Marcelo Coelho, que revisita
as suas leituras de infância, e em especial as histórias em quadrinhos de Walt
Disney.
Não se trata, porém, de análise sociológica ou de ensaio crítico. O colunista da Folha de S. Paulo retoma, aqui, a veia memorialística inaugurada em Noturno, publicado pela Iluminuras em 1992.
Mistura de ficção, memória e ensaio especulativo, Patópolis não se enquadra em nenhum gênero literário preestabelecido. muitas perguntas e inquietações de sua infância e adolescência.
Num texto fantasioso e cheio de meandros, surgem questões aparentemente singelas: como é possível que patos comam frango assado? Se Pluto é um cachorro, como explicar que Pateta seja um cachorro também? Há religião em
Patópolis? Quantos Metralhas existem, afinal?
Outros fantasmas da infância em cena conforme se ramificam as lembranças do autor - cuja narrativa imperceptivelmente passa das curiosidades infantis para o plano da puberdade e da adolescência, vividas no ambiente contraditório e claustrofóbico do Brasil da década de 1970.
A trama de Patópolis, ao mesmo tempo complexa e transparente, pode
sem dúvida inquietar o leitor. Mas o humor e o lirismo do estilo superam
graciosamente todas as estranhezas que o autor instilou neste audacioso
exercício de literatura.
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